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O que representa a canção pro compositor

Quando se fala de um compositor e as suas canções, o grande clichê é dizer que, pra ele, cada uma delas seria como um filho seu. Eu mesmo já me peguei dizendo algo parecido sobre minhas primeiras músicas, e percebi que isso pode levar a uma relação de posse completamente falsa, além de dificultar uma avaliação minimante objetiva sobre as suas qualidades (afinal, é difícil pra um pai ter uma visão imparcial sobre a sua prole).

Além disso, à medida que fui compondo mais percebi que ver uma canção como um filho subentende uma relação de autoridade que também não poderia estar mais longe da verdade. É por isso que foi fantástico o que fez o trovador cubano Silvio Rodríguez, quando escreveu uma canção a respeito das suas canções e resolveu chamá-la de “Compañera”. Essa foi uma forma muito elegante de reconhecer, como ele mesmo diz, que falar em paternidade seria não só injusto, mas também uma grande mentira.

É uma abordagem linda e instigante, mas não tenho dúvidas de que é possível ir ainda mais longe. No caso, quem o fez foi Bono do U2, que subverteu completamente essa relação ao dizer que as canções são na verdade como pais pra um compositor. Nas suas palavras: “Elas te dizem o que fazer, elas te dizem como se comportar, elas te dizem como se comportar mal, como se vestir. Tudo que você faz é direcionado pelas canções”.

Bono, mais do que ninguém, é ciente do senso de responsabilidade que as suas músicas lhe dão. Ele sabe que não pode se dar ao luxo de ser cínico, a não ser que resolva criar um alter ego (como, aliás, já fez), deixando claro pra todos que o artista Bono está muito longe de Paul Hewson, um cidadão irlandês de 55 anos. Por outro lado, ele sabe também que isso limitaria demais o alcance da sua mensagem.

De qualquer forma, é bom ressaltar também que a canção não faz do cantor uma pessoa necessariamente melhor (seja lá o que isso signifique), ou mesmo mais coerente. Se assim fosse, os cantores românticos seriam as pessoas mais amorosas do mundo, quando na verdade muitos deles não parecem seguir esses ideais no campo pessoal (é claro que estou falando aqui dos que cantam músicas românticas porque realmente acreditam no que fazem, e não apenas pra fazer sucesso).

Daí vem uma última observação, de algo que talvez muitas pessoas não percebam: quando um compositor canta sobre qualquer ideia, ele está na maior parte das vezes apontando o dedo, em primeiro lugar, pra si mesmo. É uma forma que ele encontra de se lembrar da importância de algo que de outra maneira passaria batido no meio da loucura quotidiana. É por isso que um cantor é sempre, de uma forma ou de outra, um missionário de si mesmo, e a música é o mais próximo que ele tem de uma oração – ou, melhor dizendo, um sermão.

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A música na política (e vice-versa)

Um diferencial considerável de ser um músico no Brasil hoje em dia é que, apesar de toda a agitação política, não há (ainda) uma patrulha, nem de um lado nem de outro, para que se faça “música engajada”. Os que acreditam que o artista deva ser um cronista do seu tempo provavelmente vão lamentar essa postura, e entendê-la com um sinal de uma geração exageradamente individualista.

Sinceramente, não vejo esse tipo de coisa como motivo nem de celebração, nem de preocupação. Quer queira ou não, um artista nunca vai escapar de falar sobre a época e o lugar em que vive, pois são estas duas variáveis que definem os ambientes culturais, sociais e políticos em que interage. Logo, a própria escolha de não falar diretamente sobre política parte de uma vivência subordinada a diversos fatores, que por sua vez nos levam a diferentes valores a respeito do papel da arte em geral.

Ao entrar nesse assunto é difícil não lembrar de Chico Buarque, com certeza o compositor brasileiro mais comumente identificado com essa vertente mais “política”. Não vou entrar na questão do que aconteceu aqui no Rio de Janeiro há duas semanas, porque aquela foi uma cobrança em relação à sua postura enquanto cidadão, e não enquanto músico. O que me interessa aqui é ressaltar que muito do engajamento pelo qual ele ficou conhecido ao longo dos anos veio justamente da sua necessidade de afirmação enquanto artista.

Tendo em vista a pessoa que ele já era, com o seu nível de instrução muito acima da média (é sempre bom lembrar que ele é filho de Sérgio Buarque, um dos maiores historiadores do Brasil), ou ele cantava aquelas coisas, ou ele se calava. Difícil imaginar um universo paralelo em que ele ignorasse o que acontecia pra cantar algo como “Eu Te Amo, Meu Brasil”. Daí a sua relação com a censura da época: “Eles me encheram o saco, mas também enchi muito o saco deles”.

Ao mesmo tempo, Chico sempre foi bem consciente do risco que é reduzir um artista a suas posições políticas, ou mesmo à ideia de que a música esteja subordinada a alguma ideologia. Como ele teria dito em 1978: “Acho absurda a mania de cobrar do artista um engajamento político sobre sua arte”. Por outro lado, não é nenhum espanto que ele tenha uma posição política que se reflita, ainda que de maneira sutil, nas suas letras.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

Pra que esse texto não termine como sendo apenas sobre Chico, trago a visão de um amigo seu (e que também sabe o que é esse tipo de patrulha), o cantautor cubano Silvio Rodríguez: “Sou dos que acredita que todas as canções são políticas, porque todas propõem algo, ainda que seja trivial. Um pecado poderia consistir em fazer muito óbvios alguns critérios, porque então poderia ocorrer que nos veriam mais como ideólogos do que como artistas”.

Nessas linhas, que Chico certamente assinaria embaixo, está toda a questão para quem faz arte e se interessa por política, que é a de, ao mesmo tempo, reconhecer os limites entre as duas esferas sem fazer disso uma razão para se conformar ou se render ao niilismo.