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O papel do músico

Com as radicais mudanças na indústria da música desde o surgimento do Napster ainda no fim do século passado, muito se vem discutindo acerca de quais seriam os possíveis rumos do mercado, e qual será o papel do músico nesse novo contexto.

Pra começo de conversa, utilizo o termo “músico” aqui para falar daqueles que fazem algo com maior apelo “popular”. Digo isso simplesmente para fazer uma distinção entre estes e os de música erudita, em parte pela minha falta de conhecimento a respeito desse segundo grupo, e em parte porque as regras tendem a ser consideravelmente diferentes nos dois casos.

E a que regras me refiro? Bom, qualquer músico da segunda metade do século XX que tivesse alguma aspiração mais séria na sua carreira sabia que dificilmente haveria um caminho para se fazer ouvir por muitas pessoas que não fosse atrelado a uma gravadora – de preferência bem grande.

Nos últimos anos, porém, a internet vem mostrando que esse tipo de apoio não é mais necessário para o processo de distribuição de música em larga escala. É óbvio que as grandes gravadoras ainda têm um papel proeminente nos rumos da indústria, mas isso hoje em dia tem muito mais a ver com a questão do investimento em divulgação de determinados artistas, e (em menor escala) por vezes também no dinheiro para produções de discos, videoclipes e turnês, assessoria de imprensa etc.

Ao mesmo tempo, a quantidade de pessoas fazendo música e ganhando espaço por outros meios só faz crescer, e é percentualmente cada vez menor a quantidade de artistas que dispõem de todo o aparato descrito no parágrafo anterior. Isso porque já é mais que sabido que a base de sustentação dessa indústria, a venda de CDs (e anteriormente LPs), está com os dias contados. Não à toa, ser independente, que era antes a exceção, é hoje a regra até mesmo entre veteranos consagrados.

Tudo isso vem levando muitas pessoas a vislumbrar possíveis alternativas de atuação para um músico atualmente. Dentre elas, talvez a mais difundida seja o conceito de “cauda longa”, popularizado pelo jornalista Chris Anderson num texto para a revista Wired, em 2004. Basicamente, esse termo é utilizado para sustentar a hipótese de que modelos de negócios baseados em mercados de nicho representariam uma fatia cada vez maior do bolo (em contrapartida aos best-sellers e blockbusters).

Independente das críticas que possam ser feitas à viabilidade de tal modelo, o fato é que ele demonstra a forma como, no geral, o papel do músico parece estar pouco a pouco se reconfigurando na nossa sociedade. Evidência disso é que a própria percepção social sobre o que é ser músico e o que é ser fã já é consideravelmente diferente para os mais jovens (as gerações Y e Z).

A principal diferença é uma certa desconstrução da imagem do músico como uma figura distante e inacessível. Enquanto que as pessoas da minha idade (e também os mais velhos) cresceram com toda uma mística em torno de artistas que eram pra nós quase que deuses num olimpo, os adolescentes de hoje esperam ter uma participação muito mais ativa na carreira de seus ídolos.

No universo de uma garota de 18 anos, suas personalidades favoritas (não só da música, é bom que se diga) muitas vezes estão ao alcance de um tuíte. Consequentemente, os músicos de maior sucesso de hoje aprenderam a usar muito bem novas ferramentas e estratégias (que não se restringem ao mundo online) como forma de aumentar essa proximidade com seus fãs, dando a eles um senso de pertencimento que os da minha geração sequer podiam imaginar.

Mesmo (ou até principalmente) entre os poucos artistas que ainda vendem milhões de discos (Lady Gaga, Taylor Swift etc.), o foco parece estar menos em fazer algo “que todo mundo pode gostar”, e mais em alimentar uma comunidade de verdadeiros devotos. Esses “devotos”, por sinal, não são simplesmente de uma cantora ou grupo, mas também da “causa” que ela/ele representaria (um livro que retrata bem essa lógica é Tribos, de Seth Godin).

Todas essas ideias, é claro, são ainda muito incipientes. Ninguém sabe de fato como um músico independente vai fazer para sobreviver e se manter relevante nos dias de hoje. O que se faz fundamental mesmo é ter ao menos a consciência de que, cada vez mais, aqueles que se importam com o trabalho desse músico não vão simplesmente se satisfazer em assistir a tudo de camarote. Eles esperam se sentir presentes de alguma forma, sabendo que o que o artista faz não é à sua revelia, pois o fã é parte fundamental de toda essa jornada – como, aliás, sempre foi.

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O melhor conselho que já ouvi

Quando comecei a ler mais sobre desenvolvimento pessoal e espiritualidade, me deparei com vários autores que ressaltavam, cada um a seu modo, a importância de se ter um senso de propósito na vida. Frequentemente essa ideia me vinha (não sem alguma razão) atrelada com a noção de se “encontrar” esse propósito (mais ou menos como um dentista que procura por tártaro entre os dentes). Essa me parecia uma tarefa de uma densidade absurda, visto que se fazia necessário cada vez mais introspecção para finalmente chegar a essa “resposta mágica”.

Foi então que me deparei com um artigo do autor e empreendedor norte-americano Jonathan Fields chamado “What If I Choose Wrong?”. Nele, Fields mencionava a entrevista que fez, como parte de seu Good Life Project, com o renomado guru do marketing Seth Godin. A resposta de Godin para a pergunta título do texto (“E se eu escolher errado?”), e que coincide com a resposta que o próprio Fields frequentemente dá, é bem simples: não importa.

O simples fato de se escolher é que faz com que um caminho se torne “o” caminho. Em outras palavras, ação traz clareza, muito além de qualquer noção preconcebida do que seria certo ou errado. Falando assim parece tudo muito fácil, mas posso garantir que isso foi algo que demorei a entender, e que desde então me tirou um peso enorme para voltar a vivenciar e experimentar com diferentes possibilidades na vida. Dessa vez, porém, com a diferença de que pude fazer muitas coisas de forma bem mais consciente do que antes.

É claro que a capacidade para introspecção é importante. Afinal, pro que quer que se faça o impacto e a abrangência é muito maior quando há um fio condutor por trás. Num outro texto, até como forma de levar isso em conta, Fields faz duas ressalvas para que uma determinada escolha faça mesmo a diferença: o comprometimento em se estar presente e engajado; e uma atitude de curiosidade e abertura, mantendo a mente de um estudante.

Curiosamente, depois que a “ficha caiu” pra mim foi que passei a reparar cada vez mais em outras pessoas que disseram a mesma coisa de maneiras diferentes. O fato é que as palavras de Fields não eram necessariamente melhores do que as de outros, eram apenas o que eu precisava naquele momento. E depois que algo se torna claro é possível olhar com outros olhos o que já estava ali, bastante evidente, ao ponto em que me pergunto como isso pôde me ter passado despercebido antes. Afinal, um dos que já havia resumido tudo em poucas palavras – numa citação repetida à exaustão – foi o poeta espanhol Antonio Machado: “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”.