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Duende in the zone

Durante uns bons cinco anos estive bastante envolvido com o pôquer, jogando com frequência e aprendendo cada vez mais sobre a sua dinâmica. Um termo interessante que, como soube depois, é usado não só nesse jogo, mas também nos esportes em geral, é o que os americanos chamam de se estar “in the zone”. Em linhas gerais, trata-se de um estado em que você não está mais racionalizando o que faz, e suas ações são tomadas num nível além da sua própria compreensão.

Outro exemplo desse fenômeno ocorre no flamenco. Existe, principalmente entre os dançarinos (ou, como se diz, bailaores), todo um mito por trás da experiência do “duende”, citado inclusive por García Lorca (pegando um termo emprestado de Goethe) como um “poder misterioso que todos sentem, e nenhum filósofo explica”. Como se vê, apesar de diferenças na nomenclatura e nas aplicações, estamos falando essencialmente da mesma coisa.

Esses são apenas dois exemplos do que na psicologia se chama de estado de fluxo. Se você já experimentou isso de alguma forma (e é bem provável que sim), nada do que eu escrever aqui vai sequer chegar próximo à sua experiência. Isso porque você se esquece inclusive de si mesmo, e se torna como um instrumento de algo intangível. Ou, em outras palavras, pode-se dizer que sujeito e objeto tornam-se um só.

No entanto, como o lendário jogador de pôquer Doyle Brunson disse certa vez, trata-se de algo que não acontece o tempo todo. De fato, é seguro dizer que nem sequer acontece na maior parte das vezes (tanto é que há quem nem acredite nisso), e caso se tente forçá-lo, aí então é que as chances de atingi-lo são mínimas. Ainda assim, resta a pergunta: se não é possível manufaturar conscientemente esse estado, seria possível ao menos criar condições mais propícias para alcançá-lo?

Não há dúvida. Para isso, existem não só os fatores mais óbvios, que ainda assim são frequentemente negligenciados, como cuidar regularmente da própria saúde física e mental (ainda que essa experiência transcenda o corpo e o intelecto), como também o simples fato de praticar bastante determinada atividade (seja ela escrever um texto, compor uma música, cozinhar ou varrer o quarto). É dessa última recomendação que vem a famosa frase de Picasso: “A inspiração existe, mas ela deve te encontrar trabalhando”.

Se formos além e, como não podia deixar de ser, tomarmos isso como uma experiência espiritual, vale a pena considerar que o clássico O Poder do Agora, de Eckhart Tolle (livro que já mencionei há algumas semanas), fala disso o tempo todo. De fato, eu poderia ficar aqui o dia inteiro só escrevendo e dando exemplos, mas me sentiria como se estivesse dando voltas ao redor de um mesmo ponto, e prefiro partir do pressuposto – principalmente em assuntos como esse – de que menos é mais.

Sobre a música: “Em Compasso de Espera”

Escolhi “Em Compasso de Espera” para abrir o EP que disponibilizei para download[1] por considerar uma canção bastante representativa da minha visão, e do que me motiva a compartilhar essas músicas. Tanto é que me parece mais justo distinguir entre dois aspectos: a história da composição da letra e a da composição da música propriamente dita.

A inspiração para a música (mais especificamente, a harmonia) veio de tocar algumas das canções mais conhecidas do repertório de Tim Maia, como “Primavera” (de Cassiano e Silvio Rochael), “Gostava Tanto de Você” (de Edson Trindade) e “Azul da Cor do Mar” (do próprio Tim). Todos esses clássicos compartilham basicamente de um mesmo grupo de acordes, o que me encorajou a experimentar e ver o que eu mesmo podia fazer com eles. Não acho que o resultado lembre muito algo que o Tim Maia cantaria, mas gosto de pensar nele como uma espécie de “mentor espiritual” nesse sentido.

Já a história da letra veio do meu crescente interesse e familiarização com a literatura de desenvolvimento pessoal, mais especificamente o livro O Poder do Agora, de Eckhart Tolle. Tendo lá pelas tantas me deparado com uma seção do livro intitulada “O sentido esotérico de ‘espera’”, à primeira vista me senti confuso, já que isso parecia contradizer tudo o que o autor vinha dizendo até então – em poucas palavras, a importância de se valorizar o momento presente como a única coisa que de fato existe.

No entanto, como Tolle diz, se entendermos essa espera não como um estado de ansiedade ou tédio (ou seja, uma tentativa de fugir do presente), mas sim como a antecipação por algo que pode ocorrer a qualquer momento, passamos a entrar num estado de alerta e profunda atenção. Esse aparente paradoxo me pareceu bastante sedutor, e me fez traçar um paralelo com a minha própria condição naquele momento, e como eu vinha (e, de certo forma, ainda hoje venho) passando por todo um processo de revisão de valores e mudança de prioridades.

Nem preciso dizer que recomendo fortemente a leitura do livro. É o tipo de texto que, se lido com o coração aberto, certamente vai te fazer questionar muitas coisas, e te ajudar a mudar (se você assim quiser) sua relação com seus planos, objetivos, senso de identidade etc. Não é à toa que, com uma linguagem simples (mas não simplista), se tornou em pouco tempo um best-seller e uma ótima referência para quem, assim como eu, se sente cada vez mais atraído por essa aventura de autoconhecimento.

[1] atualização: essa foi uma versão preliminar do EP Música de Passagem