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Arte ou entretenimento?

A percepção social a respeito da música popular parece sempre ter subentendido que ela é uma manifestação cultural focada no entretenimento. No entanto, no caso específico do rock, já faz bastante tempo que essa noção vem sendo desafiada. Mais especificamente, já se vão quase cinquenta anos, desde o lançamento de Sgt. Pepper’s, dos Beatles, em 1967.

É quase unanimidade dizer que foi esse álbum que escancarou a possibilidade da música pop ir além do entretenimento pra se tornar arte. Como nem sempre é fácil diferenciar uma coisa da outra, talvez seja útil trazer a perspectiva do historiador da arte Michael Bird, que no último capítulo do seu livro 100 Ideias que Mudaram a Arte fala sobre a efemeridade. Em suas palavras:

Considerar cada aspecto da arte – sua feitura, sua existência como objeto, os significados atribuídos a ela, seu contexto social e as maneiras pelas quais ela é vivenciada – implica na conscientização do tempo. Esta conscientização pode ser o que diferencia a arte do entretenimento, que suspende nossa noção do tempo. Mas é difícil ter certeza. (…) um show de fogos de artifícios é entretenimento ou arte?

Essa “conscientização do tempo” foi justamente a mudança de paradigma pela qual o rock passou nos anos 60. Existem outros estilos de música pop que não atingiram tal status (por uma série de razões que não cabem nesse post), e continuam sendo vistos essencialmente como entretenimento. Isso quer dizer, basicamente, que eles são tidos (erroneamente, a meu ver) como algo descartável e sem maior relevância pra além do momento presente.

De qualquer forma, essa é só uma possível interpretação. Se mesmo Bird tem dificuldade em dizer claramente o que é arte e o que é entretenimento, não vou ser eu a dar um veredito sobre o tema. No entanto, como no meu texto anterior reivindiquei o que faço como algo mais que diversão, quero ressaltar duas coisas: a primeira é que, por mais que ir além do entretenimento signifique levar a sério o que se faz, espero que não se confunda ser sério com ser sisudo.

A segunda coisa é que o simples fato de dizer que se quer ir além do entretenimento, por mais natural que possa parecer pra alguns, pra outros pode parecer muito pretensioso. Ser pretensioso pra mim também está bom, desde que se entenda a diferença entre pretensão e presunção. De resto, qualquer tipo de posicionamento vai sempre agradar a alguns e desagradar à maioria.

Tenho consciência de que isso pode soar elitista, mas ao mesmo tempo está longe de ser um ato de ousadia. É simplesmente uma forma de dizer que, se a música é algo mais que entretenimento, ela merece ser apreciada, interpretada e experimentada pra além da sua época, como qualquer outra manifestação artística. Isso por si só já faz dela mais do que uma distração – e, certamente, muito mais que uma commodity.

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