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Onde fica o significado?

No texto anterior dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, falei sobre as relações entre apreciação estética e questões de classe, na medida em que a capacidade de apreciar uma arte mais “refinada” costuma depender de condições materiais que propiciem – e estimulem – um certo tipo de socialização.

Pra reforçar esse argumento, transcrevi um trecho do livro de David Byrne em que ele citava o crítico literário britânico John Carey, que questiona seriamente algumas associações que são comumente feitas entre determinadas manifestações artísticas e suas qualidades supostamente intrínsecas.

Hoje, quero me concentrar num trecho muito específico daquela citação que transcrevi, que é o seguinte: “os significados não são inerentes aos objetos, mas sim são criados por aqueles que os interpretam”.

Um questionamento como esse nos leva a ser um pouco mais cuidadosos antes de querer igualar a ética à estética. Afinal, a partir do momento em que se leva a sério esse caráter (inter)subjetivo da apreciação estética, já dá pra ir um pouco além da dicotomia entre o que “faz bem” e o que “faz mal”.

E pra aqueles que, assim como eu, buscam defender esse tipo de visão artística e de mundo, pode ser de grande valor estar atento às evidências científicas a respeito no campo da psicologia. (Tomando o cuidado, é claro, de não cair no famoso viés de confirmação.)

Não foi por outra razão que abordei aqui, há alguns anos, a ideia de “masoquismo benigno“, de Paul Rozin. Essa ideia veio de um estudo em que Rozin avaliou como até certo ponto a dor pode ser prazerosa, dependendo da forma com que uma pessoa se predispõe a se expor a certos estímulos.

O que, por sua vez, tem muito a ver com a perspectiva de Kelly McGonigal, autora do livro O Lado Bom do Estresse. Numa palestra TED sobre o tema, ela explica que “Quando mudamos nossa opinião sobre o estresse, podemos mudar nossa resposta corporal ao estresse.”

De que forma? Bom, foi feito um estudo em que os participantes foram colocados em uma situação considerada altamente estressante: falar em público, de improviso, sobre suas fraquezas pessoais pra uma plateia de jurados devidamente treinada pra parecer muito pouco amigável. (E essa foi só a primeira parte.)

Antes do teste, no entanto, os participantes foram instruídos a considerar suas respectivas respostas ao estresse como úteis. Coisas como, “Se você está respirando mais rápido, não tem problema. Está levando mais oxigênio ao seu cérebro”.

E não é que, aparentemente, isso fez uma boa diferença? Os que conseguiram ressignificar o estresse puderam constatar que, mesmo com uma taxa respiratória mais elevada, seus vasos sanguíneos permaneceram relaxados – uma resposta similar à alegria. O que levou Kelly à seguinte conclusão:

[…] espero que, da próxima vez que seu coração estiver batendo forte de estresse, vocês se lembrem dessa palestra e pensem consigo: “Isso é o meu corpo me ajudando a estar à altura desse desafio.” E quando você encara o estresse desse jeito, seu corpo acredita em você, e sua resposta ao estresse se torna mais saudável. (grifo meu)

“Seu corpo acredita em você”. Ou seja, não se trata de controlar ou forçar uma determinada resposta corporal pra não deixar que determinada situação te afete tanto. Trata-se de cultivar as condições psíquicas que fazem com que até mesmo certas respostas corporais que se buscava evitar passem a jogar a seu favor.

Trazendo essas reflexões novamente pra música (e pra arte em geral), temos uma oportunidade e tanto pra que um ouvinte reconheça ainda mais o seu papel ativo – e criativo – em toda a sua experiência enquanto consumidor.

O que vai desde o momento em que você escolhe ouvir determinada música (ou determinado tipo de música) até o momento em que você se permite reconhecer diferentes dimensões de si mesmo ao se dar conta de como aquela experiência te afeta a nível físico.

Talvez isso soe um tanto sofisticado demais, mas o fato é que (como espero que tenha ficado claro na fala de Kelly) todos nós já fazemos essas coisas o tempo todo. A questão é passar a fazê-lo de forma mais consciente e, na medida do possível, deliberada.

É essa tomada de consciência que nos mostra que, independentemente do que se diga, não há uma única resposta certa quanto ao que se possa vir a sentir.

Ainda bem. Não fosse assim, não haveria nenhum tipo de responsabilidade nesse processo. Porque é justamente na nossa responsabilidade que reside a nossa possibilidade de escolha. E essas escolhas se renovam – e se expandem – a todo momento.

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Masoquismo benigno

Quando comecei a entrar mais a fundo em assuntos de desenvolvimento pessoal e, principalmente, espiritualidade, me deparei mais de uma vez com estudiosos de níveis de consciência falando sobre como não existe nada que possa ser considerado de fato “neutro”. Em outras palavras, todo e qualquer estímulo ao qual um ser humano se submete vai ou lhe tornar mais consciente, ou lhe deixar ainda mais limitado nas suas respostas a diferentes situações.

Ainda que naquele momento eu estivesse num período em que tinha parado de compor, nunca deixei de ser um ouvinte assíduo de música. Logo, não demorou muito pra que eu começasse a me preocupar mais e mais com o conteúdo do que ouvia, o que me levou a evitar deliberadamente qualquer música em que predominassem sentimentos tidos como mesquinhos, ou simplesmente “inferiores”. Mais especificamente, essa foi uma fase em que tentei me afastar de manifestações extremas de violência e tristeza na arte em geral.

Assim, eu procurava só ouvir músicas que trouxessem mensagens positivas, e pela primeira vez comecei a me interessar por aquelas com um viés claramente religioso – principalmente as da carreira solo de George Harrison. Ao mesmo tempo, porém, eu me perguntava se isso me ajudava a lidar com certas emoções que, de uma forma ou de outra, continuavam presentes. E, quando elas vinham à tona, pareciam ter uma força tão grande (ou até maior) do que antes.

Ou seja, a grande questão era (e, de certa forma, ainda é) saber se era possível ter uma relação responsável com os estímulos externos em geral e ao mesmo tempo honrar de forma não destrutiva a raiva, a tristeza, o ressentimento e todas essas emoções menos desejáveis. Como a minha própria experiência parecia bem inconclusiva, foi aí que valeu a pena ver o que a psicologia atual tinha a dizer a respeito.

Pelo menos no que se refere à música, os estudos recentes são bem interessantes, e parecem reforçar a ideia de que ouvir uma canção triste pode até mesmo ter um efeito terapêutico em muitos casos. Mas o que mais me chamou atenção foi um artigo de Todd B. Kashdan para a Psychology Today, em que ele menciona um estudo liderado por Paul Rozin sobre situações em que muitas pessoas sentem prazer com a dor.

Rozin se refere a isso como “masoquismo benigno”, e Kashdan chega à seguinte conclusão no seu texto: “Nós estamos no nosso melhor quando podemos transcender a dicotomia do positivo e do negativo – quando as emoções servem como sinais ao invés de obstáculos”. E em seguida lança uma pergunta ao leitor: “Como você está treinando você mesmo a estar confortável em se sentir desconfortável?”.

No fim, essa acabou sendo uma das lições mais importantes pra que eu entendesse melhor o meu propósito, assumindo que o que faço é, afinal de contas, música intrapessoal. Não preciso repetir o que já disse há algumas semanas. Basta dizer que acredito, mais do que nunca, que a abordagem de diferentes emoções ajuda a cumprir uma das funções mais importantes da arte, que é a de nos ajudar a reconhecer, aceitar, entender e reavaliar o nosso próprio sofrimento.