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Henrí Galvão

7 de julho de 2017

Uma das coisas mais interessantes no pôquer é como ele é uma ótima metáfora pra tantas outras coisas na vida.

Por conta disso, sempre quis fazer alguma música a respeito.

Depois de algumas tentativas, finalmente cheguei a algo que acredito que vale a pena compartilhar:

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Uma lição do pôquer

Semana passada falei mais detalhadamente sobre uma das coisas que mais me estimulava quando jogava pôquer, que era a oportunidade de desenvolver melhor habilidades que me serviriam igualmente em mesas de apostas ou em situações mais corriqueiras. Na ocasião, citei algumas dessas habilidades específicas, e gostaria de focar hoje em apenas uma delas: o controle emocional.

Esse é um princípio que me veio gradualmente de diferentes formas, mas o momento em que me pareceu mais claro foi quando li um texto do jogador e teórico do pôquer Mike Caro (ele próprio também sempre interessado em buscar interseções entre o jogo e a vida). Nele, Caro recomendava uma atitude que é de enorme valor quando se está numa situação tida como frustrante: não piorar as coisas. Isso é algo bem simples, mas que não deixa de ser um tremendo desafio quando você se sente tentado a agredir o primeiro objeto que vê pela frente depois de perder um grande pote (e quem joga pôquer conhece muito bem essa sensação).

Quase sempre é mais fácil manter a compostura jogando numa mesa de verdade, já que ninguém quer demonstrar fragilidade quando está cara a cara com seus oponentes (embora muitos o façam). Essa é uma observação digna de nota porque quem já tentou também jogar pôquer online sozinho num quarto sabe que suas reações emocionais tendem a ser elevadas à enésima potência (o meu armário que o diga).

É claro que existem outras particularidades que têm influência direta nisso, como as diferenças entre jogos com ou sem limites de apostas (estes últimos, bem menos previsíveis), ou as diferenças entre as modalidades, como Texas Hold’em, Omaha ou Razz (essa última, um verdadeiro teste de paciência). Mas se eu fosse entrar nesses detalhes aqui provavelmente te deixaria entediado, além de fugir do foco do texto.

Logo, voltando ao que interessa, o que mais vale a pena discutir é: o que vem a ser exatamente “não piorar as coisas”? Da forma que vejo hoje, se trata de adotar a intenção e a disposição de não perder a perspectiva de médio e longo prazo das suas ações e reações. Se por um lado se deixar levar pela raiva pode te trazer um alívio ou satisfação momentânea, raramente isso vai te ajudar a aprender a lidar com determinada situação de forma consistente.

Por sinal, o simples fato de você se habituar (e por que não dizer viciar) a dar vazão à raiva durante um jogo já te torna bem mais propenso a fazer desse o seu comportamento padrão em outras circunstâncias. E talvez aí esteja uma diferença fundamental entre o pôquer e a vida, já que sentir raiva numa mesa de apostas talvez não te traga consequências necessariamente mais desastrosas, mas certamente elas virão de forma bem mais imediata.

A arte de jogar e de viver

No último texto mencionei brevemente o tempo em que estive envolvido com o pôquer. E, mesmo sabendo que isso a princípio possa parecer um caminho bem diferente do que escolhi pra mim hoje, posso dizer que as coisas nunca me ocorreram dessa maneira. Isso porque boa parte do que me atraía no jogo vinha do fato dele poder ser entendido como uma bela metáfora (ou, como dizem, um “microcosmo”) da própria vida.

Pra qualquer um que joga pôquer por algum tempo não é muito difícil encontrar paralelos com situações com que lidamos comumente. Consequentemente, pra além das técnicas, muito da mentalidade de um jogador de bom nível (ou ao menos um jogador persistente) pode ser aplicada no seu cotidiano. No meu caso específico, isso se deu a partir de um interesse crescente em tópicos como linguagem corporal, controle emocional e formação de hábitos, só para ficar nos mais óbvios.

Por isso sempre me surpreendia ver que muitas pessoas que levavam o jogo a sério não necessariamente compartilhavam dessa visão. Uma coisa é ouvir um jogador de pôquer falar dessas semelhanças (e muitos o farão). Outra é poder observar em primeira mão sua atitude geral perante a vida e os demais. Como a minha paixão pelo jogo me levava a gerar expectativas irrealistas, eu me desapontava com frequência nesse sentido. E tudo isso mesmo sabendo racionalmente que eu estava lidando com pessoas como quaisquer outras, com seus conflitos e pontos cegos, e que eu mesmo, afinal, não podia ser considerado um exemplo de nada.

Me lembro que as coisas só começaram a fazer mais sentido pra mim, e pude me reconciliar melhor com essa perspectiva, quando vi uma entrevista do famoso ex-enxadrista russo Garry Kasparov para o Jô Soares. Nela, ele falava com todas as letras que “a habilidade de jogar xadrez não significa mais do que a habilidade de jogar xadrez”, e o importante é o que se pode fazer com isso. Em seguida, ele próprio mencionava o seu interesse em inaugurar sua fundação de xadrez também em São Paulo. Sua premissa básica? O aprendizado desse jogo ajuda as crianças no aprendizado em geral, na medida em que desenvolve autoestima, disciplina etc.

Logo, se existe alguma lição aqui, provavelmente ela pode ser descrita da seguinte maneira: nada do que você aprende numa área da sua vida vai necessariamente te fazer mais inteligente ou sábio em outra. O potencial está ali, mas tudo começa com a intenção de aprender e a disposição para buscar constantemente essas interseções. Acredito sinceramente que muito do que se pode ser chamado de “arte de viver” passa justamente por esse sentimento.

Duende in the zone

Durante uns bons cinco anos estive bastante envolvido com o pôquer, jogando com frequência e aprendendo cada vez mais sobre a sua dinâmica. Um termo interessante que, como soube depois, é usado não só nesse jogo, mas também nos esportes em geral, é o que os americanos chamam de se estar “in the zone”. Em linhas gerais, trata-se de um estado em que você não está mais racionalizando o que faz, e suas ações são tomadas num nível além da sua própria compreensão.

Outro exemplo desse fenômeno ocorre no flamenco. Existe, principalmente entre os dançarinos (ou, como se diz, bailaores), todo um mito por trás da experiência do “duende”, citado inclusive por García Lorca (pegando um termo emprestado de Goethe) como um “poder misterioso que todos sentem, e nenhum filósofo explica”. Como se vê, apesar de diferenças na nomenclatura e nas aplicações, estamos falando essencialmente da mesma coisa.

Esses são apenas dois exemplos do que na psicologia se chama de estado de fluxo. Se você já experimentou isso de alguma forma (e é bem provável que sim), nada do que eu escrever aqui vai sequer chegar próximo à sua experiência. Isso porque você se esquece inclusive de si mesmo, e se torna como um instrumento de algo intangível. Ou, em outras palavras, pode-se dizer que sujeito e objeto tornam-se um só.

No entanto, como o lendário jogador de pôquer Doyle Brunson disse certa vez, trata-se de algo que não acontece o tempo todo. De fato, é seguro dizer que nem sequer acontece na maior parte das vezes (tanto é que há quem nem acredite nisso), e caso se tente forçá-lo, aí então é que as chances de atingi-lo são mínimas. Ainda assim, resta a pergunta: se não é possível manufaturar conscientemente esse estado, seria possível ao menos criar condições mais propícias para alcançá-lo?

Não há dúvida. Para isso, existem não só os fatores mais óbvios, que ainda assim são frequentemente negligenciados, como cuidar regularmente da própria saúde física e mental (ainda que essa experiência transcenda o corpo e o intelecto), como também o simples fato de praticar bastante determinada atividade (seja ela escrever um texto, compor uma música, cozinhar ou varrer o quarto). É dessa última recomendação que vem a famosa frase de Picasso: “A inspiração existe, mas ela deve te encontrar trabalhando”.

Se formos além e, como não podia deixar de ser, tomarmos isso como uma experiência espiritual, vale a pena considerar que o clássico O Poder do Agora, de Eckhart Tolle (livro que já mencionei há algumas semanas), fala disso o tempo todo. De fato, eu poderia ficar aqui o dia inteiro só escrevendo e dando exemplos, mas me sentiria como se estivesse dando voltas ao redor de um mesmo ponto, e prefiro partir do pressuposto – principalmente em assuntos como esse – de que menos é mais.