Arquivo da tag: Oscar Wilde

Em função da arte

No texto anterior dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, procurei trazer a perspectiva de David Byrne sobre como um músico em início de carreira pode se beneficiar da aparente indiferença de uma audiência.

Essa é uma ideia a princípio contraintuitiva, já que, até onde sei, ninguém faz música para ser ignorado. Mas acredito que, depois de se levar em conta os argumentos de Byrne, não acho que seja difícil reconhecer o valor da sua posição.

Já o assunto de hoje toca num ponto bem mais delicado: qual a função da arte para o desenvolvimento de uma sociedade? Quanto a isso, trago aqui mais uma citação do livro:

Ellen Dissanayake, uma antropóloga cultural e autora de Homo aestheticus […], diz que nos primórdios – na pré-história, na verdade –, todas as formas de arte eram produzidas de forma comunal, o que tinha o efeito de reforçar a coesão entre um grupo, aumentando assim suas chances de sobrevivência. Em outras palavras, a escrita (literatura), a música e a pintura tinham uma função prática de uma perspectiva evolutiva. Talvez, como nos esportes, a música funcione como um jogo – um “time” de músicos é capaz de fazer o que uma pessoa sozinha não consegue. Produzir música exige aprender coisas que vão muito além da composição e improvisação.

Me parece que o trecho acima faz bastante sentido, e pouca gente argumentaria contra a ideia de que qualquer atividade em grupo tende a servir para que um indivíduo se sinta mais integrado à sua comunidade.

O “ponto delicado” a que me referi diz respeito menos à hipótese formulada por Dissanayake, e mais à própria natureza da pergunta.

Em outras palavras, ao ser questionado sobre qual a função da arte, um artista poderia muito responder da seguinte forma (não sem uma boa dose de indignação): e quem disse que a arte tem que ter uma função?

É uma resposta muito válida, visto que falar na “função” do que quer que seja nos remete quase sempre ao conceito de utilidade. E, como disse Oscar Wilde certa vez, “toda arte é completamente inútil”.

Daí porque considero fundamental discernir utilidade de valor. Um trabalho artístico pode não necessariamente ser útil, mas ele pode sim ser significativo. E onde há significado, sempre há valor.

As coisas se complicam um pouco (aliás, bastante) na medida em que a maioria das trocas mercantis se baseiam em produtos/serviços mais facilmente “quantificáveis”, que dizem respeito a ganhos tangíveis em termos de tempo, dinheiro e/ou conveniência.

Acredito que era isso que Wilde buscava combater no seu posicionamento artístico. Por isso, não acho que ele teria qualquer objeção ao argumento evolutivo de Dissanayake, já que este se refere a um benefício muito mais sutil que a arte traz: o do senso de pertencimento.

Eu certamente não teria qualquer oposição à hipótese formulada por essa autora (cujo livro não li). Mas gostaria de ressaltar que, pra além da coesão social, está a coesão individual. Afinal, qual é o valor da arte se ela não leva um indivíduo a se conectar consigo mesmo?

É essa, a meu ver, a sua função primordial. E, assim como no caso da coesão social, não estamos nem de longe falando de algo facilmente quantificável. Mas me arrisco a dizer que não há nada mais significativo do que isso.

Anúncios

Passando uma mensagem

Dizer que um trabalho artístico está passando uma mensagem é quase uma ofensa pra muita gente do meio. Mas se formos partir de algumas pressupostos básicos talvez as coisas não precisem ser assim. Principalmente porque passar uma mensagem não quer dizer que uma obra foi feita necessariamente com esse fim. Trata-se do simples reconhecimento do que quer que se faça (ou se deixe de fazer) como uma maneira de se comunicar e expressar valores e prioridades.

Ainda assim, muitos vão argumentar que isso seria contrário à ideia da “arte pela arte”. E talvez seja mesmo. Mas é importante observar o contexto histórico em que esse conceito ganhou força, no caso, a segunda metade do século XIX. Naquela época imperavam doutrinas que buscavam dar à arte um caráter meramente instrumental. Se pensarmos nisso, a frase “arte pela arte” é de fato um libelo antiutilitarista, como fica evidente na famosa afirmação de Oscar Wilde de que “toda arte é inútil”.

O fato é que o ser humano não faz absolutamente nada num vácuo de crenças e ideias, e é óbvio que a arte não está imune a isso. No caso específico da “arte pela arte”, frequentemente o que ocorre é o realce da importância da beleza como um valor supremo. Querendo ou não, isso é também uma maneira de se posicionar e “passar uma mensagem”.

Assim, o que deve ficar claro é que nem sempre essa mensagem vai ter um cunho didático e pedagógico. Por vezes um artista pode querer dizer (conscientemente ou não) algo tão simples como lembrar que sentimentos mais sombrios também podem (e devem) ter vez a nível consciente. Ou então lembrar os demais a respeito da brevidade da vida humana. Qualquer que seja o caso, seria precipitado considerar mesmo os trabalhos de arte mais desafiantes à interpretação como sendo completamente autossuficientes.

Visto isso, o desafio por parte do artista é o de estar, no momento da criação, completamente desapegado de expectativas de lucro e reconhecimento externo. Uma vez “terminada” a obra, porém, trata-se de buscar alcançar aquelas pessoas que possam de alguma maneira estar em ressonância com o que está sendo dito. Acredito que é perfeitamente possível, embora nem sempre fácil, conciliar essas duas mentalidades (afinal, elas ocorrem em dois momentos distintos). A criação pode até existir por si só, mas o artista existe mesmo quando num constante diálogo com o que ocorre ao seu redor.