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O direito ao silêncio

O texto de hoje é o último dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, de David Byrne, e acho que não poderia encerrá-la de forma diferente. Poucas coisas me parecem tão importantes, e ao mesmo tempo tão facilmente negligenciadas quanto o silêncio.

E não tenho a menor dúvida de que Byrne compartilharia dessa observação, como fica claro no seguinte trecho do seu livro:

Em 1969, a UNESCO aprovou uma resolução delineando um direito humano pouco discutido – o direito ao silêncio. Acho que eles estão se referindo ao que acontece se uma fábrica barulhenta ou uma galeria de tiro são construídas ao lado da sua casa, ou uma balada embaixo do seu prédio. Isso não quer dizer que você pode exigir que um restaurante desligue o som caso você não goste do que estiver tocando, ou pôr uma mordaça no cara ao lado de você no metrô que fica gritando no celular. No entanto, essa é uma ideia interessante – apesar da nossa aversão inata ao silêncio absoluto, devemos ter o direito de tirar uma folga auditiva de tempos em tempos, para vivenciar, ainda que por um curto período, um ou dois momentos de “ar fresco”. Acho uma boa ideia classificar como um direito humano a necessidade de ter um momento de meditação, um espaço para arejar a cabeça.

Embora o parágrafo acima fale especificamente da importância de se tirar uma folga em relação a estímulos sonoros (que, de fato, tendem a ser os mais pervasivos), a última frase deixa óbvio que esse alerta vale pra qualquer tipo de input.

E acho que qualquer pessoa que tenha experiência com algum tipo de prática contemplativa já está pelo menos predisposta a não menosprezar por completo a recomendação de Byrne de se ter “um momento de meditação, um espaço para arejar a cabeça”.

Mas também não dá pra ignorar que, ainda assim, algumas pessoas sentem essa necessidade mais do que outras. Não necessariamente por serem mais “conscientes”, mas por questão de temperamento mesmo. (E também de ambiente, níveis de instrução e esclarecimento etc.)

Não é à toa que o psicólogo Jerome Kagan defende que uma das principais diferenças entre a tendência a inibição e à desinibição está no quão sensível é a amígdala de um indivíduo em relação a estímulos externos – o que pode ser observado inclusive em bebês.

Sendo a amígdala uma parte fundamental do chamado sistema límbico – a parte do cérebro humano mais associada às nossas emoções básicas –, pessoas mais introvertidas precisariam se esforçar mais simplesmente pra se sentirem “relaxadas”.

O porém é que existem maneiras e maneiras de se fazer isso. Infelizmente, na nossa sociedade é cada vez mais comum que se busque acalmar a amígdala colocando-se passivamente em frente à TV ou navegando na internet, à mercê de um fluxo constante de informações.

A ironia nessa estratégia é que ela só nos deixa ainda mais reféns dos nossos instintos mais primitivos, em parte porque somos levados a acreditar que “o mundo lá fora” é extremamente perigoso – aumentando, obviamente, a sensação de apreensão generalizada.

E o pior é que essa é uma sensação tão “normal” pra tanta gente que é raro que elas sequer considerem a possibilidade de reservar alguns momentos pra estar realmente sozinhas consigo mesmas e colocar à prova o que outros querem que elas acreditem.

É por isso que esses momentos de mínimo contato com qualquer tipo de informação externa – mesmo as aparentemente mais relevantes – são tão valiosos.

Por sinal, espero não dar a impressão de estar me eximindo da minha responsabilidade aqui. Sei muito bem que, enquanto músico que não só publica suas faixas na internet, mas se apresenta inclusive em lugares públicos, contribuo e muito pra essa cacofonia cada vez maior.

É possível até que a minha própria missão seja algo ridiculamente contraditório, visto que, ao mesmo tempo em que a minha intenção é expandir a autoconsciência coletiva e ressaltar a importância do silêncio, busco fazer isso através da música e das palavras.

Mas se faço isso é porque essas são as armas que a vida me deu pra lidar com a minha própria jornada de autoconsciência. E se busco compartilhar essa jornada com outras pessoas é porque essa é a forma que encontro de defender uma verdadeira revolução silenciosa.

Assim como a paz às vezes precisa da guerra, o silêncio às vezes precisa de ruído.

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