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Performance e energia

No início deste ano Bob Dylan lançou o elogiado Shadows in the Night, um disco de covers de standards do cancioneiro americano. Como era de se esperar, todas as dez canções haviam sido gravadas, em um momento ou outro, por Frank Sinatra, e esse acabou sendo (inclusive para o próprio Dylan) o principal parâmetro de avaliação do álbum.

Numa entrevista para a revista da AARP (a Associação Americana de Aposentados), Dylan comentou sobre as escolhas das faixas, o processo de gravação e muitas outras coisas muito reveladoras da sua visão artística. Dentre estas, destaco a seguinte passagem, a respeito das músicas que escolheu: “A não ser que você acredite na canção e a tenha vivido, faz pouco sentido interpretá-la”.

Em seguida, ele completa seu raciocínio com a seguinte afirmação sobre Sinatra, que vai permanecer sem tradução da minha parte: “Frank sang to you, not at you, like so many pop singers today.”

Queria muito poder traduzir essa última frase e, em poucas palavras, diferenciar “sing to you” – que era o que Sinatra fazia – de “sing at you” na nossa língua. O que me sinto capaz de dizer é que, apesar das diferenças entre conectores (“to” e “at”), essas duas expressões, em português, seriam traduzidas como “cantar para você”. Onde estaria a diferença então? Em uma palavra: energia.

No primeiro caso (“sing to”), o foco está em quem escuta, e o cantor parte de uma perspectiva de contribuir de alguma forma com o ouvinte; já no segundo caso (“sing at”), a energia está voltada para o próprio intérprete, que se preocupa em primeiro lugar em causar uma boa impressão para quem quer que esteja ouvindo.

O fato de não haver, até onde sei, uma maneira de dizer isso em português em poucas palavras é uma evidência do caráter intangível da experiência musical. Parece que quanto mais se fala nesse tipo de coisa, menos se pode compreender. Assim, Dylan entende que o caminho para um intérprete deve partir da sua própria vivência e capacidade de introjeção:

Você tem que olhar para cada uma dessas canções e ser capaz de se identificar com elas de um jeito significativo. Você mal pode cantar essas músicas se você não estiver nelas. Se você quer fingir, vá em frente. Finja se quiser. Mas eu não sou esse tipo de cantor.

Essa última afirmação, aliás, dá muito pano pra manga e abre várias outras questões interessantes, principalmente sobre o quanto as escolhas de um intérprete estão vinculadas a percepções de identidade. Mas pra não fugir muito do assunto, prefiro deixar essa discussão pra semana que vem.

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O que diferencia um artista

Foi notória a polêmica que se gerou, no início deste ano, com a vitória de Beck na principal categoria do Grammy (Álbum do Ano) por seu disco Morning Phase, derrotando a favorita Beyoncé com seu disco epônimo. Kanye West (sempre ele), aparentemente bastante contrariado, disse que Beck deveria dar seu prêmio a Beyoncé por respeito à “artistry” – palavra que neste caso podemos traduzir como “qualidade artística”.

Passada a minha surpresa por constatar que o Grammy ainda fosse capaz de causar tamanha comoção, o ponto que mais me prendeu a atenção nessa história toda foi justamente considerar o que, afinal, Kanye entende como sendo “artistry”. Chris Robley, num ótimo texto para o blog DIY Musician, levantou essa discussão trazendo à tona o argumento de muitas pessoas nas redes sociais que discordavam de Kanye: enquanto Beck compôs, produziu e tocou boa parte dos instrumentos em seu álbum, Beyoncé teria feito não mais que cantar e dividir os créditos das composições com diversos outros parceiros. Consequentemente, isso faria do disco de Beck um representante muito mais digno dessa tal de “artistry”.

A partir daí, a questão que Chris propõe é a seguinte: o que faz do artista um artista afinal? Será que o simples fato de um músico fazer quase tudo sozinho faz dele mais “artista” do que um outro que trabalhe de forma bem mais colaborativa? Essas são questões pertinentes, e como a minha opinião hoje é basicamente a mesma de nove meses atrás (quando pude participar da discussão no já mencionado blog), vou reiterá-la aqui: a meu ver, o que devemos considerar principalmente é a visão artística por trás de uma obra, ou seja, até que ponto ela vem da perspectiva do artista que recebe os créditos (independente do quanto ele pôs “a mão na massa” em termos de execução).

É claro que, quanto mais um artista participa do processo criativo, maiores são as chances de que o produto final esteja de acordo com o que ele deseja expressar – o que, aliás, só vai ficando claro mesmo durante o processo de criação. É por isso que, para quem acompanha a indústria da música com mais atenção, é praticamente impossível dissociar muitos dos maiores sucessos das últimas décadas dos seus respectivos produtores (e por vezes também compositores), mesmo que eles não sejam tão celebrados quanto os músicos principais. Exemplos disso são Berry Gordy e o som da Motown; Max Martin e o pop dos anos 90; e Phil Spector com seu “wall of sound” nos anos 60.

Esse é, também, provavelmente o maior motivo de desconfiança em relação ao que se denomina como “música pop”, pois muitos artistas deste gênero se diferenciam pouco uns dos outros não só em termos musicais, mas também em termos de propósito e valores. Se formos parar para analisar, um cantor como Frank Sinatra é até hoje reverenciado como um dos grandes do século XX, sendo que, até onde sei, ele tampouco compunha, produzia, tocava instrumentos ou fazia os arranjos das músicas que interpretava. No entanto, uma coisa que ele tinha bem clara era o conceito por trás de cada um de seus discos, como as canções deviam dialogar umas com as outras, e como deveria ser todo o processo de gravação. Em outras palavras, ele tinha a visão artística sobre todo o processo.

Por fim, é importante lembrar que é bastante comum que esse tipo de avaliação mude com o tempo, normalmente porque o próprio músico costumar ganhar cada vez mais autonomia em suas decisões (como se pôde ver claramente na trajetória dos Beatles). Além disso, casos como o da dupla Milli Vanilli (que caíram em desgraça com a revelação de que não cantavam as próprias músicas) seriam, como um dos seus ex-integrantes observou, bem menos chocantes nesses dias em que o auto-tune impera nos estúdios de gravação. Resta saber se essas mudanças tecnológicas serão o suficiente para nos fazer reconsiderar o que é “artistry”.