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O autêntico e o profano

Izumi Tokuho, dançarino de kabukiEm um dos primeiros capítulos de seu livro Como Funciona a Música, David Byrne fala das apresentações teatrais na Ásia (principalmente no Japão e em Bali) a que teve a oportunidade de assistir no início dos anos 80.

Nelas, o que mais lhe chamou atenção foi o seu caráter deliberadamente “artificial e representacional” (em contraste com o teatro ocidental, mais “naturalista”), o que o levou a reconceituar os shows da sua própria banda, o Talking Heads:

Acho que eu estava preparado para receber essa nova maneira de encarar a performance, e logo entendi que não havia nada de errado em fazer um espetáculo que não tentasse parecer “natural”. A ênfase ocidental no pseudonaturalismo e o culto à espontaneidade como algo mais autêntico eram apenas uma forma de se fazer as coisas no palco. Eu resolvi que talvez fosse legal vestir uma fantasia e interpretar um papel. Isso não implicava nenhuma insinceridade; aliás, esse tipo de performance é praticado por toda parte, se você parar para olhar. […]

abordei essa questão mais de uma vez aqui no blog, principalmente porque, como cantor-compositor, reconheço que é considerável essa expectativa (ainda que implícita) de que o que faço deva expressar “emoções sinceras”.

Por outro lado, tem uma coisa que até aqui eu nunca havia questionado mais seriamente: desde quando essa valorização da “espontaneidade” na arte passou a ser a norma?

Segundo Wilson Ferreira, do blog Cinegnose (num texto que escreveu por ocasião da morte de Amy Winehouse, em meados de 2011), essa busca ficou mais evidente com a própria formação da indústria cultural, ainda na primeira metade do século XX.

Valendo-se da perspectiva do pesquisador de mídia alemão Dieter Prokop, Wilson comenta como a apropriação da esfera da cultura pela dinâmica do capitalismo industrial trouxe um paradoxo no mínimo curioso:

[…] O imperativo do ritmo veloz de produção significa que a produção deve ser estandardizada. […] Por isso, o grande desafio da indústria do entretenimento é o de vender mercadorias como se assim não fossem. Fazer o “autêntico”, a “vivacidade” e o espontâneo desviarem a atenção do público do ato mercantil da troca. […]

Falando especificamente da indústria da música, acredito que não haja melhor exemplo disso do que o fascínio que a assim chamada world music exerce em muitas pessoas.

Embora não haja uma definição muito exata pro que venha a ser world music, podemos dizer que é um termo que trata geralmente da música que apresente algum aspecto tido como “étnico”, ou “regional” – de preferência fora do eixo América do Norte/Europa.

Assim, não é raro ver um artista nascido em um lugar “exótico” buscar “resgatar” suas raízes, valendo-se da percepção do público “civilizado” de que isso conferiria um aspecto mais “puro” – ou seja, mais autêntico – ao seu trabalho.

Longe de mim querer apontar o dedo pra quem quer que seja, mas, voltando ao texto de Byrne (que, por sinal, criou a sua própria gravadora de world music, a Luaka Bop), acredito que é essa a reflexão que ele busca levantar quando questiona o nosso culto à “espontaneidade”.

Não só pra nos lembrar de que não existe de fato “pureza” na arte, mas acredito que também por outro motivo, que pretendo abordar no próximo texto dessa série sobre Como Funciona a Música: a própria busca pela autenticidade talvez venha de uma noção no mínimo distorcida sobre o que, afinal, a arte expressa.

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