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Ou você morre como herói…

Na faixa “So Appalled”, do álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de Kanye West, seu amigo Jay-Z menciona uma fala muito interessante do filme O Cavaleiro das Trevas, dita pelo personagem Harvey Dent/Duas-Caras. Enquanto defende as ações de Batman, em certo momento Dent diz que “ou você morre como herói, ou você vive o bastante para ver a si mesmo se tornar o vilão”. Ou, nas palavras de Jay-Z:

Dark Knight feeling, die and be a hero/Or live long enough to see yourself become a villain

Quando se fala em música pop, não é preciso ir muito longe pra constatar isso. É só pensar nas lendas do rock que morreram jovens, e o quanto são reverenciadas até hoje. Não digo que Jimi Hendrix não mereça todo esse reconhecimento (merece até mais!), mas será que se ele estivesse vivo até hoje ainda o considerariam o maior guitarrista de todos os tempos? Talvez essa tenha sido, no fim das contas, a diferença mais importante entre ele e seu amigo Eric Clapton.

Ou, melhor ainda, é só pensar na diferença entre John Lennon e Paul McCartney. Enquanto um atingiu uma aura mítica (apesar de ter sido até o fim um homem bastante contraditório e amargurado), o outro é frequentemente visto como mais um tiozão, mesmo (aliás, principalmente) quando trabalha com artistas mais jovens, como nas suas colaborações com Michael Jackson nos anos 80 e, mais recentemente, com Kanye West.

Felizmente, isso nem sempre ocorre com os músicos veteranos. Alguns, apesar dos altos e baixos, conseguem se manter relevantes aos olhos da crítica e do público, como no caso de David Bowie, justamente aclamado ainda em vida. É razoável supor que o mesmo ocorrerá quando Bob Dylan se for (bate na madeira três vezes!), já que seus últimos álbuns ainda são reconhecidos como de alto nível (além de alcançar altas posições nas paradas).

No Brasil, é muito tentador considerar essas questões no caso dos medalhões da MPB. Penso em especial em Chico Buarque, que se tivesse morrido, por exemplo, na época das Diretas Já, seria hoje um herói absoluto pra quase todo mundo. Ao invés disso, ele hoje tem que ouvir gente lhe chamando de “merda” na sua cara, e outros tantos achando essa atitude bonita.

Nem sempre é fácil colocar as coisas em perspectiva, mas me lembro que o próprio Chico, certa vez, mencionou que essas reações polarizadas de amor/ódio tendem a ser cíclicas. Ou seja, às vezes é moda gostar de um determinado músico veterano, às vezes não. Talvez a grande questão hoje é que qualquer desqualificação – pelo menos aqui no Brasil – parece se basear quase que exclusivamente em divergências políticas. Torço pra que também essa tendência seja cíclica.

Performance e identidade

Partindo da entrevista de Bob Dylan para a revista da AARP, que mencionei na semana passada, quero destacar uma questão que ele levanta, e que considero de fundamental importância para qualquer músico que toque ao vivo: a forma com que um artista acessa seus sentimentos na hora de cantar. Nas palavras de Dylan: “Um ator está fingindo ser outra pessoa, mas um cantor não. Ele não está se escondendo atrás de nada”.

Me atrevo a discordar, e dizer que é perfeitamente possível (até certo ponto) para um cantor se “esconder” num personagem, exatamente como um ator faria numa peça. Isso vale não só para os quatro caras no Kiss, mas também para cantores de pop-rock que criaram diferentes alter egos, como David Bowie (que levou essa brincadeira a um outro nível), Bono, Madonna, Beyoncé etc. Inclusive os próprios Beatles na época de Sgt. Pepper’s poderiam ser incluídos nessa lista, não fosse o fato de que àquela altura eles já não se apresentavam mais ao vivo.

De qualquer forma, é compreensível que Dylan pense o contrário. Por ser ele um cantor-compositor na melhor tradição da música folk, espera-se que tudo o que ele cante seja uma demonstração de emoções genuínas, e ele sabe bem disso. Na música pop, por outro lado, esse tipo de exigência não se aplica.

Aliás, é possível ir além e dizer que, justamente porque no pop tende a haver uma maior dissociação entre a pessoa e a persona do artista, este tende a se mostrar mais confortável em estar no palco e apresentar um espetáculo de fato. Senão, vejamos o que Beyoncé tem a dizer quanto à sua persona Sasha Fierce: “Eu criei um alter ego; coisas que eu faço numa performance que eu nunca faria normalmente”.

Deixando de lado todas as teorias conspiratórias a esse respeito, acredito que essa pode ser uma referência interessante para músicos de outros gêneros, principalmente os de folk, trova e cantautores em geral (dentre os quais me incluo até certo ponto). A fim de preservar uma discutível “autenticidade”, não é nenhuma surpresa que muitos shows destes gêneros sejam considerados entediantes, ou, na melhor das hipóteses, previsíveis.

É óbvio que esse tipo de atitude não precisa ser levada a extremos (ninguém espera que o Chico Buarque vá levantar os braços e agitar o público como se fosse a Ivete Sangalo). É só uma questão de perceber que, a partir do momento em que está num palco, um músico se encontra numa dimensão diferente e, com ou sem um alter ego explícito, tem à sua disposição atitudes que podem tornar a experiência muito mais interessante para o público.