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O papel da música

Em primeiro lugar, como muito do que vou falar hoje remete ao que foi dito semana passada, recomendo uma leitura do texto anterior para um melhor entendimento das questões aqui levantadas.

Tomando como ponto de partida as mudanças na indústria da música desde o Napster, no último texto falei de como o músico vem assumindo um papel social significativamente diferente do das décadas anteriores. As mudanças tecnológicas vêm alterando toda a lógica de consumo e distribuição de música, e esse é um processo que, apesar de já levar quinze anos, parece ainda longe de ter uma resolução satisfatória para todas as partes envolvidas.

Pra qualquer um que tenha vivido esse período de transição, fica evidente que o download de arquivos mp3 trouxe mudanças significativas na forma com que se ouve música. Se na época do vinil (e também do CD) ouvir um disco era uma experiência de verdadeira imersão, hoje se tem a impressão que o ato de escutar música é algo feito quase que exclusivamente como pano de fundo para outras atividades, como na ida e retorno do trabalho, atividades físicas, festas etc.

Isso se acentuou ainda mais com o surgimento dos mp3 players, e a crença instaurada de que voltaríamos aos poucos a uma predominância massiva dos singles, devido principalmente ao fim do fetichismo em relação a um suporte físico para a música. No entanto, essa gradual mudança para uma experiência totalmente digital não representa – pelo menos não em médio prazo – o fim do formato álbum propriamente dito.

Particularmente, penso que o advento do streaming (que finalmente parece ter vingado no Brasil com a vinda do Spotify no ano passado) tem o potencial de representar uma grande guinada nesse sentido. Posso dizer que não são poucas as pessoas que conheço que, assim como eu, voltaram a ouvir álbuns inteiros graças a esse formato, tendo uma relação muito profunda com o catálogo de artistas que antes nos eram praticamente inacessíveis.

Por outro lado, olhando mais atentamente para o lado do público como um todo, é fácil perceber como a música perdeu o seu caráter de escassez e, consequentemente, muito do seu valor social. Isso faz com que hoje haja uma ênfase ainda mais forte em outras fontes de renda além da venda de CDs (ou até mesmo de downloads), sendo que o mercado de shows (ao vivo ou online) e diferentes fontes de merchandising são vistas como prioridade absoluta para muitos artistas.

E qual seria o papel da música nesse novo contexto de mudanças tecnológicas e econômicas? Se desde sempre se ouve dizer que “a música une as pessoas”, essa expressão nunca pareceu tão relevante como agora. A possibilidade maior de escolha de certa forma vem levando as pessoas a buscarem aqueles músicos cujas mensagens lhes ressoem com mais força, o que faz com que diferentes nichos cresçam cada vez mais, atendendo à necessidade nunca inteiramente satisfeita de se ter um senso de pertencimento.

Essa nova dinâmica, por sua vez, me parece uma evidência ainda maior do reconhecimento da dimensão espiritual da música. Como não posso falar por mais ninguém além de mim, esse é um tema que talvez não caiba nesse texto. De qualquer forma, não tenho muito mais a acrescentar às palavras de Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces, e é assim que encerro por hoje:

A arte, a literatura, o mito, o culto, a filosofia e as disciplinas ascéticas são instrumentos destinados a auxiliar o indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento.

O papel do músico

Com as radicais mudanças na indústria da música desde o surgimento do Napster ainda no fim do século passado, muito se vem discutindo acerca de quais seriam os possíveis rumos do mercado, e qual será o papel do músico nesse novo contexto.

Pra começo de conversa, utilizo o termo “músico” aqui para falar daqueles que fazem algo com maior apelo “popular”. Digo isso simplesmente para fazer uma distinção entre estes e os de música erudita, em parte pela minha falta de conhecimento a respeito desse segundo grupo, e em parte porque as regras tendem a ser consideravelmente diferentes nos dois casos.

E a que regras me refiro? Bom, qualquer músico da segunda metade do século XX que tivesse alguma aspiração mais séria na sua carreira sabia que dificilmente haveria um caminho para se fazer ouvir por muitas pessoas que não fosse atrelado a uma gravadora – de preferência bem grande.

Nos últimos anos, porém, a internet vem mostrando que esse tipo de apoio não é mais necessário para o processo de distribuição de música em larga escala. É óbvio que as grandes gravadoras ainda têm um papel proeminente nos rumos da indústria, mas isso hoje em dia tem muito mais a ver com a questão do investimento em divulgação de determinados artistas, e (em menor escala) por vezes também no dinheiro para produções de discos, videoclipes e turnês, assessoria de imprensa etc.

Ao mesmo tempo, a quantidade de pessoas fazendo música e ganhando espaço por outros meios só faz crescer, e é percentualmente cada vez menor a quantidade de artistas que dispõem de todo o aparato descrito no parágrafo anterior. Isso porque já é mais que sabido que a base de sustentação dessa indústria, a venda de CDs (e anteriormente LPs), está com os dias contados. Não à toa, ser independente, que era antes a exceção, é hoje a regra até mesmo entre veteranos consagrados.

Tudo isso vem levando muitas pessoas a vislumbrar possíveis alternativas de atuação para um músico atualmente. Dentre elas, talvez a mais difundida seja o conceito de “cauda longa”, popularizado pelo jornalista Chris Anderson num texto para a revista Wired, em 2004. Basicamente, esse termo é utilizado para sustentar a hipótese de que modelos de negócios baseados em mercados de nicho representariam uma fatia cada vez maior do bolo (em contrapartida aos best-sellers e blockbusters).

Independente das críticas que possam ser feitas à viabilidade de tal modelo, o fato é que ele demonstra a forma como, no geral, o papel do músico parece estar pouco a pouco se reconfigurando na nossa sociedade. Evidência disso é que a própria percepção social sobre o que é ser músico e o que é ser fã já é consideravelmente diferente para os mais jovens (as gerações Y e Z).

A principal diferença é uma certa desconstrução da imagem do músico como uma figura distante e inacessível. Enquanto que as pessoas da minha idade (e também os mais velhos) cresceram com toda uma mística em torno de artistas que eram pra nós quase que deuses num olimpo, os adolescentes de hoje esperam ter uma participação muito mais ativa na carreira de seus ídolos.

No universo de uma garota de 18 anos, suas personalidades favoritas (não só da música, é bom que se diga) muitas vezes estão ao alcance de um tuíte. Consequentemente, os músicos de maior sucesso de hoje aprenderam a usar muito bem novas ferramentas e estratégias (que não se restringem ao mundo online) como forma de aumentar essa proximidade com seus fãs, dando a eles um senso de pertencimento que os da minha geração sequer podiam imaginar.

Mesmo (ou até principalmente) entre os poucos artistas que ainda vendem milhões de discos (Lady Gaga, Taylor Swift etc.), o foco parece estar menos em fazer algo “que todo mundo pode gostar”, e mais em alimentar uma comunidade de verdadeiros devotos. Esses “devotos”, por sinal, não são simplesmente de uma cantora ou grupo, mas também da “causa” que ela/ele representaria (um livro que retrata bem essa lógica é Tribos, de Seth Godin).

Todas essas ideias, é claro, são ainda muito incipientes. Ninguém sabe de fato como um músico independente vai fazer para sobreviver e se manter relevante nos dias de hoje. O que se faz fundamental mesmo é ter ao menos a consciência de que, cada vez mais, aqueles que se importam com o trabalho desse músico não vão simplesmente se satisfazer em assistir a tudo de camarote. Eles esperam se sentir presentes de alguma forma, sabendo que o que o artista faz não é à sua revelia, pois o fã é parte fundamental de toda essa jornada – como, aliás, sempre foi.