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O “pague o quanto quiser” no mundo digital

Semana passada falei um pouco da minha experiência com o modelo Pay What You Want (Pague o Quanto Quiser) com a venda de meus CDs em performances de rua. Hoje, pretendo fazer algumas considerações a respeito desse mesmo modelo, só que no mundo virtual, por conta do recente lançamento do EP Música de Passagem.

Como comentei no texto anterior, disponibilizar um produto sem uma etiqueta de preço faz com que um possível consumidor se pergunte (geralmente de forma inconsciente) o quanto tal produto vale pra ele. No mundo analógico, até mesmo pelo fato de que essa troca costuma ser feita cara a cara, é bem mais fácil pra esse consumidor entender o quanto a sua decisão de contribuir ou não significa pro vendedor.

No caso da música online essa questão já é um tanto mais complicada, já que a facilidade de acesso a downloads ilegais e ao streaming (ilegal ou não) possibilita a esse consumidor ouvir o quanto quiser (e quantas vezes quiser) sem pagar absolutamente nada. E isso mudou bastante – talvez até de forma irremediável – a percepção social sobre o quanto se pode cobrar por uma gravação digitalizada.

Em outras palavras, o fator escassez, que é talvez o que mais nos faz dar valor a algo, simplesmente não existe em relação à música online. Além do mais, na internet a oferta é tão absurdamente grande que fazer alguém realmente parar pra ouvir um álbum ou EP completo é por si só um desafio tremendo. Desafio esse que é muito mais fácil de enfrentar quando é possível abordar ou ser abordado pessoalmente por esse alguém.

Dessa forma, tanto no mundo analógico quanto no digital, o modelo Pay What You Want me seduz porque me dá a possibilidade de iniciar uma conversa com quem possa se interessar pelas minhas músicas. A diferença é que no mundo analógico essa conversa se dá de forma mais espontânea; já no caso do download do EP ela se dá através da requisição de um endereço de e-mail.

Tenho consciência de que esse modelo costuma ter seus riscos, e que deixar o preço a critério do consumidor talvez não seja sustentável no longo prazo. Mas também acredito que, quanto mais eu conseguir iniciar conversas, melhores são as minhas chances de ter um verdadeiro relacionamento com quem possa se interessar pelo meu trabalho. Isso, por sua vez, me ajuda muito a entender qual é a relação que essa pessoa tem com as minhas músicas. E, pelo menos nesse momento, isso pra mim vale tanto quanto dinheiro.

O “pague o quanto quiser” no mundo analógico

Qualquer artista que disponibilize suas músicas sem custo no Bandcamp (como é o meu caso) pode a qualquer momento desmarcar a opção “let fans pay if they want” (“deixe os fãs pagarem se quiserem”). Isso faria com que um álbum, EP ou single passasse de um modelo Pay What You Want (Pague o Quanto Quiser) para pura e simplesmente “de graça”.

Mas será que existe mesmo diferença entre uma coisa e outra? Se uma pessoa pode não pagar nada por algo, esse algo não é, afinal de contas, grátis? De certa forma, sim. Mas quando alguém tem a opção de pagar ou não pelo que quer seja, ele/ela se faz a seguinte pergunta: o quanto isso vale pra mim?

Na minha experiência no mundo off-line como músico de rua que também vende seus produtos, venho percebendo o quanto as pessoas têm sim um genuíno interesse por pagar por aquilo que consideram de valor, independente desse algo vir ou não com uma etiqueta de preço.

Uma breve história a respeito: antes mesmo de disponibilizar o meu primeiro EP digital em julho desse ano, eu já vinha comercializando nas minhas performances ao vivo um CD que gravei em casa mesmo, que decidi chamar de “Voz e Violão ao Vivo”, e que reflete bem como seria um house concert comigo.

A princípio, eu colocava os CDs ali com um preço, baseado no que me parecia ser algo que as pessoas estariam dispostas a pagar. Um dia desses, no entanto, fui tocar no projeto Palco Carioca, do metrô do Rio de Janeiro. Esse projeto tem a particularidade (com a qual não concordo) de proibir a venda de qualquer produto durante a apresentação. Pra compensar, me foi permitido deixar meus CDs expostos ali pra que as pessoas ao menos soubessem da sua existência.

O interessante foi que, se não me engano, durante a minha segunda vez lá, uma mulher me perguntou quanto o CD custava. Eu lhe disse que de acordo com as normas do metrô eu não podia dar um preço, mas ela poderia pegá-lo e pagar o quanto achasse justo. Pra minha surpresa e alegria, ela resolveu deixar ali uma nota de R$20,00 (mais até do que eu teria cobrado).

Aquilo não me pareceu uma mera coincidência, e desde então comecei a experimentar deixar meus CDs expostos sem dizer o preço. Quando alguém me pergunta, o meu discurso é basicamente o mesmo: venho praticando deixar a critério de quem se interessar. E quem se interessa, pra minha sorte, frequentemente paga muito mais do que eu esperava.

Claro, você pode dizer que isso tem muito a ver com o fato de que a pessoa está ali na minha frente, e poucos teriam a coragem (ou a cara de pau, que seja) de pagar pouco ou nada por um produto podendo ver a reação do vendedor na mesma hora.

Mas eu sinceramente prefiro pensar nisso como um reflexo de um jeito diferente de lidar com um potencial admirador. E ninguém exemplifica melhor esse “jeito diferente” do que a cantora e pianista Amanda Palmer. Numa palestra TED de alguns anos atrás ela diz o seguinte: trata-se de pensar menos em como “fazer” as pessoas pagarem por música, e mais em como “permitir” que elas o façam.

Na próxima semana, pretendo falar um pouco da minha perspectiva sobre o modelo “pague o quanto quiser” no meio digital, e até que ponto essa mesma lógica pode ser levada adiante nesse mundo de downloads e streaming.