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Música e amadorismo

Terminei o texto mais recente dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, de David Byrne, dizendo que a criatividade muitas vezes requer que a gente tenha a predisposição a não se levar a sério demais.

Um caminho pra chegar lá é reconhecer o valor do verdadeiro engajamento em determinada atividade, independente de qualquer resultado em termos de reconhecimento (ou até mesmo de maestria).

Acredito que essa é uma boa maneira de se tirar um pouco o foco do nosso centro mental (que às vezes pode nos levar a ficar muito presos a teorias e racionalizações), trazendo-o pro centro físico.

O que, como Byrne enfatiza, pode nos fazer um bem danado:

Um movimento está crescendo, uma verdadeira mudança não apenas quanto ao padrão passivo de absorção da cultura, mas também quanto à visão da arte e da música como meros veículos para a expressão de conceitos. As mãos operantes foram devolvidas ao cotidiano de uma nova geração. A cabeça dessa estrutura continua no lugar, mas agora temos a consciência de que parte da nossa compreensão e da maneira como vivenciamos o mundo vem dos nossos corpos, e também passa por eles.

Não é à toa que esse trecho vem de um capítulo intitulado “Amadores!”. Com todas as associações pejorativas que essa palavra traz, Byrne faz questão de valorizar aquilo que ela tem de melhor: o simples ato de se fazer algo por amor, sem depender de validações externas.

Curiosamente, esse ideal traz alguns paralelos muito interessantes com um outro livro lançado naquele mesmíssimo ano de 2012, que é o Antifrágil de Nassim Taleb:

Temos a ilusão de que o mundo funciona graças ao planejamento, às pesquisas universitárias e ao financiamento burocrático, mas há provas convincentes — bastante convincentes — de que tudo isso é uma ilusão, ilusão que chamo de ensinar os pássaros a voar. A tecnologia é o resultado da antifragilidade, explorada por aqueles que assumem riscos sob a forma de ajustes e de tentativa e erro, ficando o planejamento obsessivo confinado aos bastidores. Os engenheiros e os remendãos desenvolvem coisas, enquanto os livros de história são escritos por acadêmicos […].

Novamente, temos aqui a oposição entre uma sobrevalorização do centro mental (“planejamento obsessivo”) e o foco na prática (“tentativa e erro”).

Por sinal, é por isso que Taleb é muito crítico à nossa tendência de desmerecer aqueles que sabem fazer algo, mas nem sempre conseguem explicar como ou por quê.

Pra concluir, tomando a liberdade de usar um exemplo próprio, foi esse mesmo ideal que busquei expressar numa das últimas músicas que subi pra playlist impermanente.

Embora eu goste muito de falar sobre o que motivou determinada canção, talvez seja relevante deixar claro que isso pra mim é bem diferente de ter que explicar o porquê desse ou daquele verso, esse ou aquele acorde etc.

Já aconteceu de eu me meter numa enrascada dessas e não saber o que dizer. Se naquela época eu tivesse lido um dos dois livros que menciono nesse texto, talvez eu não me sentisse constrangido em simplesmente responder: “porque sim”.

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Henrí Galvão

7 de abril de 2018

Quando compus “Óleo de Cobra” eu ainda não tinha lido Iludido pelo Acaso, de Nassim Taleb, mas já estava familiarizado com algumas ideias ali.

Agora que finalmente li o livro, me senti de novo instigado (como sempre acontece depois de ler Nassim Taleb) a falar da aleatoriedade.

Assim, posso dizer que aquela canção foi o meu “antes”, enquanto a de hoje, “Refugo”, é o meu “depois”:

 

Letra:

Que falta faz um professor ou um guru
Se eu desenho o meu próprio mapa
E pinto a terra firme de azul?

Não tenho nenhuma ideia pra vender
Nem tenho mais paciência
Pra esse monte de oferta
Em cada esquina aparece um profeta

Mas qualquer vento um pouco mais forte
Já é capaz de levar o capote

E até que o mesmo raio
Resolva cair mil vezes
No mesmíssimo lugar
Eu vou estar muito ocupado
Matando a minha sede
Pra ver onde isso vai parar

A Rapunzel vive jogando as suas tranças
Não me admira nem um pouco
Ver homem feito agindo que nem criança

Mas se o coração não sente o que não vê
Ninguém tem compromisso
Ninguém tem hora marcada
Ninguém é obrigado a nada

Pra que ficar bolando um milhão de histórias?
Quem não tá na chuva não se molha

E antes que você me acuse
De ter a cabeça nas nuvens
Ou em algum lugar pior
Pensa um pouco aqui comigo
Quanto vale o sacrifício
De montar o seu dominó?

Henrí Galvão

13 de dezembro de 2017

Há alguns meses compartilhei aqui duas músicas – “Labirinto de Espelhos” e “Antifrágil” –, cada uma inspirada por um livro de Nassim Taleb.

Tem um terceiro livro dele bem conhecido, que é o Iludido pelo Acaso.

Confesso que esse eu (ainda) não li, mas sei que ele levanta uma questão bem interessante, que é a seguinte:

Até onde dá pra dizer que alguém que consegue “prever” o futuro faz isso por mérito próprio ou pelo simples fato de que, com tanta gente nessa brincadeira, alguém em algum momento vai acabar acertando?

Letra:

De cara, só posso dizer que não entendo
Como você ainda tenta ganhar no grito
O direito de apontar um caminho
Se vive sempre procurando um atalho
E não se faz de rogado
Em desprezar qualquer esforço de guerra
Não vem me dizer que agora vai ser diferente
Não tem bússola nem amuleto
Que supere o simples acaso
E quando a fruta parece madura
É porque só restou o bagaço

Henrí Galvão

21 de setembro de 2017

Duas semanas atrás, compartilhei uma música que foi inspirada pelo livro A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb.

Essa foi uma leitura que me impactou tanto que me levou a outro livro seu, Antifrágil.

Não tenho muito o que dizer a respeito, a não ser que esse livro fez o que parecia inimaginável: me impactou ainda mais que o anterior.

Letra:

Pra que forçar a barra pra estar em paz
Se a gente nem precisa chegar a um consenso?
Tem coisa mais bonita
Que se abrir pra possibilidade
De concordar em discordar?

Nada do que você me disser
Vai me afetar tanto quanto o seu silêncio
E por mais estranho que possa parecer
A sua voz me soa até melhor
Na resistência do vento

Imagina se fosse o contrário
Quem poderia se dar ao luxo
De um amor tão delicado?

Que tal começar pelo que a gente sente?
Se não funcionar, sempre vai ter outro jeito
Quem sabe isso vira até um novo hobby
Ao invés de continuar sendo só um segredo

Henrí Galvão

6 de setembro de 2017

Um dos livros que mais me impactou nos últimos tempos foi A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb.

Pra quem nunca leu, dá pra resumir dizendo que ele fala sobre a nossa dificuldade (ou, melhor dizendo, incapacidade) de prever e lidar com eventos altamente improváveis – os cisnes negros.

Que podem vir tanto para o bem quanto para o mal.

E uma armadilha é justamente a de querer perseguir determinados cisnes negros – uma busca que talvez seja ilusória na maior parte do tempo.

Esse é com certeza o caso de muitos artistas (é só ler o capítulo 7 do livro, que por si só já é um soco no estômago).

E também era – de certa forma, ainda é – o meu caso:

[ATUALIZAÇÃO: essa música foi relançada em janeiro de 2018]

Letra:

Um verso desbanca todas as intrigas
Qualquer que seja o ponto de partida
Ou a promessa que não foi cumprida
Por um impulso que não se soube largar

Todo sonho que atravessa essa fronteira
Já justifica uma vida inteira
De botar mais lenha na fogueira
Sem saber qual o limite da imaginação
Ou o que é certo e o que é só especulação

A gente cresce e desmerece
Todas as coisas que fazem perseverar
Mas de que adianta ficar
O tempo todo de olho no placar?

Às vezes acho que todo cisne é negro
E quanto mais me arrisco, mais eu vejo
Que o mundo é um labirinto de espelhos
Mostrando o infinito fora do lugar

Talvez nunca chegue o dia
Em que dê pra aceitar
Que sempre paga o maior preço
Quem tenta ver logo no começo o fim