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Henrí Galvão

5 de setembro de 2018

No livro O Eu e o Inconsciente Jung fala de uma técnica pra que uma pessoa possa conversar com o “outro lado”.

É um tipo de conversa consigo mesmo em que se pode reconhecer tudo o que o inconsciente queira expressar naquele momento.

Como é o tipo de experiência que pode ser bastante assustadora, Jung não a recomenda a não ser em casos de real necessidade.

Mas ele também não deixa de reconhecer que há aqueles que podem se interessar por isso por uma “santa curiosidade”.

A essa “santa curiosidade” ele dá o nome de “nostalgia do sol”:

Letra:

O calor é insano
Mas é o preço a se pagar
Pra assistir de perto
Ao último baile solar
Se a luneta é pra ver
A lupa é pra queimar
E o rastro que ela deixa
É bem fácil de notar
De um jeito ou de outro
Eu continuo aqui
Não vou arredar pé
Enquanto me faltar aprender
A me espelhar sem ninguém

Sei que tem um sentido
Pro caminho que o sol
Insiste em deixar
Cada vez mais pior
Já posso até sentir
O ponto de condensação
Mesmo que disfarçado
De chuva de verão
E ainda conto com
A boa vontade do céu
Pra me desgarrar de vez
Só mesmo assim pra silenciar
Qualquer objeção
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Henrí Galvão

13 de agosto de 2018

Compor sempre foi, pra mim, uma conversa comigo mesmo.

E, como em toda conversa, muitas vezes a gente só sabe exatamente o que vai falar no exato momento em que se expressa de fato.

Daí porque acontece que, muitas vezes, a gente fala coisas que não esperava.

É o caso da canção de hoje, por exemplo.

Que, enquanto escrevia, percebi que falava (pelo menos em parte) de um filme que vi há muito tempo, chamado Efeito Borboleta.

Pra quem não assistiu, não vou dizer o porquê (entendedores entenderão):

Letra:

Foi tão somente um apagão
Desses que vêm e vão
Nada que justifique
Tanta preocupação
Você quer mesmo saber
Pra onde eu fui dessa vez?
Pra ser sincero, nem eu sei
É quase sempre a mesma coisa
E é como se eu não tivesse escolha
A não ser apertar os cintos
E esperar a turbulência passar
Falando assim é fácil
Mas leva um tempo pra se acostumar

Henrí Galvão

3 de agosto de 2018

Desde muito novo que me parecia que o caminho mais curto para uma experiência mística era o céu noturno.

Desde que não se entenda “mais curto” por “mais fácil”, é claro.

Letra:

Me custa muito crer
Que é só pedir
Pra que as estrelas
Façam um belo de um colibri
Não é tão fácil ignorar
O brilho de uma ursa polar
E se fiar na imaginação
Pra enxergar qualquer dimensão
Que escape dos eixos cardeais
Sem tropeçar nas linhas
Ou nos montes das próprias mãos
Pode até ser pessimismo meu
Mas talvez um entre cem
Vai saber chegar
Ao infinito e além

Pode muito bem ser
Que qualquer um
Saiba o bastante
Pra se ver a olho nu
Mas e depois, o que é que vem?
Não dá pra contar com ninguém
Nem com uns poucos riscos no céu
Feitos com um velho cinzel
Que já não corta nem capim
Não sei o que essa transcendência
Pode ser capaz de tirar de mim
Mas se é tudo mesmo uma iniciação
Só posso aceitar
Que é assim que o mundo
Faz questão de girar

Henrí Galvão

19 de julho de 2018

Quem acompanha o universo da nutrição sabe que sempre aparece algum novo estilo de alimentação.

Ou, talvez seja melhor dizer, um novo “ajuste fino” pra abordagens que, essencialmente, têm muito mais semelhanças que diferenças entre si.

Isso porque, embora as possibilidades aparentemente sejam inúmeras, aquelas que mais tendem a dar certo levam em conta a evolução biológica do ser humano.

Com a palavra, o dr. Souto:

Toda a história da civilização, todas as guerras, todas as culturas, pirâmides, conquistas, enfim, toda a história humana de que temos registro corresponde a menos de 0,5% da evolução do gênero Homo. Isto significa que nossos 10 mil anos de agricultura são um fenômeno extremamente recente do ponto de vista evolutivo.

Letra:

Lá na minha fase de homem mitológico
Com muito pouco eu já era feliz
Não que me faltasse oportunidade
De arrancar o mal pela raiz

Mas eu vivia muitissíssimo bem
Sem precisar de nada além
Que os restos mortais
De primos distantes
Que tiveram o azar
De ficar pra trás

E eu tinha tempo de sobra
Pra curtir o dia
Ao som da flauta de Pã
Quem será que inventou
Que é quase um pecado
Pular o café da manhã?

E haja estômago pra se acostumar
A bater no almoço e no jantar
Um prato de arroz, farinha e feijão
Sem falar naquele lanche
Entre cada refeição

Faça o que bem entender
Mas me deixa voltar
Pro meu churrasco no carvão

Henrí Galvão

7 de julho de 2018

Será que houve algum ser humano que nunca sentiu, nem que fosse por um único segundo, um impulso de transcendência ao olhar pro céu noturno?

E, quando esse impulso esbarra na realidade (como sempre acontece), como saber se vale a pena abrir mão dele ou não?

Letra:

Espera só eu terminar
Tudo o que eu tinha pra dizer
Quebrei a cara, mas foi porque quis
Voar mais alto que qualquer 14-bis

Não tenho ainda muito que mostrar
Por isso, só quero lembrar
Que nem só de pão vive quem tem fé
Nem só de ondas vive a maré

E eu sei que sou capaz
De ir muito além
De Centauro e Orion

Eu só preciso achar um jeito
De não depender demais
Dos caprichos das musas e dos jinns
E parar de perder tempo
Com um arrebatamento
Que eu nem sei se é pra mim

Henrí Galvão

18 de junho de 2018

Se a música anterior que subi pra playlist impermanente falava da dificuldade de se dar explicações, a de hoje, de certa forma, fala do contrário: as dificuldades que vêm ao se explicar demais.

Principalmente quando, do outro lado, só o que se ouve é ruído.

Letra:

Não importa o quanto
Eu diga tudo que sei
Você ainda acha
Que é só apertar o play
E no melhor dos casos
Vai dizer que eu só faço
Nadar no raso

Seria até bom um dia ser
Esperto o bastante pra você
Me se me falta pedigree
Por que eu deveria insistir?

Henrí Galvão

7 de junho de 2018

Destino é uma palavra um tanto difícil de se definir.

Não sou dos que acreditam que tudo está predeterminado, mas também não ignoro que cada um tem suas vocações e interesses.

E acredito que há um motivo pra isso.

Ainda que uma pessoa, por qualquer que seja o motivo, não siga tal caminho (a sua “bem-aventurança”, como dizia Joseph Campbell), ele está sempre aí.

Mesmo quando a gente só possa intuí-lo num nível muito sutil.

Letra:

Nunca precisei abrir o horizonte em dois
Nem levantar o véu da consagração
Não, não, não, não, não
Antes que eu soubesse me defender
Botando todos aqueles pingos nos is
De alguma forma o plano já era esse aí
E era quase inevitável que terminasse assim