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Henrí Galvão

5 de setembro de 2018

No livro O Eu e o Inconsciente Jung fala de uma técnica pra que uma pessoa possa conversar com o “outro lado”.

É um tipo de conversa consigo mesmo em que se pode reconhecer tudo o que o inconsciente queira expressar naquele momento.

Como é o tipo de experiência que pode ser bastante assustadora, Jung não a recomenda a não ser em casos de real necessidade.

Mas ele também não deixa de reconhecer que há aqueles que podem se interessar por isso por uma “santa curiosidade”.

A essa “santa curiosidade” ele dá o nome de “nostalgia do sol”:

Letra:

O calor é insano
Mas é o preço a se pagar
Pra assistir de perto
Ao último baile solar
Se a luneta é pra ver
A lupa é pra queimar
E o rastro que ela deixa
É bem fácil de notar
De um jeito ou de outro
Eu continuo aqui
Não vou arredar pé
Enquanto me faltar aprender
A me espelhar sem ninguém

Sei que tem um sentido
Pro caminho que o sol
Insiste em deixar
Cada vez mais pior
Já posso até sentir
O ponto de condensação
Mesmo que disfarçado
De chuva de verão
E ainda conto com
A boa vontade do céu
Pra me desgarrar de vez
Só mesmo assim pra silenciar
Qualquer objeção
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O freudiano e o junguiano

No último post dessa série sobre David Byrne e o livro Como Funciona a Música, abordei a sua perspectiva em relação ao “culto à espontaneidade” na arte – a ideia de que a arte, a fim de ser autêntica, deveria ser/parecer tão natural quanto possível.

Como sugeri no final daquele texto, acredito que essa ideia tem grande relação com o atual paradigma (a meu ver, um tanto equivocado) sobre o que é arte (e, consequentemente, o que se imagina que ela deva expressar).

Pra começar a abordar esse assunto com alguma propriedade, trago mais uma citação do próprio Byrne:

Fazer música é como criar uma máquina que serve para desenterrar as emoções tanto dos intérpretes quanto dos ouvintes. Algumas pessoas acham essa ideia repulsiva, pois parece relegar o artista à posição de um sujeito embusteiro, manipulador e falso – uma espécie de onanista autojustificativo. Elas preferem encarar a música como algo que expressa emoções, em vez de gerá-las, e acreditar que o artista sempre tem algo a dizer. […]

Por hoje não quero explorar tanto essa dicotomia entre “gerar” e “expressar” emoções. O que quero mesmo é observar o quão acertada me parece a ênfase de Byrne no fato de que essas emoções são compartilhadas por todos nós.

Afinal, é isso que serve de apoio ao seu argumento de que a arte não precisa ser “naturalista” para ser autêntica, já que o que se expressa em determinada obra ou performance nunca está restrito às emoções de um único indivíduo:

[…] Estou começando a pensar no artista como uma pessoa que se dedica a criar dispositivos capazes de acessar nossa estrutura psicológica comum e ativar pontos profundamente emocionais que temos em comum. Nesse sentido, a ideia convencional de autoria é discutível. Não rejeito o crédito pelas músicas que compus, mas talvez o que constitui a autoria não seja exatamente o que imaginamos. […]

Outra coisa a se destacar no trecho acima é que fica difícil negar a influência do conceito de inconsciente coletivo de Jung (embora Byrne não o cite em momento algum do livro), que busca destacar justamente esse substrato comum a toda a humanidade.

O que, por sua vez, acaba tirando um pouco a ênfase na experiência do próprio indivíduo como algo sempre determinante pra tudo que ele venha a expressar (nem toda emoção precisa vir de um complexo de Édipo ou Electra).

Não se trata, é claro, de negar o indivíduo ou o valor das suas experiências formativas. Muito pelo contrário. Se a arte tem algo de terapêutico – e ela certamente tem – é justamente por ajudar o ser humano a reconhecer o valor de sua própria experiência.

Mas, feito isso, é importante dar um passo além, e reconhecer o quanto das emoções desse indivíduo em particular – assim como suas interpretações a respeito – se relacionam com algo maior.

O que nos leva à questão da autoria na arte. Acredito que qualquer um que tenha se envolvido num processo criativo a ponto de alcançar um estado de verdadeira imersão (ou “fluxo”, como diz o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi) é capaz de entender o que Byrne questiona.

Afinal, esse estado de imersão acaba por suspender, ainda que por apenas alguns momentos, o senso de eu de um indivíduo. E isso, de alguma forma, o deixa pelo menos um pouco mais reticente quanto a reivindicar a autoria pelo que fez.

A razão pra isso já é mais do que batida, mas nem por isso menos verdadeira: um indivíduo que tem uma experiência de imersão se reconhece como um meio através do qual determinadas ideias, conceitos etc. são expressos.

Por outro lado, por mais que esse substrato comum (quer você o chame de inconsciente coletivo ou não) esteja disponível a qualquer um, é claro que não são todos que vão percorrer esse caminho. Afinal, é por isso que existe a arte. E é pra isso que existe o artista.

Sincronicidades entre compositores

Acho que muita gente pelo menos já ouviu falar de sincronicidades, um conceito
elaborado pelo psicólogo suíço Carl G. Jung no início do século passado. Segundo a Wikipédia, o termo é usado quando diferentes eventos que não têm uma relação de causalidade entre si se conectam através de um relação de significado.

Ainda que a ideia talvez pareça uma pouco esotérica demais pra alguns (uma acusação com a qual Jung estava bem acostumado), acho que vale a pena observar como esse tipo de coisa acontece entre compositores, e se isso pode ser entendido, de fato, como algo mais que mera coincidência.

Um caso muito interessante é o das músicas “Eu Me Amo”, do Ultraje a Rigor, e “Egotrip”, da Blitz. A primeira foi lançada num compacto em outubro de 1984 (o lado B era “Rebelde sem causa”), enquanto que a segunda foi lançada no terceiro álbum do grupo carioca, dois meses depois. Segundo o jornalista Arthur Dapieve no seu ótimo livro BRock:

A letra de Roger dizia “eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim”. A de Evandro Mesquita e Patrícia Travassos, “eu me amo, eu me adoro, eu não consigo viver sem mim”. Como “Blitz 3” só foi lançado em dezembro os cariocas tiveram de mudar sua letra para “eu te amo, eu me adoro, eu não consigo te ver sem mim”. Pura coincidência. (grifo meu)

Será mesmo? Logo em seguida, Dapieve cita Roger (líder do Ultraje), que diz o seguinte: “Isso acontece. O artista é uma antena. Eu mesmo tenho uma música que nunca lancei, com refrão ‘Eu uso óculos’…” Pra quem não se lembra (ou não sabe), “Eu uso óculos” é um verso de um dos maiores sucessos dos Paralamas, lançado no mesmo ano de 1984 (no álbum O Passo do Lui).

O segundo exemplo é mais recente (vem de junho do ano passado), e talvez até mais interessante. São dois hits do sertanejo com letras muito parecidas: “Aquele 1%”, com Marcos & Belutti (composta por Vinícius Poeta e Benício Neto) e “99%”, com Fiduma & Jeca (composição de Zé Renato Mioto, Diego Kraemer e Tiago Marcelo).

O refrão da primeira tem os seguintes versos: “99% anjo, perfeito/Mas aquele 1% é vagabundo”, enquanto que o da segunda diz: “99% ela é santa, mas aquele 1%/Eu nem te conto o que ela apronta”.

Nesse caso, a explicação é bem mais fácil. Como a ótima matéria do G1 explica, já é prática mais do que recorrente no sertanejo a utilização de memes como fonte de inspiração. Logo, nada mais lógico que artistas do gênero acabem resvalando nas mesmas frases na hora de compor. No caso, a original em inglês é “99% an angel, but oh, that 1%”, e que em português virou mania no Twitter há uns dois anos.

Isso por si só já mereceria uma análise mais detalhada sobre o papel que as redes sociais exercem na indústria de entretenimento – e vice-versa. Como o colega Yuri Pomeranz (do blog Orelha Atômica) mencionou num texto do início do ano, muitos sucessos do funk recente, como “Ta Tranquilo Ta Favorável”, de MC Bin Laden, e “Beijinho no Ombro”, de Valesca Popozuda, parecem já contar com o efeito viral das redes, sendo feitos sob medida pra isso.

No fim das contas, quer estejamos falando de sincronicidades ou não, esse consumo de hits em massa nos mais diferentes contextos me parece um ótimo indício do espírito cada vez mais fragmentado dos nossos tempos. Ao mesmo tempo, não deixa de ser paradoxal (e, a meu ver, um tanto assustador) como essa fragmentação acaba alimentando uma homogeneização cada vez maior.