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Sobre os boicotes ao Spotify (parte 2)

Num artigo recente de Charlotte Hassan pro site Digital Music News (em que me baseei pra escrever o último texto), foi apresentado um panorama das razões que vêm levando alguns dos músicos mais famosos do mundo a boicotar o Spotify (seja permanentemente ou por apenas algumas semanas). No texto de hoje quero falar um pouco sobre possíveis implicações e motivações por trás disso.

Como visto semana passada, a grande crítica que se faz ao Spotify é o fato dele, ao contrário de outros serviços de streaming, disponibilizar a versão freemium por tempo ilimitado, o que significa que qualquer usuário pode ouvir quantas faixas quiser de graça (desde que tenha paciência com os anúncios). Como forma de protesto, a solução que muitos artistas têm encontrado é a de simplesmente retirar seus álbuns mais recentes da plataforma.

A primeira questão que quero levantar é que (com a exceção do Radiohead e de um ou outro artista) a maioria dos casos mais famosos de boicote ao Spotify são em grande parte motivados por parcerias ou participações nos lucros de seus concorrentes. Nisso podemos incluir, por exemplo, Beyoncé e Kanye West com o Tidal, e Taylor Swift e Drake com o Apple Music. Não que haja algo de antiético com isso, mas é o tipo de coisa que poderia, pelo menos, ser deixada um pouco mais clara pros amantes de música.

Outro ponto a considerar é o seguinte: enquanto os fãs que não pagam por nenhum serviço de streaming podem reclamar à vontade desses boicotes – e sem razão –, e quanto aos assinantes do Spotify? A meu ver, está longe de ser absurdo o argumento do diretor de conteúdo da empresa sueca, Ken Parks, que alegou há alguns anos: “A noção de que você iria querer reter álbuns das pessoas que estão pagando 120 libras ou euros ou dólares por ano é simplesmente realmente incompreensível. É bem hostil punir os seus melhores consumidores ou fãs”.

Difícil não concordar com a sua análise, já que seria pouco razoável esperar que a maioria dos fãs de Beyoncé que são usuários premium do Spotify passem a assinar o Tidal só por causa dela. Se o problema fosse realmente apenas o modelo freemium, uma solução mais razoável seria, ao invés de remover totalmente um álbum do Spotify, deixa-lo disponível apenas pros assinantes do serviço. Infelizmente, por causa de tudo o que foi dito até aqui, tenho poucas esperanças de que isso possa acontecer.

Por fim, como muitos vêm observando, tem também o caso do YouTube, que, além de pagar menos que todos os serviços mencionados, não faz muito esforço em combater a pirataria. A morte de Prince foi um lembrete de como era difícil achar qualquer coisa sua por lá, e isso não foi à toa. Quer concordemos com essa política ou não, esse exemplo mostra que, se um músico de grande expressão está realmente disposto a comprar essa briga, o YouTube não é a casa da mãe Joana que aparenta ser.

Só que, pelo menos por enquanto, poucos são o que se arriscam a isso, já que o YouTube ainda é, de longe, o melhor meio de alcançar os fãs através de vídeos. Abrir mão desse canal seria justamente perder uma ferramenta quase que insubstituível em curto prazo. Talvez essa situação mude nos próximos anos, já que não só o Facebook, como também a Amazon e os serviços de streaming mais famosos vêm investindo pesado em vídeos. Se algum deles cair no gosto do público e tiver a promessa de compensações financeiras mais vantajosas pros músicos, talvez o YouTube passe a ser o grande foco dos boicotes nos próximos anos.

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Sobre os boicotes ao Spotify

O texto de hoje é quase que totalmente baseado num artigo recente de Charlotte Hassan pro site Digital Music News, onde ela analisou os cada vez mais frequentes boicotes ao Spotify (o serviço de streaming de música mais popular atualmente) pra saber até que ponto essa prática é válida pros músicos, levando em conta principalmente as implicações dessa decisão nas vendas de álbuns.

Antes de mais nada, é importante dizer quais são as razões declaradas pra esse tipo de boicote (que às vezes vale apenas por algumas semanas, como no caso do último lançamento de Kanye West). A principal queixa é que o Spotify, ao contrário de muitos de seus competidores, oferece um serviço freemium – a versão gratuita com anúncios – pelo tempo que o usuário quiser.

O problema é que com a versão freemium o artista ganha bem menos dinheiro com a arrecadação de direitos autorais do que na versão premium (atualmente a $9,99 lá fora, e a R$14,90 aqui). Além disso, liberar o acesso gratuito a um álbum por toda a eternidade é considerado por alguns como uma desvalorização do trabalho não só do músico principal, mas também de todos os seus colaboradores.

Assim, voltando ao nosso ponto de partida: vale a pena boicotar o Spotify? Obviamente, isso depende muito. O que todos os artistas que o boicotam têm em comum (exemplos: Beyoncé, Drake, Taylor Swift e Radiohead) é o fato de serem já bem famosos e terem a admirável capacidade de mobilizar milhões de fãs independente do meio que escolham pra distribuir suas músicas.

Como Charlotte diz, pra músicos independentes (que são a maioria esmagadora, é sempre bom lembrar) a história é outra, afinal, o maior desafio aqui é justamente o de alcançar potenciais fãs. E abrir mãos dos serviços de streaming, que são hoje as principais plataformas de descoberta de música, tornaria essa uma tarefa bem mais complicada.

De qualquer forma, é um direito do músico ter total controle sobre a distribuição da sua obra. E isso pode significar restringir ao máximo o acesso através de serviços que ele julgue não valorizar devidamente o seu trabalho (como Prince fazia, pra tristeza e raiva de muitos). Só que, como sempre, a questão é bem mais intrincada que isso, e é sobre esses outros aspectos que deixo pra falar na semana que vem.