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Arte e loucura

Das várias impressões a respeito do que um artista é – ou do que ele deveria ser –, talvez poucas tenham persistido por tanto tempo no imaginário coletivo quanto aquela que associa a sua personalidade a graus mais ou menos controlados de loucura.

Essa associação não é muito surpreendente se formos considerar que, pra maior parte do público, o paradigma de um artista de verdade é aquela figura misteriosa que se vale de surtos de inspiração pra sondar verdades que seriam inacessíveis a meros mortais.

Num ótimo texto escrito para a revista The Atlantic há alguns anos, o crítico literário americano William Deresiewicz denomina tal paradigma como o “gênio criativo”, e traça as suas origens ainda no século XVIII (com a ascensão do movimento romântico na Europa e todo o seu culto ao indivíduo).

O interessante é que no mesmo texto Deresiewicz aponta que não só esse paradigma foi substituído ainda no século XX pelo do artista “profissional”, mas até mesmo este último já estaria sendo substituído por outro (o do “empreendedor criativo”).

Por que, então, a ideia do “gênio criativo” continua exercendo tanto fascínio?

Imagino que isso aconteça, em parte, porque é mais glamouroso pensar em um indivíduo que simplesmente “nasceu pra fazer aquilo”, como se ele nunca tivesse estudado e praticado bastante também (mesmo que fora do círculo acadêmico).

Por outro lado, faço questão de ressaltar que não me parece que faz o menor sentido ir no extremo contrário – como volta e meia vejo por aí – dos que olham para a vida e a obra de alguém como Van Gogh e dizem que ele foi um grande artista não por causa da sua loucura, mas a despeito dela.[1]

Não acho que seja possível que um louco no sentido psicopatológico do termo seja um grande artista, mas essa associação também não é de todo absurda. Afinal, a criatividade artística se beneficia de certa dose de inadaptabilidade social, o que (querendo ou não) pode deixar um artista com um pé na loucura.

É claro que a coisa se complica um pouco na medida em que diversos artistas se valeram dessa expectativa por parte do público pra cultivar deliberadamente uma imagem de excentricidade. (O exemplo clássico disso no século XX foi Salvador Dalí.)

Mas a coisa fica séria mesmo não só quando um artista passa a usar tal expectativa como um “passe livre” pra atitudes que de outra forma seriam inaceitáveis, mas também quando ele/ela realmente acha que depende da “loucura” pra fazer algo realmente excepcional.

Ambas as situações me parecem ser o caso de Kanye West. Depois das várias polêmicas em que se meteu ao longo dos anos, não faz muito tempo que o rapper americano comentou que havia sido hospitalizado pra lidar com seu transtorno bipolar.

A própria capa do seu álbum de estúdio do ano passado, ye, diz: “I hate being Bi-Polar it s awesome” (“Eu odeio ser bipolar. É fantástico.”), e, numa declaração no Twitter meses depois, ele disse com todas as letras que os medicamentos que tomava estavam interferindo na sua criatividade.

O exemplo de Kanye é extremo, mas são muitos os artistas que sentem que estar demasiadamente “bem” poderia trazer consequências indesejadas ao seu trabalho. E talvez dê pra dizer que o que todos eles têm em comum é o medo do chamado estado de presença.

Isso é mais que compreensível para aqueles de nós que se identificam plenamente com a forma com que Carl Jung falava sobre a psicologia do artista: “a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento.”

Logo, ficar muito “centrado” pode facilmente ser visto como uma ameaça ao processo criativo, já que tal estado de espírito não nos faria “baixar a guarda” o suficiente pra que o “instinto” artístico se apodere de nós e faça o seu trabalho.

É um pouco como aquela famosa frase da psiquiatra Nise da Silveira: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.”

Caramba, como sair dessa?

Acredito que o próprio Jung oferece uma resposta bem satisfatória quando fala de individuação. Da forma com que ele entendia esse processo, podemos dizer que se trata de alcançar a autorrealização não exorcizando nossos demônios, mas justamente aceitando-os e integrando-os à nossa psique.

Ou seja, a questão não é se tornar alguém “curado”, mas simplesmente alguém mais “inteiro” – enfim, um indivíduo no sentido mais amplo do termo.

O grande barato disso para o artista, a meu ver, é a possibilidade de estar cada vez mais presente para se dedicar ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, entregar-se a ele com um nível de devoção que antes pareceria quase inimaginável (quando não assustador).

Essa é uma ideia que pretendo desenvolver melhor no meu próximo texto (o qual, por sinal, será o último que pretendo publicar por um tempo), já que aqui entramos numa discussão que trata de dois tipos de abordagens muito diferentes em relação ao processo criativo.

 

[1] Aliás, é bem possível que Van Gogh sequer fosse considerado necessariamente louco se vivesse nos dias de hoje. De qualquer forma, o próprio entendimento do que é loucura mudou tanto nas últimas décadas que deve ser um verdadeiro desafio fazer uma análise mais precisa sobre alguém que viveu há mais de um século.


comentários?

Henrí Galvão

20 de março de 2019

Nunca soube se algum dia conseguiria compor – e ter a coragem de compartilhar – uma música sobre Van Gogh que fizesse jus à sua importância pra minha vida.

Mas o trailer do mais recente filme sobre ele (que ainda não vi) despertou algo em mim que me disse que valeria a pena tentar de novo.

Antes que eu mude de ideia, é essa a canção que compartilho hoje:

Letra:

Era natural
Que, pouco a pouco, a norma do caos
Me afastasse de tudo o que dizem ser normal

Só sei viver assim
Entre a aquarela, o óleo e o nanquim
O que isso pode ter de tão ruim?

Já me vejo conformado
Nunca vou chegar
A desfazer o que eu nem fiz
Pra que forçar um sorriso dizendo xis?
Só pra que um dia pensem que eu fui feliz?

Nada me restou
Nada, a não ser o pavor
De não deixar nada de muito valor

E eu só encontro redenção
Quando me entrego, mesmo que em vão,
A um martírio além de qualquer lógica ou razão

Quem me dera se os meus dedos
Soubessem recriar
Uma rosa em carmesim
Ou o sol brilhando sobre um mar sem fim
Tudo parece tão difícil pra mim

Mas quem há de negar
Que estou mais pra lá do que pra cá?
Cedo ou tarde, a eternidade vai me alcançar

 

Henrí Galvão

3 de maio de 2018

Tem algo muito instigante na ideia de que o impossível, muitas vezes, é uma questão de prática.

É por isso que uma das frases de Van Gogh de que eu mais gosto vem de uma carta que ele escreveu ao seu amigo (e também pintor) Van Rappard.

No caso, ele falava dos desafios de pintar “Os Comedores de Batatas”: “eu continuo fazendo o que ainda não consigo de forma a aprender a fazê-lo.

Letra:

O ruído foi assustador
Nem sei como o motor aguentou
Fiz tudo o que podia
Mas o que entendo de engenharia?
Se escapei ileso
É porque tive muita sorte
Na próxima vez
Nem vou olhar pro retrovisor

Mas diz aí
Como você fica tão zen
Tendo que fazer outra parada
A menos de dez metros
Da reta de chegada?
Isso é de se esperar?

Com Amor, Van Gogh: em busca de uma nova narrativa

Durante boa parte do século XX, Van Gogh foi o exemplo consumado do “gênio atormentado”. Sua história foi quase sempre usada, em primeiro lugar, pra perpetuar o mito de um artista cuja loucura o impelia à criação, ao mesmo tempo que o consumia por completo.

Isso se percebe claramente nas representações mais emblemáticas sobre a sua trajetória. Só pra ficar em dois exemplos: Sede de Viver, o livro de Irving Stone que depois virou filme; e “Vincent”, a (belíssima) canção de Don McLean.

É claro que o que não faltam são episódios na sua vida que corroboram tudo isso: ter (literalmente) colocado a mão no fogo por uma mulher por quem estava apaixonado; ter vivido à beira do masoquismo nos seus tempos de missionário; ter cortado parte da própria orelha (entregando-a a uma prostituta); e por aí vai.

Nada disso deve ser minimizado. Até porque, depois do famoso episódio da orelha, ele mesmo reconheceu a necessidade de se internar num manicômio (onde inclusive chegou a tentar o suicídio). Fez isso não só para a sua segurança, mas também (talvez até principalmente) para a segurança das pessoas à sua volta.

Nos últimos anos, porém, mais e mais vem se buscando tirar um pouco o foco desses aspectos mais “românticos” da vida de Vincent. Afinal, há toda uma abundância de cartas escritas por ele que revelam um homem extremamente consciente e culto (e um estudioso da história e dos fundamentos da pintura).

E até mesmo o grande evento que sedimentou a sua imagem por décadas a fio vem sendo seriamente questionado: é bem possível que o tiro que ele teria dado contra o próprio peito tenha sido (acidentalmente) dado por outra pessoa, a quem Vincent teria preferido acobertar.

No entanto, até aqui o que faltava era justamente quem juntasse todas essas outras peças do quebra-cabeça e as apresentasse numa narrativa consistente para um público maior.

Agora não falta mais:

Com Amor, Van Gogh, dirigido pelo casal Dorota Kobiela e Hugh Welchman, estreou ano passado no festival de animação de Annecy. O filme é todo feito à mão por diversos artistas que se basearam nas suas pinturas (inclusive usando a mesma técnica: óleo sobre tela), o que por si só já justifica a ida ao cinema.

Ainda assim, o grande mérito dos diretores é mesmo o de oferecer uma narrativa mais completa sobre Vincent. Pra quem realmente tem interesse em ir um pouco além de todo o folclore a seu respeito, o filme oferece uma visão bem convincente de como foram os seus últimos anos de vida.

No entanto, mesmo que vença o Oscar no mês que vem (na categoria melhor animação), é pouco provável que Com Amor, Van Gogh tenha o mesmo impacto que as obras que citei no segundo parágrafo deste texto. Com todos os seus méritos, o filme está longe de ser uma experiência emocionalmente arrebatadora (e talvez nem fosse essa a intenção).

Mas já é, com certeza, um ótimo passo em direção a uma abordagem mais ampla não só sobre a vida de Van Gogh, mas também sobre os desafios que qualquer artista encontra pra se ver reconhecido e legitimado.

Nesse sentido, esse é o filme que todos nós esperávamos há muito tempo.

Sobre bloqueio criativo

Sempre que me deparo com qualquer menção a bloqueio criativo penso no quão importante é cultivar uma mentalidade em relação ao trabalho que ajude a fazer da criação algo menos sujeito a variações de humor.

Isso é especialmente útil pra artistas sem tanto conhecimento de teoria, como é o caso da maioria dos compositores de música popular. Muitos se acostumaram tanto com a ideia de que o processo criativo é uma questão de inspiração que falar em disciplina é quase um sacrilégio.

A questão é que, passada a empolgação inicial do período de descoberta da vocação, se um artista não fizer do processo criativo um hábito – isso é, se ele não estiver disposto a trabalhar na sua arte mesmo quando não se sentir tão inspirado –, dificilmente ele vai conseguir desenvolver todo o seu potencial.

Qualquer resistência em aceitar essa premissa básica vem, acima de tudo, de uma ideia romântica que ainda é bem forte no senso comum: a do “gênio criativo”. E, sabendo que uma mudança de paradigma nem sempre é tão fácil de se realizar, conhecer a perspectiva de vida dos grandes artistas pode fazer uma diferença enorme.

Usando um exemplo pessoal, me considero um felizardo por ter me sentido atraído desde cedo pelos trabalhos de Van Gogh. Foi a partir daí que me interessei também em ler as suas cartas, onde fica mais que evidente que, pra ele, a diferença entre um artista e qualquer outro trabalhador braçal é mínima.

E Van Gogh certamente estava longe de ser uma exceção. O que dizer do caso de Picasso – provavelmente o maior artista do século XX –, que tem uma produção estimada de quase 50.000 pinturas e ilustrações (sem falar nas esculturas, e outros trabalhos gráficos)!

Pablo Picasso

É claro que nem todos esses trabalhos estão no nível de “Guernica” ou “Dom Quixote”. Alguns talvez nem merecessem ter sido preservados, a não ser como fonte de estudo. Ainda assim, de certa forma essas obras “menores” foram fundamentais pra que Picasso desenvolvesse sua visão de forma mais contundente.

Não que a quantidade vá necessariamente levar à qualidade. Mas é no trabalho constante que é possível se aventurar por novos caminhos e ver até onde eles te levam. Ou, como o próprio Picasso teria dito, “a inspiração existe, mas ela tem que te encontrar trabalhando”.

Nunca perseguí la gloria…

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción

Esses versos do poeta andaluz Antonio Machado (que depois foram musicados brilhantemente pelo catalão Joan Manuel Serrat) ficaram rondando a minha cabeça enquanto lia um artigo recente do americano Chuck Klosterman para o New York Times, chamado “Which Rock Star Will Historians of the Future Remember?”.

Ou seja, Klosterman imagina um cenário de daqui a centenas de anos, quando o rock provavelmente não vai ser muito mais que um objeto de estudo histórico, e pergunta que músico vai ser lembrado como a síntese do gênero. Não vou dizer a qual conclusão ele chega, primeiro, porque acho que vale a pena a leitura do texto completo; segundo, porque minha intenção aqui é continuar essa discussão com outra pergunta: isso faz realmente diferença?

Antes de mais nada (e independente de fazer alguma diferença ou não), é importante ressaltar que esse desejo de ser lembrado pra posteridade é bastante perigoso. Tão perigoso que pode descambar pro que Paulo Coelho chama de “síndrome de Van Gogh” – ou seja, um artista pode achar que depois da morte é que virá o reconhecimento (assim como aconteceu com o pintor holandês).

Talvez seja possível argumentar que Paulo fala isso porque sabe que, se for depender dos críticos, é pouco provável que o seu legado sobreviva muitos anos depois de sua morte. Mas também é possível que ele não se importe muito com essas coisas, e com muita propriedade. Afinal, o alcance (e, por que não dizer, a influência) da sua obra é algo sem precedentes pra um escritor brasileiro (mesmo que muitos lhe achem um escritor de meia tigela).

Da minha parte, acredito realmente que a verdadeira liberdade pro ser humano está justamente em perseguir as coisas que são mais relevantes pra si próprio. Se elas são ou não relevantes pros outros, isso vai depender do quanto essa pessoa está vivendo de acordo com o seu propósito, e até que ponto ela consegue expressar esse propósito com clareza e competência.

E é aí que entra a citação de Machado com a qual comecei esse texto. A questão da transitoriedade das coisas é um tema bem recorrente nos seus poemas, e, paradoxalmente, parte do que torna a sua obra tão sedutora até hoje é o seu desprezo por essa suposta “imortalidade” artística. Logo, não é de espantar que a arte que mais perdura seja quase sempre aquela que é, acima de tudo, relevante pro seu próprio tempo.

Sobre os prazos pra criação

Dizem que uma vez perguntaram ao Tom Jobim qual seria a sua maior musa inspiradora, no que ele teria respondido sem pestanejar: “os prazos”. Considerando que esse é o mesmo homem que já teve Helô Pinheiro como musa, é o tipo de resposta que merece atenção.

Se formos pra pensar, um prazo é uma forma de ativar dois princípios psicológicos básicos: o da escassez (já que se reconhece que o tempo é limitado) e o do compromisso, ambos muito bem analisados por Robert Cialdini no seu clássico livro As Armas da Persuasão. Quando esse prazo está vinculado a um contrato assinado, então, tem-se uma situação de comprometimento extremo, já que os danos de não cumpri-lo não são só morais, como também econômicos.

Por isso, tenho certeza que Tom está longe de ser o primeiro artista a reconhecer esse estímulo. Uma das razões para muitos músicos que trabalham para o cinema (Ennio Morricone, John Williams etc.) serem tão prolíficos por décadas a fio é justamente o fato de escreverem quase sempre por encomenda, o que os ensina a trabalhar com um foco fora do comum.

Esse era o caso também de músicos populares de décadas atrás, quando as gravadoras estabeleciam contratos nos quais eles tinham de gravar um disco a cada doze meses, ou uma quantidade X de discos em 5 anos. Aliás, esse tipo de contrato explica também o lançamento de muitas coletâneas completamente fora de hora, assim como a gravação de discos inusitados. Mas aí já é outra história.

Voltando à questão do prazo ligado ao estímulo econômico, talvez seja por isso que, quanto mais consagrado é um músico, parece que maior é a tendência de que ele não cumpra os prazos pra lançar um álbum. Não é que “a fonte secou”, mas sim que gravar um disco acaba se tornando uma dentre várias outras atividades, muitas das quais dão a esse artista um retorno financeiro muito mais imediato. Essa tendência me parece nítida em nomes como U2, Metallica e Rolling Stones (banda que nem se dá mais ao trabalho de gravar um álbum antes de sair em turnê).

Existiria então algum motivo, pra além da necessidade financeira, pra que alguém em sã consciência queira se impor prazos pra criação? Com certeza. Uma maior produtividade é uma questão de aprendizado. Nada ajuda mais um músico a encontrar sua voz do que experimentar, mas sem esquecer de terminar o que começou. De pouco adianta um monte de ótimas ideias inacabadas no processo de amadurecimento de um artista.

Essa abordagem obviamente vai contra a concepção romântica da arte como um lugar misterioso e praticamente inacessível. Nesse sentido, me parece que os grandes pintores tinham um entendimento muito mais pragmático da situação. Já falei aqui de Van Gogh como um exemplo disso. O que dizer então de Picasso, que fez dezenas de milhares de quadros (isso sem falar nas esculturas)? Será que ele tinha a necessidade de produzir tanto assim? Provavelmente não. O que ele certamente tinha era o entendimento de que se manter comprometido com o processo é a melhor maneira de se explorar os limites da expressão artística.