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Henrí Galvão

15 de novembro de 2017

Qualquer pessoa que busca estar alinhada com seu propósito é tentada a seguir um caminho que promete ser mais fácil.

Mas, como diria um dos meus heróis, Leonard Cohen, talvez valha mais a pena trabalhar duro.

Letra:

Se um dia fizerem questão do meu veredito
Fica tranquilo que na hora eu dou um jeito
Até lá, só o que sei
É que não vou perder meu tempo
Exorcizando cada incerteza
Como se fosse um cão sardento

Do mesmo jeito que eu vim, eu vou
Não tenho nem nunca tive plano de voo
Por mais que corra o risco
De não ser levado a sério
Por quem ainda se acha muito esperto
Pra admitir que a vida é todo esse mistério

E mesmo quem decide o que é importante
Nunca é capaz de dizer quando um diamante
Vai emergir do magma de um vulcão

Por isso, só ofereço suor e trabalho
Quem quiser que procure um atalho
Não vou tentar cortar caminho
Depois de tanto jogo de cena
Me considero um cara de muita sorte
Por sofrer por algo que vale a pena
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Sobre as limitações na criação

Há algum tempo perguntaram a Caetano Veloso por que ele sempre declarava que João Gilberto era sua referência máxima, sendo que não se ouve em suas músicas uma influência assim tão nítida do pai da bossa nova. A resposta de Caetano, apesar de talvez exageradamente modesta, foi bem interessante: “Não tenho competência para ser influenciado por João Gilberto”.

Se Caetano tem ou não essa competência, não vem ao caso. O importante é que o fato dele acreditar não a ter é que não lhe deu outra escolha a não ser criar o seu próprio jeito de cantar e tocar. Pode não parecer, mas isso acontece o tempo todo na arte. O que não se pode alcançar, seja por limitações físicas ou apenas por falta de fé, frequentemente leva o artista a inovações que ninguém mais havia pensado (afinal, ninguém mais havia sentido a necessidade de chegar até ali).

Consideremos o caso do belga Django Reinhardt, um dos violonistas de jazz mais celebrados de todos os tempos. Como os fãs já sabem bem, no início de sua carreira ele sofreu um acidente que resultou em queimaduras em parte do seu corpo, e deixou inutilizados dois dedos da sua mão esquerda. O resultado foi que ele desenvolveu um estilo muito próprio de tocar (e praticamente inimitável), que acabou dando origem ao que se conhece como gypsy jazz:

Nunca comentei isso aqui no blog, mas embora toque violão como canhoto, a verdade é que sou destro. Toco como canhoto apenas porque não articulo suficientemente bem o braço esquerdo pra conseguir formar os acordes no violão. Esse foi provavelmente o principal motivo de, desde o início, eu ter abandonado qualquer esperança de um dia chegar a tocar do jeito “certo”.

Isso nunca me incomodou muito, mas se eu tivesse nascido em outra época, essa constatação seria o suficiente pra que eu deixasse de lado minhas pretensões como músico. E é por isso que me sinto em dívida não só com músicos que tocavam “errado”, como Django Reinhardt e Wes Montgomery (que só usava o dedão pra tocar as cordas da guitarra), mas também com muitos cantores populares que se fizeram ouvir mesmo sem ter muito conhecimento de teoria musical, como Leonard Cohen e Luis Eduardo Aute.

Curiosamente, saber que não estou sozinho nessa é que me dá o estímulo de fazer algo de diferente. Acredito que no coração de todo artista sempre vai existir o ideal daquilo que ele gostaria de fazer, ideal esse que constantemente se choca com aquilo que ele de fato se sente capaz de fazer. Por isso que todo músico com alguma ambição deve fazer a sua lição de casa, ou seja, ouvir muita música, praticar, estudar, ler e discutir sobre arte em geral.

No entanto, o interessante é que nenhuma dessas coisas nos leva exatamente aonde queremos chegar. Na verdade, a gente persegue essas coisas porque elas nos inspiram a fazer algo que, de alguma forma, ressoa com os nossos valores mais íntimos. Picasso exprimiu muito bem esse sentimento quando disse: “Você deveria constantemente tentar pintar como outra pessoa. A questão é que você não consegue! Você gostaria. Você tenta. Mas no final fica uma droga… E é justamente no momento que você faz uma droga que você é você mesmo”.

Imaginação e experiência

Num vídeo gravado para o YouTube, Paulo Coelho disse algo muito interessante a respeito do processo criativo. Segundo ele, existem basicamente dois tipos de escritores: aqueles como Proust e Joyce, que escrevem principalmente confiando na imaginação em detrimento da experiência; e aqueles como Rimbaud e Hemingway, que sentem a necessidade de ter experiências para criar.

O próprio Paulo, como ele mesmo diz, se encaixa melhor nesse segundo grupo. Isso fica bastante óbvio pra quem conhece um pouco da sua biografia e já leu livros como O Alquimista e O Diário de um Mago buscando paralelos com a vida do escritor.

Tendo isso em mente, imaginei como seria olhar dessa maneira para cantores-compositores. De cara, me parece que na música popular é quase uma norma implícita, tanto por parte do público quanto da imprensa, esperar que o artista escreva a partir da sua própria experiência. Me atentando a cantores que conheço um pouco melhor, posso citar Gene Clark e Cat Stevens como dois ótimos exemplos.

Mas também existem aqueles que fazem todo um exercício de se colocar no lugar de outras pessoas, e sentem um prazer imenso em criar histórias e mundos imaginários. Chico Buarque poderia ser um bom exemplo disso, mas até que ponto os versos de uma música como “Futuros Amantes” são pura imaginação, isso é algo que só ele mesmo (talvez) poderia responder.

Olhando em retrospectiva para a minha própria trajetória até aqui, percebi que essa aparente dicotomia foi um dos principais motivos para o que entendia como a falta de relevância das minhas primeiras músicas. Frequentemente eu falava de coisas sobre as quais não me via com tanta autoridade assim, já que no fundo sentia que precisava de mais vivência (daí o porquê daqueles cinco anos sem compor, como explico no e-mail de introdução da newsletter).

Isso não quer dizer, obviamente, que tudo o que escrevo se refere a coisas que vivi, e também não acho que esse seja o caso dos músicos que menciono acima. Talvez seja mais apropriado dizer que tudo o que me toca, e que de alguma forma está em ressonância com a minha experiência, acaba merecendo um espaço nas minhas composições (ainda que essa conexão possa parecer por demais elusiva pra qualquer outra pessoa).

Entendendo dessa forma, embora ainda ache o exemplo de Paulo Coelho muito válido, de um jeito ou de outro não há oposição entre vivência e imaginação, pois tudo acaba fazendo parte da visão de mundo de cada artista. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do que Leonard Cohen disse numa entrevista recente: “tudo o que eu tenho que colocar numa canção é a minha própria experiência”.

Aute por amor à arte

Talvez soe repetitivo mencionar a falta de abertura do Brasil em relação à música de língua espanhola. Muita gente boa já alertou para o fato de que continuamos, em geral, de olhos e ouvidos fechados para grupos e cantores ibero-americanos, ainda que a internet tenha amenizado um pouco isso. Queria poder dizer que essa situação não me incomoda, mas isso seria não apenas uma mentira, como também um desserviço pra com esses artistas.

Tomemos, por exemplo, o caso do espanhol Luis Eduardo Aute. Fosse ele norte-americano ou britânico, seria, sem nenhum exagero, celebrado tanto quanto Leonard Cohen (de quem, aliás, é admirador confesso). E, como se não bastasse a sua extensa discografia, é também um tremendo artista plástico (basta ver as capas de muitos de seus discos), poeta e diretor de cinema.

É verdade que as suas demais atividades acabam sendo eclipsadas pelo seu trabalho como cantor-compositor. Mas o mais interessante (e o que mais me fascina) é que em tudo se manifesta, em doses complementares e praticamente indistinguíveis, o seu interesse pelo amor, o erotismo e o misticismo. Não posso dizer ao certo quais são as suas visões quanto a esses assuntos, mas sinto que também na sua vida há uma constante busca pela harmonização entre esses “opostos”.

É claro que, ao ler e ver suas entrevistas, passei a admirá-lo também pela pessoa que ele é – o que, como se sabe, só enriquece a experiência artística como um todo. É sempre um prazer vê-lo falar, e perceber um homem verdadeiramente comprometido com a própria arte, que busca acima de tudo contribuir o que tem de melhor sem se preocupar demais com as expectativas dos outros quanto a isso.

Por fim, tenho noção também de que falar de Aute dessa forma pode afastar aqueles que, ao buscarem a música de outros países, dão preferência a se enveredar pela “world music” mais “exótica” (o que, por sinal, também é o meu caso), como as bandas de metais dos Balcãs, ou o tishoumaren do norte da África. Mas, como bem observou David Byrne em um maravilhoso texto para o New York Times em 1999, esse tipo de distinção pode ser bastante perigosa, já que pode nos impedir de abrir os olhos e o coração para algo talvez um pouco mais familiar, mas não menos intrigante e apaixonante.