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Henrí Galvão

19 de outubro de 2017

No seu clássico Rápido e Devagar, Daniel Kahneman fala de como o pensamento humano opera de duas formas.

Uma é aquela mais rápida e intuitiva, que ele chama de Sistema 1; outra é aquela mais lenta, deliberada – o Sistema 2.

Esses números talvez sirvam pra um livro de Psicologia, mas não sei se é o tipo de coisa que eu colocaria numa música.

Por isso, gosto mais dos termos que Daniel Goleman usa: mente “ascendente”, ao invés de Sistema 1; e “descendente”, ao invés de Sistema 2.

A partir daí, dá pra imaginar uma conversa entre os dois?

[ATUALIZAÇÃO: essa música foi relançada em março de 2018]

Letra:

Se tento medir as minhas palavras
É porque ainda acho que não digo nada
Que valha o silêncio de quem me ouve

Mas sinto um impulso quase irresistível
De continuar flertando com o perigo
Como um animal sem medo do açoite

Então vem e me diz o que há pra saber
Tenta me alertar e me convencer
Que às vezes vale a pena se perguntar por quê

Eu sei que você só quer o meu bem
E quero poder te agradecer também
Por não me deixar saltar desse trem

Se quiser provar da minha insanidade
Me deixa sozinho de verdade
Não tem nada mais fácil que criar alarde

É uma perdição ter na ponta da língua
A solução pra qualquer intriga
A chave mágica pra qualquer saída

Mas se eu fosse ao menos escutar os sinais
Aprenderia a olhar pra trás
Sem desperdiçar nem um dia a mais

A inteligência artificial na música

Data (Jornada nas Estrelas)No seu clássico livro Inteligência Emocional, o psicólogo norte-americano Daniel Goleman cita o androide Data, de Jornada nas Estrelas, como um exemplo do quão limitante é pensar na mente humana como se ela fosse um grande computador – sem levar em conta, portanto, a influência das emoções nos pensamentos.

No caso de Data, isso se refletiria da seguinte maneira:

Na falta do senso lírico que traz o sentimento, Data pode tocar música ou escrever poesia com virtuosismo técnico, mas sem paixão. O que demonstra o anseio de Data por sentir anseio é que faltam inteiramente à fria visão cognitiva os valores mais elevados do coração humano — fé, esperança, devoção, amor.

Vale lembrar que Inteligência Emocional foi publicado pela primeira vez há mais de 20 anos. Naquela época, aparentemente ainda era possível falar em robôs sem que se pensasse nas implicações da inteligência artificial na sociedade como um todo.

Hoje em dia, por outro lado, é comum que a simples menção desse assunto considere também os riscos de um cenário apocalíptico em que, um dia, as máquinas podem fazer com que o ser humano se torne cada vez mais obsoleto (mais ou menos como em Matrix).

E, nesse contexto em que se abrem tantas frentes de atuação, não foi bem uma surpresa saber que o projeto Magenta do Google divulgou ano passado a sua primeira música feita totalmente por inteligência artificial (não só eles, aliás).

A música em si é bem simples, mas acaba trazendo a pergunta: será que num futuro não tão distante o músico – seja ele compositor, intérprete etc. – corre o risco de ter que passar a competir com as máquinas pela atenção das pessoas?

A princípio, não. Como já comentei aqui uma vez, ouvir música é uma experiência subjetiva. O simples fato de saber que uma música, por melhor que seja, foi feita por uma máquina, já faz com que a apreciação estética tenha um impacto bem menor do que poderia.

Afinal, pra maior parte das pessoas, muito da importância que se dá à música vem justamente de (inconscientemente) partirmos do pressuposto de que o artista de alguma forma compartilha de vivências e valores parecidos com os nossos.

É claro que, se acontecer de uma máquina compor e interpretar uma música e sermos levados a crer que todo o processo foi feito por seres humanos, aí então a coisa muda completamente de figura (talvez isso já esteja até acontecendo, quem sabe?).

E, pra terminar, vale aqui mais uma consideração: talvez no futuro os robôs cheguem a um nível de sofisticação tão grande que eles mesmos acreditem ser, ou pelo menos “se sintam”, humanos (como David, do filme A.I. – Inteligência Artificial).

Nesse dia, provavelmente já teremos chegado a um ponto em que um robô será visto como nosso semelhante. Logo, uma música feita por uma dessas máquinas vai ter grandes chances de tocar o coração das pessoas sem nenhuma necessidade de se fingir que foi feita por outra pessoa.

Até que esse dia chegue, no entanto, a música – e a arte de um modo geral – vai provavelmente continuar sendo a última fronteira da inteligência artificial.