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O ideal da criação autotélica

No final de 2015 escrevi sobre uma então recente entrevista de John Frusciante (ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers) em que ele dizia que não tinha público.

Essa declaração causou tanto estranhamento (afinal, o que não falta é gente interessada na sua carreira solo) que logo em seguida ele mesmo achou por bem esclarecer o que quis dizer.

Basicamente, a sua lógica era a seguinte: como o seu processo criativo teria chegado ao ponto de se tornar totalmente dissociado das expectativas de quem quer que fosse, ele já não sabia mais dizer quem era o seu público.

Como comentei na ocasião, não dá pra ignorar que esse processo criativo totalmente autotélico (ou seja, a criação como um fim em si mesmo) é bem mais fácil de cultivar quando já se é um artista famoso, com um – supõe-se – ótimo nível de abundância financeira.

Mas a questão que quero trazer agora é outra: será que é realmente possível chegar a uma completa separação entre o processo de criação e o compartilhamento do trabalho artístico? E, caso isso seja possível, será que seria algo recomendável?

É claro que depende muito de como você enxerga a questão. Mas, a não ser que alguém faça arte por hobby, terapia etc., inevitavelmente surge a necessidade de ser versado em relação aos diferentes aspectos da sua indústria.

Consequentemente, é praticamente inevitável que tal artista passe a adotar uma mentalidade mais empreendedora (não à toa, é muito comum hoje em dia o uso de termos como empreendedor criativo, musicpreneur etc.).

E, como se sabe, um empreendedor precisa pelo menos ter alguma ideia de com quem está falando. Afinal, conhecer o seu público é provavelmente aquilo que mais lhe ajuda a poupar recursos (leia-se: tempo, energia e dinheiro).

Por outro lado, ao mesmo tempo acredito que seja sim muito importante manter-se num estado de relativa ignorância durante o processo criativo, como forma de se estar em contato com uma visão de mundo própria.

Afinal, se tem uma diferença entre os artistas que amamos e os que ignoramos é que, na maioria das vezes, os últimos estão frequentemente muito preocupados em agradar demais, em seguir tendências e se manter em evidência a qualquer preço.

Já os que verdadeiramente amamos (e não apenas achamos “interessantes”), por mais que se importem com a opinião alheia, sabem que desagradar algumas (ou muitas) pessoas é o preço a pagar em troca de realmente tocar aquelas que estão receptivas à sua mensagem.

Então, como conciliar uma coisa (as expectativas alheias) com a outra (manter-se fiel ao seu coração)? A meu ver, no caso de um compositor o caminho é claro: fazer música que você realmente tenha vontade de ouvir, e que realmente toque o seu coração.

Fazendo isso, você pode até pensar que não está sendo influenciado pelas opiniões dos outros. Mas, se você tiver um mínimo de ambição, e se compartilhar o seu trabalho com certa regularidade, pouco a pouco essas coisas vão influenciando também o processo criativo.

Não que eu ache que John estivesse mentindo (ou mesmo se iludindo) quando disse que fazia música alheio às expectativas dos outros. Mas, no seu caso específico, duas coisas ficaram bem claras.

Primeiro: ele se referia a um momento em que fazia música principalmente como forma de aprendizado; segundo (e mais importante): ele não tinha nenhuma intenção de mostrar aquelas músicas pra outras pessoas (embora depois tenha mudado de ideia, compartilhando-as gratuitamente no SoundCloud e no Bandcamp).

De resto, acredito que pra maioria das pessoas envolvidas com a criação artística, por mais que perseguir um ideal autotélico seja fundamental – e é mesmo –, não custa lembrar que, assim como outros valores tão importantes quanto, ele provavelmente vai continuar sendo sempre isso: um ideal.

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Sobre olhar pra trás

Muitos artistas – acho até que a maioria – têm a tendência de não dar muita atenção aos seus trabalhos já publicados. Um dos muitos exemplos disso é o do ator Johnny Depp, que mais de uma vez disse que nunca assiste a seus próprios filmes.

Entre músicos, essa tendência é ainda mais comum, já que não são poucos os que costumam dizer que nunca ouvem seus próprios álbuns (Bob Dylan uma vez disse que não faz isso porque “não quer se lembrar”).

Esse tipo de atitude é mais que compreensível se a gente for levar em conta que gravar um álbum é algo que geralmente consome tanto tempo e esforço que, quando o trabalho está feito, a sensação é muito mais de alívio do que propriamente de satisfação.

Outra questão, que a meu ver requer até mais atenção, é a seguinte: o ato de olhar pra trás também estaria associado, pra muitos, a um apego ao passado vindo de quem – e é esse o grande medo – teoricamente não teria mais nada a dizer.

Mas o grande paradoxo de tudo isso é que olhar pra trás, quando é algo feito pelas razões certas – ou seja, quando é feito por quem busca aprender com o que já fez – é justamente aquilo que permite que um músico não se repita.

Quando um artista faz basicamente a mesma coisa há décadas, são grandes as chances de que ele não esteja olhando pra trás de forma tão sistemática e deliberada quanto poderia (isso, é claro, partindo do pressuposto de que ele realmente esteja interessado em não se repetir).

Pra artistas que mudam radicalmente de estilo com o passar dos anos, a tendência é que se repetir seja bem mais difícil. Um exemplo disso é John Frusciante, que nos últimos tempos vem se dedicando de corpo e alma à música eletrônica (embora seja um dos melhores guitarristas do mundo).

Mas, pra maioria, com o passar do tempo se faz muito importante analisar o próprio trabalho com um viés mais distanciado. É isso que permite encontrar temas recorrentes, técnicas que foram esquecidas (e outras que foram usadas à exaustão) e ideias que poderiam ter sido mais bem exploradas.

Ou seja, pra maioria talvez seja interessante ouvir o alerta que Johnny Depp recebeu de um certo Marlon Brando, ainda nos anos 90.

Conta o próprio Depp que uma vez Marlon lhe perguntou quantos filmes ele fazia por ano. Quando Depp respondeu que havia feito três no ano anterior, Marlon disse o seguinte: “Não faça tantos”, pra em seguida explicar o porquê: “nós só temos alguns coelhos na cartola”.[1]

Se mesmo um ator como Marlon Brando não tinha uma quantidade assim tão grande de coelhos na cartola, imagine os outros. Logo, que isso sirva ao menos pra que a gente possa aprender a reconhecer os nossos próprios “personagens”, e ver a que novos caminhos eles podem nos levar.

Brando e Depp em Don Juan DeMarco

[1] tradução livre pra expressão “we only have so many faces in our pockets”

História e subjetividade na experiência musical

Quando, há algumas semanas, abordei os motivos que podem levar alguém a considerar uma música boa ou não, falei um pouco sobre o meu próprio viés, que tende a ser mais emotivo. Na ocasião, encerrei o texto mencionando a voz falha de Neil Young em “Mellow My Mind” como algo que não só não me incomoda, como torna a faixa ainda mais interessante.

Deixei de lado, porém, um outro fator de igual importância pra essa minha percepção: a história por trás da música. Aliás, não só da música, mas de todo o disco Tonight’s the Night (gravado em 1973, mas lançado apenas em 1975), do qual ela faz parte. Como os fãs de Neil Young devem saber, meses antes das gravações duas pessoas próximas a ele (o guitarrista Danny Whitten e o roadie Bruce Berry) haviam morrido de overdose.

Ouvir a música uma vez sem saber disso e depois ouvi-la com essa informação são duas experiências muito distintas, não? Talvez até alguém que esteja lendo esse texto agora tenha realmente vontade de ouvi-la pela primeira vez só por causa disso. Não há dúvida que a história por trás da obra traz uma dimensão nova pra quem está do outro lado.

Um outro exemplo disso é o álbum Double Fantasy (de 1980), de John Lennon e Yoko Ono. Depois de cinco anos sem lançar um disco de estúdio (uma eternidade, ainda mais naquela época), Lennon decidiu retomar a carreira, e tinha até planejado uma turnê para o ano seguinte. De início, porém, o disco não foi um grande sucesso nem de público nem de crítica.

Isso tudo mudou três semanas depois do seu lançamento, quando Lennon foi assassinado na entrada do prédio em que morava em Nova York. O resultado previsível foi que o disco foi para o topo das paradas americanas e britânicas, e qualquer avalição negativa dos críticos (inclusive por parte da revista Rolling Stone) foi simplesmente removida de circulação.

Esse tipo de coisa às vezes causa até certa indignação, porque traz a pergunta: quantos grandes discos não foram ignorados pela crítica e boa parte do público sem receberem uma segunda chance? Não estou falando de discos de artistas ainda buscando um espaço, pois é normal que haja primeiro a busca pelo (re)conhecimento. Falo, isso sim, de grandes discos de artistas já consagrados, mas que por algum motivo não têm o seu valor devidamente reconhecido. É o caso, por exemplo, de boa parte da discografia solo de John Frusciante.

É um grande clichê dizer que o tempo faz alguma justiça a um trabalho artístico, e sinceramente tenho minhas dúvidas quanto a isso. Acredito, isso sim, que o artista deve saber defender o seu trabalho, e entender que, caindo no gosto das pessoas ou não, isso muitas vezes tem pouco a ver com os méritos da sua obra, e muito a ver com a sua capacidade de se mostrar relevante para a sua época.

John Frusciante e o seu público

Há um mês, John Frusciante, ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, lançou de forma gratuita na internet algumas de suas músicas gravadas entre 2009 e 2011. Aproveitando a oportunidade, o músico publicou também um comunicado no seu site oficial, no qual explicava um pouco o processo de criação das faixas, e esclarecia a polêmica gerada após sua entrevista, em maio deste ano, para a revista Electronic Beats. Naquela ocasião, foi enorme o fuzuê por trás de algumas afirmações suas, como a frase: “neste momento, eu não tenho público”.

Algumas pessoas interpretaram essa e outras afirmações como um sinal de que ele jamais compartilharia novamente suas músicas. Mas agora que finalmente foi possível ler um manifesto oficial da sua parte, é mais razoável interpretar aquela entrevista como uma declaração de princípios. Em primeiro lugar, quero contextualizar um pouco as suas palavras lembrando da importância para John de ter crescido e se desenvolvido como músico sob fortíssima influência da cena punk da Califórnia.

E o que isso tem a ver com as suas declarações? Mais do que a sonoridade em si, não é exagero nenhum dizer que a estética punk moldou a sua forma de entender o que é (ou deveria ser) um artista, e é a isso que ele se refere quando escreve agora: “A arte é uma questão de dar. (…) Vendido é um termo antiquado que, quando eu era garoto, se referia aos artistas que adoravam fazer dinheiro mais do que fazer música. A palavra indica uma falta de integridade artística”.

Antes que alguém o acuse de hipocrisia por dizer tal coisa e, ao mesmo tempo, ter vários produtos à venda em seu site oficial (CDs, camisas etc.), que fique claro que esse trecho do texto, a despeito do que possa parecer, não é um libelo anti-comercial. Ao invés disso, prefiro entendê-lo como um exemplo de algo que mencionei neste blog há pouco mais de um mês, que é a separação entre dois estágios: o da criação e o da distribuição da música.

Voltando à sua afirmação de que não tinha uma audiência, ele esclarece: “Reduzindo a uma única frase, teria sido correto dizer que, neste momento, não tenho um público específico em mente enquanto estou fazendo música” (grifo meu). Daí podemos concluir que fazer música comercial e fazer música para ser vendida não são para ele a mesma coisa, e isso fica claro na seguinte afirmação: “Vender é a parte de fazer dinheiro, e a expressão artística, a criação, é a parte de dar. São distintas uma da outra, e é minha convicção que música deve ser sempre feita porque se ama a música, não importando se há planos de vendê-la ou não”.

Apesar disso, não tiro a razão dos que observaram que é muito conveniente para ele dizer essas coisas, depois de passar anos ganhando bastante dinheiro tocando com os Chili Peppers (coisa que ele também menciona no texto). Tão ou mais importante é o fato de que, pela visibilidade que alcançou com a banda californiana, todos nós tivemos o privilégio de conhecer melhor a pessoa que ele é, seus valores, prioridades e visão de mundo. É o tipo de coisa que nem sempre acontece com um músico com o seu tipo de mentalidade.

Finalmente, para os que ainda assim se sentem ofendidos com as suas declarações, não acredito que a sua trajetória deva ser emulada por ninguém. Jamais haverá outro músico como John, e isso não só por causa do seu trabalho, mas também das suas vivências, que são indissociáveis de um momento da cultura pop que simplesmente não existe mais. Cabe a cada um dos músicos de hoje buscar, se assim desejar, maneiras de se manter íntegro e relevante com as novas ferramentas à nossa disposição.