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Kanye West entre a devoção e a depravação

Com as inúmeras controvérsias que antecederam e sucederam o lançamento do novo disco de Kanye West, The Life of Pablo (foram tantas que é impossível não pensar que pelo menos metade não teve outra função que chamar atenção pro álbum), me veio à mente o show de Kanye no festival de Glastonbury do ano passado, em que ele se intitulou como “o maior astro de rock vivo no planeta”.

Na época, muita gente torceu o nariz e focou no fato óbvio de que ele nem sequer é um músico de rock. Mas a questão é que, se formos seguir o seu raciocínio, de quem entende o rock não tanto como um gênero musical e mais como um estilo de vida e uma abordagem artística, o que ele disse não estava assim tão longe da verdade.

Afinal, a essa altura já está bastante óbvio que o importante pra Kanye nunca foi apenas a letra, o som e o visual do seu trabalho, mas principalmente como maximizar o seu impacto (coisa que seria mais difícil se ele seguisse o estereótipo do rapper que se limita a falar de dinheiro, mulheres e carrões). É por isso que, no seu universo, acima de Nas ou qualquer outro rapper está Michael Jackson. Não só isso, acima de qualquer músico está Picasso, e acima de qualquer artista está Steve Jobs (não é à toa que The Life of Pablo foi apresentado semana retrasada com toda a pompa a que teve direito, como parte do evento fashion Yeezy Season).

Dito isso, sinceramente não sabia o que esperar desse novo trabalho, já que as faixas lançadas nas últimas semanas (“Facts”, “Real Friends” e “No More Parties in L.A.”), apesar de boas, me pareceram mais convencionais que as do seu disco anterior (Yeezus, de 2013). Por outro lado, já eram conhecidas também versões anteriores de “Fade” e “Wolves”, que tinham pouco de hip hip – o que, no seu caso, quase sempre traz resultados ótimos. De qualquer forma, em todos esses exemplos não se encontrava quase nada do que Kanye havia prometido, de que este seria “um álbum gospel com um monte de palavrão”.

O que me leva a pensar que a principal diferença desse disco em relação aos anteriores é simplesmente o fato de não ter uma identidade estética muito bem definida. Em outras palavras, é um álbum menos coeso, e até meio frustrante às vezes, porque ao longo de quase uma hora a premissa do “gospel com palavrão” só se materializa mesmo nas duas primeiras músicas: “Ultralight Beam” (uma das mais incríveis do disco) e “Father Stretch My Hands” (dividida em duas partes).

Às vezes essa falta de unidade não incomoda tanto, graças à força de faixas como “Famous” (com participação de Rihanna) e a já citada “No More Parties in L.A.” (com Kendrick Lamar); por outro lado, “Freestyle 4” parece mais uma sobra de Yeezus, enquanto que “I Love Kanye” é no máximo uma brincadeira sem muito graça. Além disso, com tantas músicas numa vibe puramente narcisista, fica difícil acreditar em Kanye quando ele diz que o Pablo do título se refere menos a Picasso ou a Escobar, e mais a Paulo de Tarso:

Diante de tudo isso, ainda é cedo pra dizer como The Life of Pablo vai se encaixar no restante da sua discografia, até porque no momento aquilo que o álbum poderia ter sido me dá uma impressão mais forte do que aquilo que ele de fato se tornou (ainda que aparentemente essa não seja a sua versão final). Independente de qualquer coisa, é ótimo que alguém com o seu nível de sucesso comercial ainda se dê ao luxo de, deliberadamente, buscar expandir seus horizontes. Só espero de coração que os seus muitos interesses e (principalmente) a sua obsessão por polêmicas não lhe tirem o foco da sua arte.

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O que diferencia um artista

Foi notória a polêmica que se gerou, no início deste ano, com a vitória de Beck na principal categoria do Grammy (Álbum do Ano) por seu disco Morning Phase, derrotando a favorita Beyoncé com seu disco epônimo. Kanye West (sempre ele), aparentemente bastante contrariado, disse que Beck deveria dar seu prêmio a Beyoncé por respeito à “artistry” – palavra que neste caso podemos traduzir como “qualidade artística”.

Passada a minha surpresa por constatar que o Grammy ainda fosse capaz de causar tamanha comoção, o ponto que mais me prendeu a atenção nessa história toda foi justamente considerar o que, afinal, Kanye entende como sendo “artistry”. Chris Robley, num ótimo texto para o blog DIY Musician, levantou essa discussão trazendo à tona o argumento de muitas pessoas nas redes sociais que discordavam de Kanye: enquanto Beck compôs, produziu e tocou boa parte dos instrumentos em seu álbum, Beyoncé teria feito não mais que cantar e dividir os créditos das composições com diversos outros parceiros. Consequentemente, isso faria do disco de Beck um representante muito mais digno dessa tal de “artistry”.

A partir daí, a questão que Chris propõe é a seguinte: o que faz do artista um artista afinal? Será que o simples fato de um músico fazer quase tudo sozinho faz dele mais “artista” do que um outro que trabalhe de forma bem mais colaborativa? Essas são questões pertinentes, e como a minha opinião hoje é basicamente a mesma de nove meses atrás (quando pude participar da discussão no já mencionado blog), vou reiterá-la aqui: a meu ver, o que devemos considerar principalmente é a visão artística por trás de uma obra, ou seja, até que ponto ela vem da perspectiva do artista que recebe os créditos (independente do quanto ele pôs “a mão na massa” em termos de execução).

É claro que, quanto mais um artista participa do processo criativo, maiores são as chances de que o produto final esteja de acordo com o que ele deseja expressar – o que, aliás, só vai ficando claro mesmo durante o processo de criação. É por isso que, para quem acompanha a indústria da música com mais atenção, é praticamente impossível dissociar muitos dos maiores sucessos das últimas décadas dos seus respectivos produtores (e por vezes também compositores), mesmo que eles não sejam tão celebrados quanto os músicos principais. Exemplos disso são Berry Gordy e o som da Motown; Max Martin e o pop dos anos 90; e Phil Spector com seu “wall of sound” nos anos 60.

Esse é, também, provavelmente o maior motivo de desconfiança em relação ao que se denomina como “música pop”, pois muitos artistas deste gênero se diferenciam pouco uns dos outros não só em termos musicais, mas também em termos de propósito e valores. Se formos parar para analisar, um cantor como Frank Sinatra é até hoje reverenciado como um dos grandes do século XX, sendo que, até onde sei, ele tampouco compunha, produzia, tocava instrumentos ou fazia os arranjos das músicas que interpretava. No entanto, uma coisa que ele tinha bem clara era o conceito por trás de cada um de seus discos, como as canções deviam dialogar umas com as outras, e como deveria ser todo o processo de gravação. Em outras palavras, ele tinha a visão artística sobre todo o processo.

Por fim, é importante lembrar que é bastante comum que esse tipo de avaliação mude com o tempo, normalmente porque o próprio músico costumar ganhar cada vez mais autonomia em suas decisões (como se pôde ver claramente na trajetória dos Beatles). Além disso, casos como o da dupla Milli Vanilli (que caíram em desgraça com a revelação de que não cantavam as próprias músicas) seriam, como um dos seus ex-integrantes observou, bem menos chocantes nesses dias em que o auto-tune impera nos estúdios de gravação. Resta saber se essas mudanças tecnológicas serão o suficiente para nos fazer reconsiderar o que é “artistry”.