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Sobre a playlist impermanente

The Life of PabloHá pouco mais de um ano, depois de Kanye West lançar The Life of Pablo como um álbum exclusivamente digital que estaria sujeito a constantes alterações, escrevi um texto aqui no blog chamado “O princípio do álbum impermanente”.

Na ocasião, comentei que talvez esse tipo de coisa viesse a se tornar prática comum na indústria, e mencionei inclusive uma ótima análise feita por Bruce Houghton, editor do blog de música e tecnologia Hypebot.

No seu texto, Houghton comenta que deixar um álbum em aberto faz com que ele deixe de ser uma “afirmação” e passe a ser uma “conversa”, levando em conta que pelo menos algumas das alterações que Kanye fez tinham sido influenciadas pelo feedback do seu próprio público.

Da minha parte, embora tenha certa resistência à ideia de me abrir a sugestões dos ouvintes no que se refere ao lado estritamente musical do meu trabalho (já até escrevi sobre isso, inclusive), não posso negar que essa seja uma das possibilidades mais interessantes levantadas pela tecnologia do streaming.

No entanto, como esse tipo de coisa também requer certa “bala na agulha” (leia-se: o acesso contínuo a um bom material de gravação e produção de áudio, que permita que o artista mexa nas suas músicas sem perda de qualidade), deixei isso como uma ideia que, quem sabe, eu poderia explorar mais pra frente.

More LifeAté que dois meses atrás outro rapper americano, Drake, lançou um projeto chamado More Life. E, ao invés de chamar essa nova coleção de músicas de álbum ou até mesmo de mixtape (como é comum no universo do hip hop), ele decidiu por considerá-la como uma playlist.

Com isso, o que ele está basicamente dizendo é que esse novo trabalho não tem a pretensão de ser tão “sério” quanto um álbum. Mas, ao mesmo tempo, talvez também não dê pra dizer que seja um projeto tão “despretensioso” quanto uma mixtape.

Foi aí que percebi que, dentro das minhas possibilidades, eu podia combinar as abordagens de Kanye e Drake pra lançar as minhas músicas mais recentes sem necessariamente depender de todo o investimento de tempo e dinheiro envolvidos num lançamento mais tradicional.

Assim surgiu a playlist impermanente, que é, acima de tudo, uma forma de refletir o meu atual momento levando em conta algo que sempre busco ter em mente: a própria natureza de transitoriedade e transformação da vida.

Em outras palavras, é uma forma de continuar contando a minha história sem precisar (ainda) colocar um ponto final:

Sobre os boicotes ao Spotify (parte 2)

Num artigo recente de Charlotte Hassan pro site Digital Music News (em que me baseei pra escrever o último texto), foi apresentado um panorama das razões que vêm levando alguns dos músicos mais famosos do mundo a boicotar o Spotify (seja permanentemente ou por apenas algumas semanas). No texto de hoje quero falar um pouco sobre possíveis implicações e motivações por trás disso.

Como visto semana passada, a grande crítica que se faz ao Spotify é o fato dele, ao contrário de outros serviços de streaming, disponibilizar a versão freemium por tempo ilimitado, o que significa que qualquer usuário pode ouvir quantas faixas quiser de graça (desde que tenha paciência com os anúncios). Como forma de protesto, a solução que muitos artistas têm encontrado é a de simplesmente retirar seus álbuns mais recentes da plataforma.

A primeira questão que quero levantar é que (com a exceção do Radiohead e de um ou outro artista) a maioria dos casos mais famosos de boicote ao Spotify são em grande parte motivados por parcerias ou participações nos lucros de seus concorrentes. Nisso podemos incluir, por exemplo, Beyoncé e Kanye West com o Tidal, e Taylor Swift e Drake com o Apple Music. Não que haja algo de antiético com isso, mas é o tipo de coisa que poderia, pelo menos, ser deixada um pouco mais clara pros amantes de música.

Outro ponto a considerar é o seguinte: enquanto os fãs que não pagam por nenhum serviço de streaming podem reclamar à vontade desses boicotes – e sem razão –, e quanto aos assinantes do Spotify? A meu ver, está longe de ser absurdo o argumento do diretor de conteúdo da empresa sueca, Ken Parks, que alegou há alguns anos: “A noção de que você iria querer reter álbuns das pessoas que estão pagando 120 libras ou euros ou dólares por ano é simplesmente realmente incompreensível. É bem hostil punir os seus melhores consumidores ou fãs”.

Difícil não concordar com a sua análise, já que seria pouco razoável esperar que a maioria dos fãs de Beyoncé que são usuários premium do Spotify passem a assinar o Tidal só por causa dela. Se o problema fosse realmente apenas o modelo freemium, uma solução mais razoável seria, ao invés de remover totalmente um álbum do Spotify, deixa-lo disponível apenas pros assinantes do serviço. Infelizmente, por causa de tudo o que foi dito até aqui, tenho poucas esperanças de que isso possa acontecer.

Por fim, como muitos vêm observando, tem também o caso do YouTube, que, além de pagar menos que todos os serviços mencionados, não faz muito esforço em combater a pirataria. A morte de Prince foi um lembrete de como era difícil achar qualquer coisa sua por lá, e isso não foi à toa. Quer concordemos com essa política ou não, esse exemplo mostra que, se um músico de grande expressão está realmente disposto a comprar essa briga, o YouTube não é a casa da mãe Joana que aparenta ser.

Só que, pelo menos por enquanto, poucos são o que se arriscam a isso, já que o YouTube ainda é, de longe, o melhor meio de alcançar os fãs através de vídeos. Abrir mão desse canal seria justamente perder uma ferramenta quase que insubstituível em curto prazo. Talvez essa situação mude nos próximos anos, já que não só o Facebook, como também a Amazon e os serviços de streaming mais famosos vêm investindo pesado em vídeos. Se algum deles cair no gosto do público e tiver a promessa de compensações financeiras mais vantajosas pros músicos, talvez o YouTube passe a ser o grande foco dos boicotes nos próximos anos.