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Sobre influências e referências

Cedo ou tarde, todo músico – ou, melhor dizendo, todo artista – acaba se deparando com aquela famosa pergunta: quais são as suas influências?

Essa é uma pergunta traiçoeira por alguns motivos. O primeiro é que um músico tem suas influências diretas, como também pode ter – e certamente tem – influências indiretas vindas dos artistas que ele admira. Assim, estes artistas servem de “influência” pra sua “influência”.

Por exemplo, uma banda que goste de Arctic Monkeys e de certa forme tente emular o seu som pode não se dar conta da influência de Black Sabbath no trabalho do grupo. E o Sabbath, por sua vez, foi bastante influenciado, à sua própria maneira, pelos Beatles (ainda que isso não se perceba tão facilmente).

Além do mais, a influência pode ser tanto consciente quanto inconsciente. Muitas vezes um músico sabe que está pegando determinados aspectos de composição, performance ou produção de um outro artista. Outras vezes, não.

É por isso que não acho que tenha sido desonestidade de George Harrison, por exemplo, quando ele pegou um trecho significativo de “He’s So Fine” (de 1963), do grupo the Chiffons, pra compor o seu clássico “My Sweet Lord” (de 1970).

É até bem provável que ele conhecesse aquela canção anterior, mas é também possível que ele realmente não se lembrasse conscientemente daquela melodia (tanto é que aparentemente nem mesmo Phil Spector, que produziu “My Sweet Lord”, se deu conta das semelhanças).

É por essas e outras que acredito que, tão importante quanto saber mais a respeito das influências sonoras (que acabam sendo bastante difusas) de um músico ou grupo, é saber quais ideias moldaram a sua filosofia artística. Assim, saímos do terreno da mera influência e passamos a falar de referências.

Usando um exemplo próprio, posso dizer que ouço diferentes comentários sobre as minhas músicas. E, embora todas as observações sejam mais do que válidas (quer eu concorde ou não), não são tão importantes pra mim quanto um entendimento do meu propósito enquanto músico.

É por isso que gosto tanto de falar que o que faço é música intrapessoal: essa é uma maneira de tentar fazer as pessoas irem além dos aspectos sonoros – que são muito relevantes, é óbvio – pra ter uma conexão mais direta comigo, a partir dos meus valores.

Daí é possível perceber a beleza do que fez o cantor australiano Nick Cave quando citou, entre suas influências, não só músicos como Bob Dylan e the Stooges, mas também personalidades tão distintas quanto Ned Kelly, Muhammad Ali e Jesus Cristo!

Quanto a mim, eu me sentiria mais que honrado se puder transmitir com o meu trabalho algo não só de outros músicos, mas também de Van Gogh, Inayat Khan, Pep Guardiola e tantos outros. No fim, tudo ajuda a formar uma filosofia que se estende não só à arte, mas também à vida.

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Masoquismo benigno

Quando comecei a entrar mais a fundo em assuntos de desenvolvimento pessoal e, principalmente, espiritualidade, me deparei mais de uma vez com estudiosos de níveis de consciência falando sobre como não existe nada que possa ser considerado de fato “neutro”. Em outras palavras, todo e qualquer estímulo ao qual um ser humano se submete vai ou lhe tornar mais consciente, ou lhe deixar ainda mais limitado nas suas respostas a diferentes situações.

Ainda que naquele momento eu estivesse num período em que tinha parado de compor, nunca deixei de ser um ouvinte assíduo de música. Logo, não demorou muito pra que eu começasse a me preocupar mais e mais com o conteúdo do que ouvia, o que me levou a evitar deliberadamente qualquer música em que predominassem sentimentos tidos como mesquinhos, ou simplesmente “inferiores”. Mais especificamente, essa foi uma fase em que tentei me afastar de manifestações extremas de violência e tristeza na arte em geral.

Assim, eu procurava só ouvir músicas que trouxessem mensagens positivas, e pela primeira vez comecei a me interessar por aquelas com um viés claramente religioso – principalmente as da carreira solo de George Harrison. Ao mesmo tempo, porém, eu me perguntava se isso me ajudava a lidar com certas emoções que, de uma forma ou de outra, continuavam presentes. E, quando elas vinham à tona, pareciam ter uma força tão grande (ou até maior) do que antes.

Ou seja, a grande questão era (e, de certa forma, ainda é) saber se era possível ter uma relação responsável com os estímulos externos em geral e ao mesmo tempo honrar de forma não destrutiva a raiva, a tristeza, o ressentimento e todas essas emoções menos desejáveis. Como a minha própria experiência parecia bem inconclusiva, foi aí que valeu a pena ver o que a psicologia atual tinha a dizer a respeito.

Pelo menos no que se refere à música, os estudos recentes são bem interessantes, e parecem reforçar a ideia de que ouvir uma canção triste pode até mesmo ter um efeito terapêutico em muitos casos. Mas o que mais me chamou atenção foi um artigo de Todd B. Kashdan para a Psychology Today, em que ele menciona um estudo liderado por Paul Rozin sobre situações em que muitas pessoas sentem prazer com a dor.

Rozin se refere a isso como “masoquismo benigno”, e Kashdan chega à seguinte conclusão no seu texto: “Nós estamos no nosso melhor quando podemos transcender a dicotomia do positivo e do negativo – quando as emoções servem como sinais ao invés de obstáculos”. E em seguida lança uma pergunta ao leitor: “Como você está treinando você mesmo a estar confortável em se sentir desconfortável?”.

No fim, essa acabou sendo uma das lições mais importantes pra que eu entendesse melhor o meu propósito, assumindo que o que faço é, afinal de contas, música intrapessoal. Não preciso repetir o que já disse há algumas semanas. Basta dizer que acredito, mais do que nunca, que a abordagem de diferentes emoções ajuda a cumprir uma das funções mais importantes da arte, que é a de nos ajudar a reconhecer, aceitar, entender e reavaliar o nosso próprio sofrimento.

Sobre o plágio na música

O americano Austin Kleon começa o seu livro Roube como um Artista com uma citação famosa de Picasso: “Arte é furto”. A partir daí, Kleon mostra de forma sucinta e divertida como nada na arte (assim como em qualquer outro campo do conhecimento humano) é totalmente original. Logo, o desafio pra quem cria seria o de ser criterioso o bastante pra se tornar um colecionador, e não um acumulador: “acumuladores colecionam indiscriminadamente, artistas colecionam seletivamente”.

De cara, um músico que me parece ter levado essa filosofia bastante a sério (talvez até demais) é Bob Dylan. Muito disso porque no início ele aprendeu praticamente tudo sobre o que é ser um compositor através de Woody Guthrie e da tradição do folk, onde é bastante comum que uma mesma música seja reescrita com outra letra e poucas variações na melodia. Em outras palavras, é como se fosse um mashup antes desse termo sequer existir.

Desde os primeiros discos de Dylan essa prática é notória, tanto é que tem um artigo inteiro na Wikipédia dedicado apenas a músicas suas baseadas em melodias já existentes. Isso aparentemente não era um problema pra quase ninguém por dois motivos: primeiro, era algo que praticamente todos os músicos de folk faziam; segundo, essas canções eram baseadas em outras de autoria desconhecida (logo, não havia quem movesse um processo). Como o próprio Woody teria reconhecido sobre Dylan e outros jovens cantores da época, “Eles roubam de mim, mas o que eles parecem não perceber é que eu roubei de todo mundo!”.

A diferença daquela época pra esses dias de informação digitalizada é considerável, já que, se uma música conhecida é feita inspirada (conscientemente ou não) em outra, muito provavelmente ela vai, no mínimo, suscitar alguns debates. Exemplo claro disso foi a polêmica a respeito do álbum de 2006 de Dylan, Modern Times, em que aqueles que analisaram as faixas com atenção tiveram dificuldade em achar uma música que não remetesse a outra bem mais antiga.

Mas e nos casos em que a música é registrada de fato, de que forma se distingue entre a influência e a cópia? Até onde eu sei as regras não são muito claras. George Harrison, por exemplo, foi condenado pelas semelhanças de “My Sweet Lord” com “He’s So Fine” (de The Chiffons) com base em uma determinada sequência de notas consecutivas idênticas. No entanto, o mesmo não acontece com “Blurred Lines”, de Robin Thicke e Pharrell Williams, em relação a “Got to Give It Up”, de Marvin Gaye. Ainda assim, os dois músicos foram condenados a pagar uma nota à família de Gaye pelas semelhanças entre as duas gravações.

Pelo menos por enquanto, a impressão é que nesses casos vale mais o exemplo de Potter Stewart, um antigo juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, que escreveu que não sabia dizer o que é pornografia hardcore, mas que ele “sabe o que é quando vê”. No caso da música, o problema de saber o que é ou não plágio é quando a pessoa que “vê” (nesse caso, ouve) não sabe o que procurar e, por não estar familiarizado com determinada cultura, tem dificuldade em discernir entre o que é uma homenagem e o que é um roubo puro e simples.

Sobre a música: “Sonhar e Compartir”

“Sonhar e Compartir” é uma música na qual, olhando em retrospectiva, posso observar uma forte influência de dois cantores que admiro muito: Raul Seixas e George Harrison. Um pouco por causa do sentimento de débito que me vem dessa constatação, pretendo aqui contextualizar o que me motivou a escrever a canção.

Pra começar, minha história com Raul é antiga, ainda da época da escola. Uma de minhas músicas favoritas do seu repertório (e são várias!) era “Gita”, que, como já é bem documentado, foi feita baseada no texto sagrado hindu Bhagavad-Gita. A ambiguidade da letra, no entanto, fez com que muita gente cantasse (e cante) a música pensando numa pessoa em específico, o que obviamente foi algo deliberado por parte de Raul e de Paulo Coelho.

Quando soube disso, a ideia de compor uma música que tivesse esse tipo de abertura ficou um bom tempo na minha cabeça. Naquela época, porém, nem cheguei a tentar colocar isso em prática, pois quando enxerguei essa possibilidade me encontrava numa fase de desencantamento cada vez maior a respeito das religiões em geral, e cantar algo assim me pareceria, no mínimo, estranho.

Porém, como já mencionei em outras oportunidades, os anos se passaram, deixei de fazer música por um bom tempo e, quando voltei a fazê-lo, já estava imerso nesse universo de espiritualidade e de desenvolvimento pessoal. Esse meu forte interesse se manifestou principalmente através de livros, filmes e, como não podia deixar de ser, músicas.

Por conta disso, comecei a explorar a carreira solo de George Harrison a fundo. Tendo George se convertido ao hinduísmo, várias músicas suas podem ser entendidas tanto como canções românticas quanto de louvor a uma divindade, podendo-se destacar “Long Long Long” (ainda da época dos Beatles), “What Is Life” e a inacreditavelmente pouco conhecida “Learning How to Love You”.

Inclusive vale destacar uma frase sua (tirada da biografia Here Comes the Sun), ao ser indagado por um repórter a respeito da dificuldade que era saber, a julgar pelas letras das suas canções, para quem ele cantava afinal, se para Krishna ou para uma mulher. George se mostrou contente com essa confusão, dizendo que “cantar para Deus ou para um indivíduo é, de certa forma, o mesmo”.

E essa é uma filosofia que vem me acompanhando desde então, pois poder canalizar o meu interesse por autodesenvolvimento na vivência musical é algo que me traz um senso de propósito cada vez mais renovado. Não tenho uma relação com a espiritualidade tão clara quanto George tinha, mas não acho que isso me tire a possibilidade de explorar esse lado, e – tentando não esbarrar no moralismo – compartilhar descobertas e redescobertas que digam respeito não só a mim, como também a todas as pessoas que estão nessa mesma busca.