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Sobre as limitações na criação

Há algum tempo perguntaram a Caetano Veloso por que ele sempre declarava que João Gilberto era sua referência máxima, sendo que não se ouve em suas músicas uma influência assim tão nítida do pai da bossa nova. A resposta de Caetano, apesar de talvez exageradamente modesta, foi bem interessante: “Não tenho competência para ser influenciado por João Gilberto”.

Se Caetano tem ou não essa competência, não vem ao caso. O importante é que o fato dele acreditar não a ter é que não lhe deu outra escolha a não ser criar o seu próprio jeito de cantar e tocar. Pode não parecer, mas isso acontece o tempo todo na arte. O que não se pode alcançar, seja por limitações físicas ou apenas por falta de fé, frequentemente leva o artista a inovações que ninguém mais havia pensado (afinal, ninguém mais havia sentido a necessidade de chegar até ali).

Consideremos o caso do belga Django Reinhardt, um dos violonistas de jazz mais celebrados de todos os tempos. Como os fãs já sabem bem, no início de sua carreira ele sofreu um acidente que resultou em queimaduras em parte do seu corpo, e deixou inutilizados dois dedos da sua mão esquerda. O resultado foi que ele desenvolveu um estilo muito próprio de tocar (e praticamente inimitável), que acabou dando origem ao que se conhece como gypsy jazz:

Nunca comentei isso aqui no blog, mas embora toque violão como canhoto, a verdade é que sou destro. Toco como canhoto apenas porque não articulo suficientemente bem o braço esquerdo pra conseguir formar os acordes no violão. Esse foi provavelmente o principal motivo de, desde o início, eu ter abandonado qualquer esperança de um dia chegar a tocar do jeito “certo”.

Isso nunca me incomodou muito, mas se eu tivesse nascido em outra época, essa constatação seria o suficiente pra que eu deixasse de lado minhas pretensões como músico. E é por isso que me sinto em dívida não só com músicos que tocavam “errado”, como Django Reinhardt e Wes Montgomery (que só usava o dedão pra tocar as cordas da guitarra), mas também com muitos cantores populares que se fizeram ouvir mesmo sem ter muito conhecimento de teoria musical, como Leonard Cohen e Luis Eduardo Aute.

Curiosamente, saber que não estou sozinho nessa é que me dá o estímulo de fazer algo de diferente. Acredito que no coração de todo artista sempre vai existir o ideal daquilo que ele gostaria de fazer, ideal esse que constantemente se choca com aquilo que ele de fato se sente capaz de fazer. Por isso que todo músico com alguma ambição deve fazer a sua lição de casa, ou seja, ouvir muita música, praticar, estudar, ler e discutir sobre arte em geral.

No entanto, o interessante é que nenhuma dessas coisas nos leva exatamente aonde queremos chegar. Na verdade, a gente persegue essas coisas porque elas nos inspiram a fazer algo que, de alguma forma, ressoa com os nossos valores mais íntimos. Picasso exprimiu muito bem esse sentimento quando disse: “Você deveria constantemente tentar pintar como outra pessoa. A questão é que você não consegue! Você gostaria. Você tenta. Mas no final fica uma droga… E é justamente no momento que você faz uma droga que você é você mesmo”.

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Aute por amor à arte

Talvez soe repetitivo mencionar a falta de abertura do Brasil em relação à música de língua espanhola. Muita gente boa já alertou para o fato de que continuamos, em geral, de olhos e ouvidos fechados para grupos e cantores ibero-americanos, ainda que a internet tenha amenizado um pouco isso. Queria poder dizer que essa situação não me incomoda, mas isso seria não apenas uma mentira, como também um desserviço pra com esses artistas.

Tomemos, por exemplo, o caso do espanhol Luis Eduardo Aute. Fosse ele norte-americano ou britânico, seria, sem nenhum exagero, celebrado tanto quanto Leonard Cohen (de quem, aliás, é admirador confesso). E, como se não bastasse a sua extensa discografia, é também um tremendo artista plástico (basta ver as capas de muitos de seus discos), poeta e diretor de cinema.

É verdade que as suas demais atividades acabam sendo eclipsadas pelo seu trabalho como cantor-compositor. Mas o mais interessante (e o que mais me fascina) é que em tudo se manifesta, em doses complementares e praticamente indistinguíveis, o seu interesse pelo amor, o erotismo e o misticismo. Não posso dizer ao certo quais são as suas visões quanto a esses assuntos, mas sinto que também na sua vida há uma constante busca pela harmonização entre esses “opostos”.

É claro que, ao ler e ver suas entrevistas, passei a admirá-lo também pela pessoa que ele é – o que, como se sabe, só enriquece a experiência artística como um todo. É sempre um prazer vê-lo falar, e perceber um homem verdadeiramente comprometido com a própria arte, que busca acima de tudo contribuir o que tem de melhor sem se preocupar demais com as expectativas dos outros quanto a isso.

Por fim, tenho noção também de que falar de Aute dessa forma pode afastar aqueles que, ao buscarem a música de outros países, dão preferência a se enveredar pela “world music” mais “exótica” (o que, por sinal, também é o meu caso), como as bandas de metais dos Balcãs, ou o tishoumaren do norte da África. Mas, como bem observou David Byrne em um maravilhoso texto para o New York Times em 1999, esse tipo de distinção pode ser bastante perigosa, já que pode nos impedir de abrir os olhos e o coração para algo talvez um pouco mais familiar, mas não menos intrigante e apaixonante.