Arquivo da tag: música intrapessoal

Autoconsciência vs. autoconhecimento

Pra além de qualquer sonoridade mais específica, gosto de dizer que o que faço é música intrapessoal. Como explico melhor aqui, isso é simplesmente o meu jeito de valorizar o papel da música como um caminho de autoconsciência.

E já que o termo “autoconsciência”[1] é muitas vezes entendido como sinônimo de “autoconhecimento”, acho importante ressaltar a diferença entre as duas palavras, e por que escolho usar a primeira e evito usar a segunda.

Antes de falar em autoconsciência, talvez seja mais fácil começar dizendo que dou preferência a este termo por uma razão muito simples: não me sinto muito qualificado pra dizer até que ponto existe algo pra se “conhecer” quando falamos de nós mesmos.

Sendo assim, falar em autoconhecimento talvez seja não só uma tarefa incrivelmente complicada e presunçosa; talvez seja até mesmo uma busca completamente ilusória.

Quem está familiarizado com o budismo deve se lembrar que isso tem muito a ver com o conceito de anatta, que é justamente a noção de que não há um “eu” permanente, ou uma “essência”. O psiquiatra Neel Burton coloca isso da seguinte forma:

se você tentar se tornar consciente de si mesmo, você vai apenas se tornar consciente de tal e tal sentimento, tal e tal percepção, ou tal e tal pensamento, mas nunca de um self próprio, central.

Em poucas palavras, aí está o principal contraste entre autoconsciência e autoconhecimento. E o fato é que estudos, experimentos e descobertas recentes da neurociência dão cada vez mais fundamento a essa perspectiva, o que dificulta e muito qualquer crença num eu não divisível.

Sam Harris, por exemplo, explora esse tema à exaustão no seu livro Despertar, onde se esforça ao máximo pra mostrar como é ter uma vida espiritual sem, necessariamente, ter um sistema de crenças religiosas.

Isso é possível, segundo ele, a partir do momento em que se desenvolve um senso de espiritualidade que vá além da “sensação de ser um pensador de pensamentos no interior de nossa cabeça, a sensação de ser dono ou habitante de um corpo físico”.

Assim, não é à toa que Harris desce a lenha nas chamadas grandes religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo –, já que elas se baseiam inteiramente na própria existência da alma humana.

Da minha parte, sabendo que posso dar a impressão de estar encima do muro, quando falo em autoconsciência não estou necessariamente negando por completo a existência de uma essência, ou algo parecido.

Porque se alguém me perguntar nesse momento no que acredito, a resposta mais honesta que posso dar é: não sei.

Só o que sei é que, independente do que possa ou não haver dentro de cada um de nós, isso não nos impede de perceber que há sempre muito que explorar na nossa paisagem interior. O que, por si só, é motivo mais do que suficiente pra seguir nessa jornada.

 

 

[1] em inglês a tradução mais apropriada pra autoconsciência é “self-awareness”, que por sua vez é diferente de “self-consciousness”. O Google não faz essa distinção, e traduz ambas as palavras como “autoconsciência”. Já o Linguee, quando traduz “self-conscious”, dá preferência ao termo “inseguro”, o que já é um avanço.

Anúncios

Entretenimento interiorizado

comentei que o que faço é música intrapessoal, e já falei do que isso se trata. Mas pro propósito do texto de hoje acho que não faz mal repetir: é a música como uma forma de autoconsciência, pra além (mas não necessariamente contra) do entretenimento.

Com tudo isso, talvez tenha faltado mencionar o que me levou a essa expressão. Nesse sentido, me sinto quase que na obrigação de mencionar um livro que me ajudou muito a chegar a esse grau de clareza a respeito do que faço: Love Live Forgive.

Love Live Forgive nada mais é que uma compilação de depoimentos de diferentes artistas a respeito de amor, perdão e arte. Editado pelo neozelandês Justin St. Vincent, diretor do coletivo de artistas e autores Xtreme Music, o livro pode ser baixado gratuitamente aqui.

Gary MalkinDentre os vários relatos, um dos que me tocou em particular foi o de um músico chamado Gary Malkin, que em dado momento menciona algo que ele considera da mais alta importância: passar do “entertainment” (ou seja, entretenimento) para o “Inner-tainment”.

“Inner-tainment” é uma palavra difícil (pra não dizer impossível) de traduzir. Mas se levarmos em conta que o sufixo –tainment em inglês é usado pra juntar o entretenimento com alguma outra coisa, talvez dê pra encontrar um caminho.

Por exemplo, a palavra “edutainment” é a junção de educação + entretenimento, e é traduzida como “entretenimento educativo”. Seguindo esse raciocínio, podemos dizer que “innertainment” representaria um “entretenimento interiorizado” (já que “inner” significa “interior”).

Sem dúvida que a expressão “entretenimento interiorizado” pode ser entendida de diferentes maneiras. Falando por mim, acredito que qualquer manifestação artística que ajude uma pessoa a se dar conta da riqueza da sua vida interior pode ser considerada um tipo de innertainment.

Isso de certa forma é até um paradoxo, porque a ausência de estímulos externos é considerada um requisito básico pra que um ser humano chegue a ter uma boa noção a respeito de si mesmo. Daí porque muitas tradições ressaltam a importância de se meditar, desconectar e parar pra refletir sobre onde se quer chegar.

E, ainda que a música tenha a grande vantagem de ser a única manifestação artística que não dependa de estímulos visuais, nem mesmo ela pode ser usada pra substituir todas essas práticas que mencionei no parágrafo anterior.

Por outro lado, ela pode perfeitamente servir ao menos como um lembrete. Mais do que isso, talvez ela possa servir até mesmo como propaganda (embora, obviamente, de um tipo bem diferente do qual estamos acostumados).

Então, voltando aos primeiros parágrafos, se eu fosse dizer com outras palavras por que eu gosto tanto do termo música intrapessoal, eu diria o seguinte: porque música é a coisa mais preciosa que existe depois do silêncio.

Sobre influências e referências

Cedo ou tarde, todo músico – ou, melhor dizendo, todo artista – acaba se deparando com aquela famosa pergunta: quais são as suas influências?

Essa é uma pergunta traiçoeira por alguns motivos. O primeiro é que um músico tem suas influências diretas, como também pode ter – e certamente tem – influências indiretas vindas dos artistas que ele admira. Assim, estes artistas servem de “influência” pra sua “influência”.

Por exemplo, uma banda que goste de Arctic Monkeys e de certa forme tente emular o seu som pode não se dar conta da influência de Black Sabbath no trabalho do grupo. E o Sabbath, por sua vez, foi bastante influenciado, à sua própria maneira, pelos Beatles (ainda que isso não se perceba tão facilmente).

Além do mais, a influência pode ser tanto consciente quanto inconsciente. Muitas vezes um músico sabe que está pegando determinados aspectos de composição, performance ou produção de um outro artista. Outras vezes, não.

É por isso que não acho que tenha sido desonestidade de George Harrison, por exemplo, quando ele pegou um trecho significativo de “He’s So Fine” (de 1963), do grupo the Chiffons, pra compor o seu clássico “My Sweet Lord” (de 1970).

É até bem provável que ele conhecesse aquela canção anterior, mas é também possível que ele realmente não se lembrasse conscientemente daquela melodia (tanto é que aparentemente nem mesmo Phil Spector, que produziu “My Sweet Lord”, se deu conta das semelhanças).

É por essas e outras que acredito que, tão importante quanto saber mais a respeito das influências sonoras (que acabam sendo bastante difusas) de um músico ou grupo, é saber quais ideias moldaram a sua filosofia artística. Assim, saímos do terreno da mera influência e passamos a falar de referências.

Usando um exemplo próprio, posso dizer que ouço diferentes comentários sobre as minhas músicas. E, embora todas as observações sejam mais do que válidas (quer eu concorde ou não), não são tão importantes pra mim quanto um entendimento do meu propósito enquanto músico.

É por isso que gosto tanto de falar que o que faço é música intrapessoal: essa é uma maneira de tentar fazer as pessoas irem além dos aspectos sonoros – que são muito relevantes, é óbvio – pra ter uma conexão mais direta comigo, a partir dos meus valores.

Daí é possível perceber a beleza do que fez o cantor australiano Nick Cave quando citou, entre suas influências, não só músicos como Bob Dylan e the Stooges, mas também personalidades tão distintas quanto Ned Kelly, Muhammad Ali e Jesus Cristo!

Quanto a mim, eu me sentiria mais que honrado se puder transmitir com o meu trabalho algo não só de outros músicos, mas também de Van Gogh, Inayat Khan, Pep Guardiola e tantos outros. No fim, tudo ajuda a formar uma filosofia que se estende não só à arte, mas também à vida.

Masoquismo benigno

Quando comecei a entrar mais a fundo em assuntos de desenvolvimento pessoal e, principalmente, espiritualidade, me deparei mais de uma vez com estudiosos de níveis de consciência falando sobre como não existe nada que possa ser considerado de fato “neutro”. Em outras palavras, todo e qualquer estímulo ao qual um ser humano se submete vai ou lhe tornar mais consciente, ou lhe deixar ainda mais limitado nas suas respostas a diferentes situações.

Ainda que naquele momento eu estivesse num período em que tinha parado de compor, nunca deixei de ser um ouvinte assíduo de música. Logo, não demorou muito pra que eu começasse a me preocupar mais e mais com o conteúdo do que ouvia, o que me levou a evitar deliberadamente qualquer música em que predominassem sentimentos tidos como mesquinhos, ou simplesmente “inferiores”. Mais especificamente, essa foi uma fase em que tentei me afastar de manifestações extremas de violência e tristeza na arte em geral.

Assim, eu procurava só ouvir músicas que trouxessem mensagens positivas, e pela primeira vez comecei a me interessar por aquelas com um viés claramente religioso – principalmente as da carreira solo de George Harrison. Ao mesmo tempo, porém, eu me perguntava se isso me ajudava a lidar com certas emoções que, de uma forma ou de outra, continuavam presentes. E, quando elas vinham à tona, pareciam ter uma força tão grande (ou até maior) do que antes.

Ou seja, a grande questão era (e, de certa forma, ainda é) saber se era possível ter uma relação responsável com os estímulos externos em geral e ao mesmo tempo honrar de forma não destrutiva a raiva, a tristeza, o ressentimento e todas essas emoções menos desejáveis. Como a minha própria experiência parecia bem inconclusiva, foi aí que valeu a pena ver o que a psicologia atual tinha a dizer a respeito.

Pelo menos no que se refere à música, os estudos recentes são bem interessantes, e parecem reforçar a ideia de que ouvir uma canção triste pode até mesmo ter um efeito terapêutico em muitos casos. Mas o que mais me chamou atenção foi um artigo de Todd B. Kashdan para a Psychology Today, em que ele menciona um estudo liderado por Paul Rozin sobre situações em que muitas pessoas sentem prazer com a dor.

Rozin se refere a isso como “masoquismo benigno”, e Kashdan chega à seguinte conclusão no seu texto: “Nós estamos no nosso melhor quando podemos transcender a dicotomia do positivo e do negativo – quando as emoções servem como sinais ao invés de obstáculos”. E em seguida lança uma pergunta ao leitor: “Como você está treinando você mesmo a estar confortável em se sentir desconfortável?”.

No fim, essa acabou sendo uma das lições mais importantes pra que eu entendesse melhor o meu propósito, assumindo que o que faço é, afinal de contas, música intrapessoal. Não preciso repetir o que já disse há algumas semanas. Basta dizer que acredito, mais do que nunca, que a abordagem de diferentes emoções ajuda a cumprir uma das funções mais importantes da arte, que é a de nos ajudar a reconhecer, aceitar, entender e reavaliar o nosso próprio sofrimento.

O fiel da balança [ou Manifesto da Música Intrapessoal]

Falar do domínio intrapessoal é falar da habilidade de se conhecer a si mesmo, o que inclui motivações, medos e desejos. Logo, falar em música intrapessoal é falar da música que nos auxilia nesse propósito. É aquela em que o racional está subordinado ao emocional, e a técnica está a serviço dos princípios. É a música que nos instiga a olhar pra dentro, mesmo quando fala de eventos externos.

Isso nos leva a algumas considerações, e talvez a mais importante delas seja a crença na arte como algo mais que entretenimento. Isso não quer dizer que uma coisa deve se opor à outra; o entretenimento é algo muito valioso por si só. Walt Disney uma vez disse: “Eu preferiria entreter as pessoas na esperança de que elas aprendessem algo do que educá-las na esperança de que elas fossem entretidas”.

A questão é que o que se costuma chamar de entretenimento geralmente se restringe à diversão. Não tem nada de errado com isso, mas é bom saber que existem outras possibilidades. Além do que, mesmo a diversão, pra cumprir o seu papel de engajar de fato, requer atenção e foco da nossa parte. Ou, pra usar um termo bastante em evidência ultimamente, requer presença. Coisa que nunca esteve tão em falta.

Acredito que não falei nada aqui que já não se saiba de uma forma ou de outra. Mas uma coisa é saber, outra é vivenciar. Ainda mais nessa época de tantos estímulos e possibilidades, a habilidade intrapessoal é o verdadeiro fiel da balança. É aquilo que pode nos levar a desenvolver ainda mais nossas potencialidades, ao mesmo tempo que a sua ausência pode nos fazer chafurdar numa vida vazia de propósito.

Música intrapessoal é só um nome (que você tem todo o direito de achar pomposo demais). Ainda assim, é também um lembrete de algo que parece estar se perdendo, que é o entendimento da música como um caminho pro desenvolvimento humano e cultural. E é esse “olhar pra dentro” que abre a porta pra capacidade de transformação e nos leva a reconhecer o nosso papel criativo não só na arte, mas também na vida.