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Henrí Galvão

3 de maio de 2018

Tem algo muito instigante na ideia de que o impossível, muitas vezes, é uma questão de prática.

É por isso que uma das frases de Van Gogh de que eu mais gosto vem de uma carta que ele escreveu ao seu amigo (e também pintor) Van Rappard.

No caso, ele falava dos desafios de pintar “Os Comedores de Batatas”: “eu continuo fazendo o que ainda não consigo de forma a aprender a fazê-lo.

Letra:

O ruído foi assustador
Nem sei como o motor aguentou
Fiz tudo o que podia
Mas o que entendo de engenharia?
Se escapei ileso
É porque tive muita sorte
Na próxima vez
Nem vou olhar pro retrovisor

Mas diz aí
Como você fica tão zen
Tendo que fazer outra parada
A menos de dez metros
Da reta de chegada?
Isso é de se esperar?
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Com Amor, Van Gogh: em busca de uma nova narrativa

Durante boa parte do século XX, Van Gogh foi o exemplo consumado do “gênio atormentado”. Sua história foi quase sempre usada, em primeiro lugar, pra perpetuar o mito de um artista cuja loucura o impelia à criação, ao mesmo tempo que o consumia por completo.

Isso se percebe claramente nas representações mais emblemáticas sobre a sua trajetória. Só pra ficar em dois exemplos: Sede de Viver, o livro de Irving Stone que depois virou filme; e “Vincent”, a (belíssima) canção de Don McLean.

É claro que o que não faltam são episódios na sua vida que corroboram tudo isso: ter (literalmente) colocado a mão no fogo por uma mulher por quem estava apaixonado; ter vivido à beira do masoquismo nos seus tempos de missionário; ter cortado parte da própria orelha (entregando-a a uma prostituta); e por aí vai.

Nada disso deve ser minimizado. Até porque, depois do famoso episódio da orelha, ele mesmo reconheceu a necessidade de se internar num manicômio (onde inclusive chegou a tentar o suicídio). Fez isso não só para a sua segurança, mas também (talvez até principalmente) para a segurança das pessoas à sua volta.

Nos últimos anos, porém, mais e mais vem se buscando tirar um pouco o foco desses aspectos mais “românticos” da vida de Vincent. Afinal, há toda uma abundância de cartas escritas por ele que revelam um homem extremamente consciente e culto (e um estudioso da história e dos fundamentos da pintura).

E até mesmo o grande evento que sedimentou a sua imagem por décadas a fio vem sendo seriamente questionado: é bem possível que o tiro que ele teria dado contra o próprio peito tenha sido (acidentalmente) dado por outra pessoa, a quem Vincent teria preferido acobertar.

No entanto, até aqui o que faltava era justamente quem juntasse todas essas outras peças do quebra-cabeça e as apresentasse numa narrativa consistente para um público maior.

Agora não falta mais:

Com Amor, Van Gogh, dirigido pelo casal Dorota Kobiela e Hugh Welchman, estreou ano passado no festival de animação de Annecy. O filme é todo feito à mão por diversos artistas que se basearam nas suas pinturas (inclusive usando a mesma técnica: óleo sobre tela), o que por si só já justifica a ida ao cinema.

Ainda assim, o grande mérito dos diretores é mesmo o de oferecer uma narrativa mais completa sobre Vincent. Pra quem realmente tem interesse em ir um pouco além de todo o folclore a seu respeito, o filme oferece uma visão bem convincente de como foram os seus últimos anos de vida.

No entanto, mesmo que vença o Oscar no mês que vem (na categoria melhor animação), é pouco provável que Com Amor, Van Gogh tenha o mesmo impacto que as obras que citei no segundo parágrafo deste texto. Com todos os seus méritos, o filme está longe de ser uma experiência emocionalmente arrebatadora (e talvez nem fosse essa a intenção).

Mas já é, com certeza, um ótimo passo em direção a uma abordagem mais ampla não só sobre a vida de Van Gogh, mas também sobre os desafios que qualquer artista encontra pra se ver reconhecido e legitimado.

Nesse sentido, esse é o filme que todos nós esperávamos há muito tempo.

Sobre bloqueio criativo

Sempre que me deparo com qualquer menção a bloqueio criativo penso no quão importante é cultivar uma mentalidade em relação ao trabalho que ajude a fazer da criação algo menos sujeito a variações de humor.

Isso é especialmente útil pra artistas sem tanto conhecimento de teoria, como é o caso da maioria dos compositores de música popular. Muitos se acostumaram tanto com a ideia de que o processo criativo é uma questão de inspiração que falar em disciplina é quase um sacrilégio.

A questão é que, passada a empolgação inicial do período de descoberta da vocação, se um artista não fizer do processo criativo um hábito – isso é, se ele não estiver disposto a trabalhar na sua arte mesmo quando não se sentir tão inspirado –, dificilmente ele vai conseguir desenvolver todo o seu potencial.

Qualquer resistência em aceitar essa premissa básica vem, acima de tudo, de uma ideia romântica que ainda é bem forte no senso comum: a do “gênio criativo”. E, sabendo que uma mudança de paradigma nem sempre é tão fácil de se realizar, conhecer a perspectiva de vida dos grandes artistas pode fazer uma diferença enorme.

Usando um exemplo pessoal, me considero um felizardo por ter me sentido atraído desde cedo pelos trabalhos de Van Gogh. Foi a partir daí que me interessei também em ler as suas cartas, onde fica mais que evidente que, pra ele, a diferença entre um artista e qualquer outro trabalhador braçal é mínima.

E Van Gogh certamente estava longe de ser uma exceção. O que dizer do caso de Picasso – provavelmente o maior artista do século XX –, que tem uma produção estimada de quase 50.000 pinturas e ilustrações (sem falar nas esculturas, e outros trabalhos gráficos)!

Pablo Picasso

É claro que nem todos esses trabalhos estão no nível de “Guernica” ou “Dom Quixote”. Alguns talvez nem merecessem ter sido preservados, a não ser como fonte de estudo. Ainda assim, de certa forma essas obras “menores” foram fundamentais pra que Picasso desenvolvesse sua visão de forma mais contundente.

Não que a quantidade vá necessariamente levar à qualidade. Mas é no trabalho constante que é possível se aventurar por novos caminhos e ver até onde eles te levam. Ou, como o próprio Picasso teria dito, “a inspiração existe, mas ela tem que te encontrar trabalhando”.

Nunca perseguí la gloria…

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción

Esses versos do poeta andaluz Antonio Machado (que depois foram musicados brilhantemente pelo catalão Joan Manuel Serrat) ficaram rondando a minha cabeça enquanto lia um artigo recente do americano Chuck Klosterman para o New York Times, chamado “Which Rock Star Will Historians of the Future Remember?”.

Ou seja, Klosterman imagina um cenário de daqui a centenas de anos, quando o rock provavelmente não vai ser muito mais que um objeto de estudo histórico, e pergunta que músico vai ser lembrado como a síntese do gênero. Não vou dizer a qual conclusão ele chega, primeiro, porque acho que vale a pena a leitura do texto completo; segundo, porque minha intenção aqui é continuar essa discussão com outra pergunta: isso faz realmente diferença?

Antes de mais nada (e independente de fazer alguma diferença ou não), é importante ressaltar que esse desejo de ser lembrado pra posteridade é bastante perigoso. Tão perigoso que pode descambar pro que Paulo Coelho chama de “síndrome de Van Gogh” – ou seja, um artista pode achar que depois da morte é que virá o reconhecimento (assim como aconteceu com o pintor holandês).

Talvez seja possível argumentar que Paulo fala isso porque sabe que, se for depender dos críticos, é pouco provável que o seu legado sobreviva muitos anos depois de sua morte. Mas também é possível que ele não se importe muito com essas coisas, e com muita propriedade. Afinal, o alcance (e, por que não dizer, a influência) da sua obra é algo sem precedentes pra um escritor brasileiro (mesmo que muitos lhe achem um escritor de meia tigela).

Da minha parte, acredito realmente que a verdadeira liberdade pro ser humano está justamente em perseguir as coisas que são mais relevantes pra si próprio. Se elas são ou não relevantes pros outros, isso vai depender do quanto essa pessoa está vivendo de acordo com o seu propósito, e até que ponto ela consegue expressar esse propósito com clareza e competência.

E é aí que entra a citação de Machado com a qual comecei esse texto. A questão da transitoriedade das coisas é um tema bem recorrente nos seus poemas, e, paradoxalmente, parte do que torna a sua obra tão sedutora até hoje é o seu desprezo por essa suposta “imortalidade” artística. Logo, não é de espantar que a arte que mais perdura seja quase sempre aquela que é, acima de tudo, relevante pro seu próprio tempo.

Sobre os prazos pra criação

Dizem que uma vez perguntaram ao Tom Jobim qual seria a sua maior musa inspiradora, no que ele teria respondido sem pestanejar: “os prazos”. Considerando que esse é o mesmo homem que já teve Helô Pinheiro como musa, é o tipo de resposta que merece atenção.

Se formos pra pensar, um prazo é uma forma de ativar dois princípios psicológicos básicos: o da escassez (já que se reconhece que o tempo é limitado) e o do compromisso, ambos muito bem analisados por Robert Cialdini no seu clássico livro As Armas da Persuasão. Quando esse prazo está vinculado a um contrato assinado, então, tem-se uma situação de comprometimento extremo, já que os danos de não cumpri-lo não são só morais, como também econômicos.

Por isso, tenho certeza que Tom está longe de ser o primeiro artista a reconhecer esse estímulo. Uma das razões para muitos músicos que trabalham para o cinema (Ennio Morricone, John Williams etc.) serem tão prolíficos por décadas a fio é justamente o fato de escreverem quase sempre por encomenda, o que os ensina a trabalhar com um foco fora do comum.

Esse era o caso também de músicos populares de décadas atrás, quando as gravadoras estabeleciam contratos nos quais eles tinham de gravar um disco a cada doze meses, ou uma quantidade X de discos em 5 anos. Aliás, esse tipo de contrato explica também o lançamento de muitas coletâneas completamente fora de hora, assim como a gravação de discos inusitados. Mas aí já é outra história.

Voltando à questão do prazo ligado ao estímulo econômico, talvez seja por isso que, quanto mais consagrado é um músico, parece que maior é a tendência de que ele não cumpra os prazos pra lançar um álbum. Não é que “a fonte secou”, mas sim que gravar um disco acaba se tornando uma dentre várias outras atividades, muitas das quais dão a esse artista um retorno financeiro muito mais imediato. Essa tendência me parece nítida em nomes como U2, Metallica e Rolling Stones (banda que nem se dá mais ao trabalho de gravar um álbum antes de sair em turnê).

Existiria então algum motivo, pra além da necessidade financeira, pra que alguém em sã consciência queira se impor prazos pra criação? Com certeza. Uma maior produtividade é uma questão de aprendizado. Nada ajuda mais um músico a encontrar sua voz do que experimentar, mas sem esquecer de terminar o que começou. De pouco adianta um monte de ótimas ideias inacabadas no processo de amadurecimento de um artista.

Essa abordagem obviamente vai contra a concepção romântica da arte como um lugar misterioso e praticamente inacessível. Nesse sentido, me parece que os grandes pintores tinham um entendimento muito mais pragmático da situação. Já falei aqui de Van Gogh como um exemplo disso. O que dizer então de Picasso, que fez dezenas de milhares de quadros (isso sem falar nas esculturas)? Será que ele tinha a necessidade de produzir tanto assim? Provavelmente não. O que ele certamente tinha era o entendimento de que se manter comprometido com o processo é a melhor maneira de se explorar os limites da expressão artística.

Van Gogh e o artista enquanto trabalhador braçal

Semeador com Sol Nascente (1888)

Semeador com Sol Nascente (1888)

Uma das coisas mais admiráveis na trajetória de Vincent van Gogh é o seu esforço genuíno por dignificar a experiência do trabalhador braçal, principalmente o trabalhador do campo. A influência do seu pai, um pastor calvinista, e a sua própria experiência como missionário na Bélgica fortaleceram nele o desejo de servir de algum jeito, e foi certamente esse desejo, que lhe acompanhou por toda a sua carreira como pintor, que lhe induzia a se comparar frequentemente com esses trabalhadores. Isso fica óbvio, por exemplo, quando ele fala dos camponeses numa carta para a mãe: “estou arando minhas telas como eles fazem nos seus campos”.

Na mesma carta, ele dizia um pouco antes: “embora eu tenha visto Paris e outras grandes cidades por muitos anos, eu continuo me parecendo mais ou menos como um camponês de Zundert [sua cidade natal]”. Essa e outras afirmações do tipo são um indício claro da forma com que ele se enxergava, e a partir daí é bastante lógico perceber as consequências que isso teve na sua ética de trabalho, sendo que duas coisas saltam aos olhos: a sua vontade de se aperfeiçoar constantemente no seu ofício, e a visão não imediatista do resultado do seu trabalho. Em outras palavras, Vincent era um homem que não buscava atalhos em nada do que fazia.

Penso que, no geral, esse é um tipo de perspectiva muito saudável, e que poderia ser mais difundida nos dias de hoje. Parece que pra muitos artistas ainda impera a ideia de que a inspiração simplesmente aparece, e que não requer muito comprometimento. Felizmente Vincent não pensava assim. Ele sabia que levaria tempo pra chegar aonde queria, e que o seu caminho iria requerer muito esforço e dedicação. De fato, aquela que é geralmente considerada a sua primeira grande obra, Os Comedores de Batatas, só foi realizada em 1885, nada menos que cinco anos depois de ter decido se tornar um pintor, já com 27 anos.

A impressão que se tem ao ler suas cartas e ver seus quadros é que, apesar de todas as suas dúvidas e conflitos, não havia nele uma gota de soberba ou cinismo. Toda a sua obra era uma manifestação fiel da sua busca espiritual, e o próprio trabalho era um instrumento de autorrealização (ainda que suas vivências lhe tenham feito se desencantar consideravelmente com a religiosidade mais formal). Agora imagine se Van Gogh vivesse pensando no tempo que levaria até chegar a pintar grandes telas, ou em quantas telas teria que terminar até poder amarrar o burro na sombra.

Se essas coisas passavam pela sua cabeça, elas eram logo deixadas em segundo plano por conta do valor do trabalho na sua vida. Se formos parar pra pensar, a coisa é até bem simples. Da mesma forma que um camponês ara a terra e um tecelão trabalha na sua máquina, um pintor pinta na tela. Foi assim que Vincent aprendeu o seu ofício, aliando o seu talento natural a muito estudo e muita prática. Infelizmente, isso frequentemente era feito à custa de sua própria integridade física e mental, mas essa já é uma outra história, que em nada desmerece os seus acertos – que foram muitos.