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Cultura x copyright

Parte do texto da semana passada foi dedicada à abordagem de Bob Dylan na composição de suas canções. Essa abordagem, como mencionei, vem do seu alinhamento com a tradição da música folk, em que é frequente pegar uma melodia que já exista e só colocar outra letra (e às vezes nem a letra muda muito). Enquanto essa prática não gerava muita controvérsia até os primórdios da indústria fonográfica, hoje em dia isso suscita algumas questões complicadas, se não em termos legais, ao menos em termos éticos.

Muito dessa polêmica representa, de fato, um verdadeiro embate entre duas visões de mundo: a antiga tradição oral do processo de composição da música folclórica em geral versus a atual lógica legalista do copyright. Como tudo hoje é registrado, catalogado e assinado, quaisquer possíveis violações de direitos autorais são cada vez mais levadas em conta, principalmente porque, em se tratando de uma música de sucesso, sempre pode haver muito dinheiro envolvido no processo (Robin Thicke e Pharrell Williams que o digam).

Claro que, em se tratando de músicas sem autoria determinada, o copyright não chega a ser um problema. Além disso, no caso de Dylan muita gente o defende dizendo que ele não só pegou emprestado, como melhorou todas aquelas canções e as transformou em verdadeiros clássicos. É um argumento interessante, e válido. Ainda assim, é importante levar em conta as implicações atuais de pegar uma melodia antiga e registrá-la como se fosse sua, ou o contrário: pegar versos inteiros de outros escritores, e torná-los parte da sua letra. Dylan está familiarizado com ambas as práticas, e costuma ser bastante aberto quanto a isso:

“Eu estou trabalhando dentro da minha forma de arte. É simples assim. Eu trabalho com as regras e limitações dela. (…) Isso se chama composição. Tem a ver com melodia e ritmo, e depois disso, tudo vale. Você torna tudo seu. Todos nós fazemos isso.” (grifo meu)

Concordo que ninguém cria nada do nada, e que existem sempre influências conscientes ou inconscientes, mas será mesmo que “tudo vale”? Nessa entrevista, pra revista Rolling Stone, o repórter chama essas apropriações de “citações”. Mas o que é uma citação de uma fonte que está deliberadamente oculta? Claro que esse processo não é nenhum segredo pros que conhecem bem Dylan. Mas, novamente, há algo de paradoxal em tanto insistir em se ligar à tradição do folk e ao mesmo tempo ganhar muito dinheiro com direitos autorais. Será que ele reagiria com a mesma liberalidade se alguém fizesse o mesmo com uma de suas canções?

Enfim, essa é uma discussão complicada, que não caberia num único post. No geral, concordo com a citação de Picasso que mencionei há algumas semanas, de que tentar criar como outra pessoa é sim uma ótima maneira de encontrar sua própria voz (e, partindo dessa lógica, é possível dizer que o grande inimigo do artista é não tanto a falta de autenticidade, mas sim a falta de singularidade). É só que, como fã, às vezes tenho vontade de ignorar tudo isso, pelo menos até que seja possível me acostumar com a ideia de que a inspiração, no fundo, quase sempre parte da apropriação (indébita ou não).

História e subjetividade na experiência musical

Quando, há algumas semanas, abordei os motivos que podem levar alguém a considerar uma música boa ou não, falei um pouco sobre o meu próprio viés, que tende a ser mais emotivo. Na ocasião, encerrei o texto mencionando a voz falha de Neil Young em “Mellow My Mind” como algo que não só não me incomoda, como torna a faixa ainda mais interessante.

Deixei de lado, porém, um outro fator de igual importância pra essa minha percepção: a história por trás da música. Aliás, não só da música, mas de todo o disco Tonight’s the Night (gravado em 1973, mas lançado apenas em 1975), do qual ela faz parte. Como os fãs de Neil Young devem saber, meses antes das gravações duas pessoas próximas a ele (o guitarrista Danny Whitten e o roadie Bruce Berry) haviam morrido de overdose.

Ouvir a música uma vez sem saber disso e depois ouvi-la com essa informação são duas experiências muito distintas, não? Talvez até alguém que esteja lendo esse texto agora tenha realmente vontade de ouvi-la pela primeira vez só por causa disso. Não há dúvida que a história por trás da obra traz uma dimensão nova pra quem está do outro lado.

Um outro exemplo disso é o álbum Double Fantasy (de 1980), de John Lennon e Yoko Ono. Depois de cinco anos sem lançar um disco de estúdio (uma eternidade, ainda mais naquela época), Lennon decidiu retomar a carreira, e tinha até planejado uma turnê para o ano seguinte. De início, porém, o disco não foi um grande sucesso nem de público nem de crítica.

Isso tudo mudou três semanas depois do seu lançamento, quando Lennon foi assassinado na entrada do prédio em que morava em Nova York. O resultado previsível foi que o disco foi para o topo das paradas americanas e britânicas, e qualquer avalição negativa dos críticos (inclusive por parte da revista Rolling Stone) foi simplesmente removida de circulação.

Esse tipo de coisa às vezes causa até certa indignação, porque traz a pergunta: quantos grandes discos não foram ignorados pela crítica e boa parte do público sem receberem uma segunda chance? Não estou falando de discos de artistas ainda buscando um espaço, pois é normal que haja primeiro a busca pelo (re)conhecimento. Falo, isso sim, de grandes discos de artistas já consagrados, mas que por algum motivo não têm o seu valor devidamente reconhecido. É o caso, por exemplo, de boa parte da discografia solo de John Frusciante.

É um grande clichê dizer que o tempo faz alguma justiça a um trabalho artístico, e sinceramente tenho minhas dúvidas quanto a isso. Acredito, isso sim, que o artista deve saber defender o seu trabalho, e entender que, caindo no gosto das pessoas ou não, isso muitas vezes tem pouco a ver com os méritos da sua obra, e muito a ver com a sua capacidade de se mostrar relevante para a sua época.