Arquivo da tag: Inayat Khan

Subjetividade, intersubjetividade e apreciação estética

Ainda no fim de 2015, escrevi dois textos (“Quando a música é boa…” e “História e subjetividade na experiência musical”) em que defendia que ouvir (e apreciar) música é, acima de tudo, uma experiência subjetiva.

Na época, essa foi a forma que encontrei pra me posicionar contra uma ideia que ainda parece ser bem comum: a de que seria possível julgar uma música – e a arte em geral – de forma “objetiva”, sem levar em conta a época, o lugar, o contexto social etc.[1]

Se você está lendo esse texto, estou partindo do pressuposto de que você percebe que não é assim que as coisas funcionam.

Por outro lado, admito que só há alguns meses, depois que li (o fantástico) Sapiens, de Yuval Harari, percebi que nesse tempo todo em que eu falava (e pensava) em “subjetividade” eu deveria ter falado em “intersubjetividade”.

Antes de entrarmos na definição desse último termo, vamos voltar ao livro em questão pra deixar bem claro o que Harari entende por “objetivo” e “subjetivo”.

Segundo ele, um fenômeno objetivo é aquele que “existe independentemente da consciência humana e das crenças humanas.” Subjetivo, por sua vez, “é algo que existe dependendo da consciência e das crenças de um único indivíduo.”

Só por aí já começamos a entender por que a subjetividade, no sentido estrito da palavra, não pode dar conta da experiência estética de um modo geral.

Isso porque ouvir música (ou assistir um filme, ver um quadro etc.) nunca depende apenas do que se passa na mente de uma única pessoa.

Logo, quando eu defendia a apreciação estética como um fenômeno “subjetivo”, eu cometia um erro tão comum como o de quem fala que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

E é aí que entra a importância de entender também o significado do termo “intersubjetividade”. Mais uma vez passo a bola pra Harari:

Intersubjetivo é algo que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos. Se um único indivíduo mudar suas crenças, ou mesmo morrer, será de pouca importância. No entanto, se a maioria dos indivíduos na rede morrer ou mudar suas crenças, o fenômeno intersubjetivo se transformará ou desaparecerá.

Talvez uma outra forma de explicar essa palavra seria dizendo que intersubjetividade é como se fosse uma espécie de “subjetividade compartilhada”.

Pra demonstrar o poder disso no que se refere à música, coloco abaixo uma citação de um dos autores que mais admiro, o filósofo sufi Inayat Khan:

Os prazeres de hoje não são como os dos mais inteligentes e sábios em tempos antigos. Aqueles costumavam apreciar poesia e música mais elevadas; hoje o jazz se tornou mais popular.

Não é estranho ler alguém falando do jazz dessa maneira, em contraste a outros tipos de música, que seriam “mais elevados”?

Talvez seja estranho pra nós, ocidentais civilizados do início do século XXI. Mas se você levar em conta que Inayat Khan viveu no início do século XX (a citação em questão foi transcrita de uma de suas várias palestras entre 1914 e 1926), as coisas já começam a fazer mais sentido.

Além do mais, há que se observar que, antes de ser um professor espiritual, Inayat Khan tocava música clássica indiana. Ou seja, música era algo sério pra ele (talvez até demais).

De qualquer forma, nem preciso dizer que a maioria das pessoas vê o jazz de uma forma muito diferente hoje em dia. Em outras palavras, o jazz, enquanto fenômeno intersubjetivo, ocupa agora um lugar diametralmente oposto ao que ocupava há 100 anos.

O que leva quase que inevitavelmente a pensar se mais pra frente algo parecido pode acontecer com o funk ou com o reggaeton, só pra ficar em dois exemplos de estilos que são execrados atualmente. Mas isso, obviamente, só o tempo dirá.

 

[1] Só pra não passar batido, há até quem fale em “arte objetiva”, como defendida pelo místico Gurdjieff na primeira metade do século XX. Mas essa já é, definitivamente, uma outra história…

Anúncios

Música e expressão corporal

No texto passado tomei como base a dissertação de mestrado em Comunicação de Bruno Vasconcelos Lima (UFPE), sobre os jogos de vídeo game Guitar Hero e Rock Band, pra comentar sobre como a música vem sendo cada vez mais valorizada enquanto experiência interativa.

Acredito também que isso ajuda a explicar o crescente interesse, ao longo das décadas, pelos componentes visuais em torno dos músicos e das músicas. Isso é sem dúvida bem mais evidente no pop, onde os artistas investem consideravelmente não só na produção dos shows, mas também em vídeo clipes, encartes de CDs, sites etc.

Tudo isso, no geral, está mais do que bom. Mas tantos estímulos visuais também têm um lado perigoso, já que o ouvinte frequentemente deixa de ter uma atitude mais proativa com a música. Proativa no sentido de saber a hora de se desprender um pouco desses adereços externos e “preencher os espaços” por conta própria.

Isso é, na verdade, algo até bem simples de se conseguir quando lembramos que a música sempre foi interativa por natureza. Só que menos pelo aspecto visual, e mais pelo aspecto corporal. Não é por acaso que, segundo o filósofo sufi Inayat Khan, a palavra “música” em sânscrito engloba três aspectos distintos e complementares: o canto, o toque e a dança.

E também não é por acaso que, mesmo hoje, os exemplos mais poderosos de interatividade na música ainda sejam as apresentações ao vivo. Penso principalmente em alguns dos melhores frontmen do rock (como Bono e Iggy Pop), cujo principal trunfo é justamente a capacidade de diminuir a distância – tanto emocional quanto física – entre eles e o público.

Isso me leva à conclusão que, de uma forma ou de outra, o mais importante pra experiência de imersão na música é poder senti-la e expressá-la com o corpo. Isso pode acontecer com um joystick na mão, ou pela simples abertura de se deixar levar pela narrativa que, de uma maneira ou outra, está sempre implícita naquela determinada sequência de sons.

dervixes

Fingindo raiva

Talvez a raiva seja o mais controverso de todos os sentimentos, já que mesmo entre estudiosos das emoções não parece haver um consenso sobre a melhor forma de lidar com ela. Seria melhor suprimir, dar vazão de forma segura e controlada, ou nenhuma das alternativas anteriores? Bom, o que pretendo explorar aqui é uma perspectiva com a qual tive contato em dois contextos diferentes.

A primeira vez foi num texto do filósofo sufi indiano Inayat Khan, que dizia o seguinte:

Uma vez tendo destruído o Nafs, você nunca achará necessário ficar irritado novamente, embora você possa agir como alguém que está irritado e fingir estar irritado. Então, se é necessário demonstrar raiva isso não significa o fogo do inferno para você como seria para outros, pois você está apenas usando um instrumento, e aquele instrumento não é o seu mestre.

Me parece que não há um único significado para a palavra Nafs, mas ela pode ser entendida como os impulsos ditos mais primitivos do ser humano, assumindo uma conotação negativa no sufismo (não muito diferente de como se costuma falar do ego na nossa sociedade).

Mas isso não é o mais importante no momento. A questão de que Inayat Khan trata é que, tendo-se superado a tendência a se sentir raiva por determinada situação, ainda assim pode ser vantajoso – e talvez até necessário – demonstrar a raiva como a melhor forma de lidar com alguém.

A segunda vez que tive contato com essa abordagem foi durante o último carnaval, quando tive a oportunidade de fazer o curso de meditação Vipassana em Miguel Pereira. Já nos últimos dias de curso foi contada uma história sobre um instrutor de meditação que, a fim de disciplinar um aluno negligente na técnica, gritou com ele e o repreendeu de maneira bastante dura. Voltando para junto dos outros servidores, ele mesmo dizia: “gritei com ele”, com um sorriso e uma atitude descritos como sendo “puro amor”.

Vale a pena repetir: essa abordagem subentende que a pessoa que a aplica não esteja movida de fato pela raiva, e sim por uma leitura mais objetiva da situação, levando a um uso estratégico dessa emoção.

Confesso que essa filosofia me deixa um tanto confuso, muito provavelmente porque eu mesmo ainda tenho muito que aprender com a minha própria raiva. Talvez a explicação mais coerente que eu possa encontrar pra isso é que tão (ou até mais) importante do que o que se faz ou se deixa de fazer é a energia que se coloca por trás de cada palavra e cada ação.

Mas existe outro ponto a se considerar: diferentemente de outras emoções, a raiva não é assim tão fácil de fingir. Mesmo que uma pessoa consiga não se deixar afetar por ela, isso não necessariamente significa que ela conseguirá expressá-la de maneira incisiva e convincente. E, caso isso ocorra, o resultado (como indicam alguns estudos) tende a ser desastroso para quem se arrisca a usar essa tática.