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Sobre a palavra cantautor

É interessante ver como nos últimos anos a palavra cantautor (junção de cantor + autor) vem cada vez mais caindo no gosto de muitos cantores-compositores brasileiros (a Mostra Cantautores, que existe desde 2012, é apenas o exemplo mais emblemático disso).

Embora eu mesmo não faça uso desse termo (por motivos que, espero, vão ficar claros até o fim desse texto), tenho certa simpatia por ele, já que me remete a artistas ibero-americanos que são verdadeiras referências pra mim, como Joan Manuel Serrat, Luis Eduardo Aute e Silvio Rodríguez.

Mas, ao mesmo tempo, sempre tive um pé atrás quanto a essa palavra, por estar ciente de que outro artista não menos importante pra mim, o uruguaio Jorge Drexler, nunca foi muito fã dela.

Achei então que seria uma boa ideia finalmente fazer o dever de casa e procurar entender melhor a perspectiva de Drexler. E isso me levou à seguinte entrevista que ele deu ao jornal espanhol El País, quando lançava seu álbum Llueve (já se vão vinte anos):

a palavra cantautor me faz ranger. Limita muito. Por exemplo, cantautor se associa à canção política, e eu não pratico esse gênero. Há mais diferenças: os cantautores tradicionais concebem a música como um apoio ao texto. A mim interessa tanto o que digo com a palavra como o que digo com a música.

Já numa entrevista de 2015 pro Clarín, da Argentina, ele vai além:

A palavra cantautor tem uma acepção diferente em cada país que você vai. Não quer dizer o mesmo no México em comparação com a Espanha, e na Espanha em comparação com a Argentina.

O que nos leva à pergunta: e no Brasil, o que essa palavra representa afinal?

Bom, não existe uma única resposta pra essa pergunta. Falando apenas por mim, garanto que ela me agrada bem mais que o termo “MPB”, que nunca me pareceu contemplar a maioria dos cantores-compositores brasileiros que mais admiro (como Raul Seixas, Zé Ramalho e Belchior).

Levando a discussão pra um nível mais amplo, acho importante relembrar aquela famosa entrevista de 2004 em que Chico Buarque levantava a possibilidade de que “a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado”.

Ou, colocando de outra forma: se dedicar a compor canções em pleno século XXI seria praticamente o mesmo que assinar um atestado de irrelevância artística.

Isso pode levar um cancionista a ter diferentes reações. Uma é simplesmente desistir de fazer canções (o que, por sinal, foi o meu caso durante alguns anos).

Outra, que é a de quem se diz cantautor no Brasil, é a de buscar ressignificar a relevância da canção no contexto histórico atual.

É assim que entendo o uso dessa palavra por aqui. Me parece menos uma questão de ser “canção política”, ou de usar a música “como apoio ao texto”, e muito mais uma questão de reivindicar o poder da canção enquanto fenômeno social.

Esse é um propósito que me parece muito nobre, e que tem toda a minha consideração. Mas também confesso que, se eu fosse me guiar por ele, provavelmente não teria voltado a fazer música.

Isso porque (e estou ciente da possibilidade de me contradizer daqui a alguns anos) o fato de que uma canção minha seja ou não relevante a um nível mais amplo faz pouca diferença pra mim.

A única pergunta que me faço quando componho – e que, por tabela, faz com que eu evite usar o termo cantautor – é a seguinte: isso me toca de alguma maneira?

Se a resposta for afirmativa, é isso que importa no fim das contas. Se uma canção me toca, é porque ela faz com que eu me reconheça nela de alguma forma.

E se eu me reconheço nela isso é um sinal inequívoco de que o mesmo pode acontecer talvez não com muitas pessoas, mas pelo menos com mais alguém.

O que por si só já faz com que valha a pena compartilhar uma canção, e deixar que ela siga o seu caminho e faça o seu trabalho. Qualquer que seja ele.

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Henrí Galvão

29 de maio de 2017

Talvez compor canções seja uma das coisas mais irrelevantes que se possa fazer hoje em dia.

(Não foi o próprio Chico Buarque quem falou no “fim da canção”?)

Mas ao mesmo tempo não dá pra negar que essa é uma viagem pra lá de gratificante:

obs.: por sinal, se quiser ver a letra da música é só clicar no título no link acima.

obs. 2: outra forma de ficar a par das músicas novas é se inscrevendo na lista de e-mails.

Ou você morre como herói…

Na faixa “So Appalled”, do álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de Kanye West, seu amigo Jay-Z menciona uma fala muito interessante do filme O Cavaleiro das Trevas, dita pelo personagem Harvey Dent/Duas-Caras. Enquanto defende as ações de Batman, em certo momento Dent diz que “ou você morre como herói, ou você vive o bastante para ver a si mesmo se tornar o vilão”. Ou, nas palavras de Jay-Z:

Dark Knight feeling, die and be a hero/Or live long enough to see yourself become a villain

Quando se fala em música pop, não é preciso ir muito longe pra constatar isso. É só pensar nas lendas do rock que morreram jovens, e o quanto são reverenciadas até hoje. Não digo que Jimi Hendrix não mereça todo esse reconhecimento (merece até mais!), mas será que se ele estivesse vivo até hoje ainda o considerariam o maior guitarrista de todos os tempos? Talvez essa tenha sido, no fim das contas, a diferença mais importante entre ele e seu amigo Eric Clapton.

Ou, melhor ainda, é só pensar na diferença entre John Lennon e Paul McCartney. Enquanto um atingiu uma aura mítica (apesar de ter sido até o fim um homem bastante contraditório e amargurado), o outro é frequentemente visto como mais um tiozão, mesmo (aliás, principalmente) quando trabalha com artistas mais jovens, como nas suas colaborações com Michael Jackson nos anos 80 e, mais recentemente, com Kanye West.

Felizmente, isso nem sempre ocorre com os músicos veteranos. Alguns, apesar dos altos e baixos, conseguem se manter relevantes aos olhos da crítica e do público, como no caso de David Bowie, justamente aclamado ainda em vida. É razoável supor que o mesmo ocorrerá quando Bob Dylan se for (bate na madeira três vezes!), já que seus últimos álbuns ainda são reconhecidos como de alto nível (além de alcançar altas posições nas paradas).

No Brasil, é muito tentador considerar essas questões no caso dos medalhões da MPB. Penso em especial em Chico Buarque, que se tivesse morrido, por exemplo, na época das Diretas Já, seria hoje um herói absoluto pra quase todo mundo. Ao invés disso, ele hoje tem que ouvir gente lhe chamando de “merda” na sua cara, e outros tantos achando essa atitude bonita.

Nem sempre é fácil colocar as coisas em perspectiva, mas me lembro que o próprio Chico, certa vez, mencionou que essas reações polarizadas de amor/ódio tendem a ser cíclicas. Ou seja, às vezes é moda gostar de um determinado músico veterano, às vezes não. Talvez a grande questão hoje é que qualquer desqualificação – pelo menos aqui no Brasil – parece se basear quase que exclusivamente em divergências políticas. Torço pra que também essa tendência seja cíclica.

O crowdsourcing na composição

No último texto comentei uma diferença fundamental que Chico Buarque mencionou entre ele e Tom Jobim: o fato de que o maestro se mostrava muito mais à vontade pra mostrar suas composições inacabadas (sem nenhuma cerimônia em pedir ajuda a outras pessoas), enquanto Chico se dizia “incapaz de partilhar um momento como esse”.

Dito isso, cabe aqui um esclarecimento importante: quando Chico fala sobre Tom pedindo opiniões (ou até mesmo sugestões) de terceiros, ele se refere, obviamente, a outros músicos, ou pelo menos outras pessoas inseridas no meio musical (afinal, é pra isso também que serve um produtor).

Acontece que o “obviamente” do parágrafo anterior já não é mais tão óbvio assim. Isso porque, como já mencionei em outra ocasião, uma particularidade destes tempos de exposição em redes sociais é o crescimento da expectativa de que, de uma maneira ou de outra, o público tenha uma participação muito mais ativa em decisões que antes tendiam a ser exclusivamente do artista.

E é aí que entra o conceito de crowdsourcing, um termo em inglês utilizado para fazer referência à prática de recorrer à contribuição coletiva (em geral online) para a resolução de problemas de qualquer natureza. Na música, um tipo muito popular de crowdsourcing é o crowdfunding, ou seja, o financiamento coletivo, que pode servir tanto para projetos únicos (caso de sites como Kickstarter, Indiegogo, Catarse etc) quanto para modelos de contribuição recorrente (como no site Patreon).

E até que ponto essa lógica pode ser aplicada à composição? Talvez como forma de responder a essa pergunta, no ano passado surgiu o site Hook(ist), com a proposta justamente de ser uma plataforma de composição colaborativa. A ideia é a de juntar compositores já estabelecidos para compor junto com os usuários do site, que pagam para ter a oportunidade de sugerir alguma letra de música. A partir de então, o próprio artista poderá aproveitar os versos que lhe pareçam mais interessantes.

Se essa iniciativa vai vingar ou não ainda é cedo pra dizer, mas o fato é que a ideia do crowdsourcing na composição não é de todo nova. Um exemplo disso foi aqui mesmo no Brasil há alguns anos, quando Fernando Anitelli, líder do Teatro Mágico, compôs uma canção (“O Que se Perde Enquanto os Olhos Piscam”) junto com seus fãs no Twitter, pedindo a eles que citassem “objetos que a gente perde e não se dá conta”.

Esse tipo de coisa me parece feita sob medida para artistas menos individualistas, que não têm problema em se despir da vaidade e da necessidade de ter total controle sobre o processo. Pessoalmente, como não me encaixo tanto nesse perfil, não é o tipo de coisa que me deixaria muito confortável testar. Mas como “confortável” e “arte” são duas palavras que não combinam muito bem, talvez seja uma ideia que valha a pena levar em conta mais pra frente.

O cancionista e o maestro

Da mesma entrevista de Chico Buarque de que falei há duas semanas, em que ele mencionava (isso há mais de dez anos) a tese sobre o fim do formato da canção como o conhecemos (o que quer dizer, de fato, o fim da relevância artística deste formato), surgiram revelações muito interessantes sobre o seu amigo e “maestro soberano” Tom Jobim:

Ele não tinha pudor de mostrar as músicas rascunhadas. Mostrava. Pedia palpites. Ver o Tom em ação, e tendo dúvidas, em processo de criação, era formidável – e difícil. Eu sou incapaz de partilhar um momento como esse, uma obra rascunhada, um pedaço de música ou de letra.

Essa citação, simples como pode parecer, diz muito sobre uma provável diferença entre Tom Jobim e Chico Buarque, diferença essa captada por Rogério Skylab quando disse: “Tom Jobim e Vinícius de Moraes são músicos, não são cancionistas. Caetano é cancionista, Chico, Djavan também são.”

Visto isso, sendo Chico um cancionista, ou seja, um cantor-compositor, é mais provável que ele tenda a uma visão um pouco mais formatada quanto ao método de composição. Por mais que ele tenha também feito várias músicas em parceria com outros artistas, geralmente há uma separação clara no processo (ou seja, um faz a letra, o outro faz a música).

Já Tom Jobim, desconfio, acima de tudo pensava muito mais na música como um todo, o que incluía performance, arranjos, gravação etc. Para o maestro a composição talvez fosse apenas uma parte desse todo, e mesmo já com letra e melodia a música nem de longe estava “resolvida” de fato. Em outras palavras, havia muito mais possibilidade para desconstruí-la durante a gravação – e também depois.

Talvez entre uma abordagem e outra esteja boa parte do desafio para que a canção se mantenha relevante nos dias de hoje: conciliar, na medida do possível, escrever uma música que possa ser entendida de maneira simples, mas que também possa ser vivenciada para além de letra, melodia e harmonia – e, talvez, para além mesmo da própria ideia de que a música em algum momento venha a estar “pronta”.

A canção analítica de Jorge Drexler

Ouvi o uruguaio Jorge Drexler pela primeira vez na época do discaço Eco, de 2004, cuja faixa-título me faz viajar desde sempre. Isso foi pouco antes dele ter vencido o Oscar de melhor canção original por “Al otro lado del río”, da trilha sonora de Diários de Motocicleta (também por isso um filme de tremendo apelo emocional pra mim).

O que instiga em Jorge Drexler não é “apenas” a incrível qualidade e consistência de tudo o que faz, mas também a forma como suas canções e toda a sua obra trazem em si um senso de fluxo constante. Me pergunto até que ponto os rumos do seu trabalho são influenciados por toda a conversa que se vem tendo, pelo menos desde o início do século, sobre o fim da canção. Como disse Chico Buarque numa entrevista de 2004: “Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado”, pra depois fazer a ressalva de que “às vezes acordo com a tendência de acreditar nisso, outras não”.

Enquanto Chico, em parte por ser vinte anos mais velho, se diz resignado a “refazer da melhor maneira possível” o que já fez, Drexler segue um caminho de maior diálogo com novas tendências e sonoridades. O melhor exemplo disso veio há três anos com a app n, um grupo de três canções que podem ser modificadas, cada uma de um jeito muito particular, à medida que vão sendo executadas. Como sei que essa definição não faz jus ao app, o vídeo abaixo, da primeira canção, ajuda a entender um pouco a brincadeira:

Como é possível ver, é o tipo de coisa que sequer se pode comercializar no formato de um álbum convencional, já que não faz sentido escolher apenas uma versão definitiva dentre as inúmeras (“n”) possibilidades apresentadas (nisso o seu projeto se difere consideravelmente de outras experiências em smartphones, como o Biophilia, de Björk).

Mas o interessante mesmo é que, com toda a sua veia analítica (até porque Drexler era médico antes de se dedicar à música), o que o uruguaio faz nunca deixa de ser canção. Como disse numa entrevista antes de lançar o app, seu prazer vem de “explorar os limites da canção como gênero” (e não fingir que esses limites não existem). Em outras palavras, continua sendo música que pode ser tocada só com voz e violão – embora nem sempre tão facilmente assim.

Pode parecer pouco, mas não é. Além de revitalizar a canção na sua imersão em diferentes meios, iniciativas como essa ajudam a fazer da música uma experiência realmente interativa pras novas gerações, que quase nem sabem o que é parar para ouvir um álbum do início ao fim. Esse é curiosamente mais um dos paradoxos destes tempos em que a música está cada vez mais presente aonde quer que se vá, mas por isso mesmo tem um papel cada vez mais difuso na vida da maioria das pessoas.

A música na política (e vice-versa)

Um diferencial considerável de ser um músico no Brasil hoje em dia é que, apesar de toda a agitação política, não há (ainda) uma patrulha, nem de um lado nem de outro, para que se faça “música engajada”. Os que acreditam que o artista deva ser um cronista do seu tempo provavelmente vão lamentar essa postura, e entendê-la com um sinal de uma geração exageradamente individualista.

Sinceramente, não vejo esse tipo de coisa como motivo nem de celebração, nem de preocupação. Quer queira ou não, um artista nunca vai escapar de falar sobre a época e o lugar em que vive, pois são estas duas variáveis que definem os ambientes culturais, sociais e políticos em que interage. Logo, a própria escolha de não falar diretamente sobre política parte de uma vivência subordinada a diversos fatores, que por sua vez nos levam a diferentes valores a respeito do papel da arte em geral.

Ao entrar nesse assunto é difícil não lembrar de Chico Buarque, com certeza o compositor brasileiro mais comumente identificado com essa vertente mais “política”. Não vou entrar na questão do que aconteceu aqui no Rio de Janeiro há duas semanas, porque aquela foi uma cobrança em relação à sua postura enquanto cidadão, e não enquanto músico. O que me interessa aqui é ressaltar que muito do engajamento pelo qual ele ficou conhecido ao longo dos anos veio justamente da sua necessidade de afirmação enquanto artista.

Tendo em vista a pessoa que ele já era, com o seu nível de instrução muito acima da média (é sempre bom lembrar que ele é filho de Sérgio Buarque, um dos maiores historiadores do Brasil), ou ele cantava aquelas coisas, ou ele se calava. Difícil imaginar um universo paralelo em que ele ignorasse o que acontecia pra cantar algo como “Eu Te Amo, Meu Brasil”. Daí a sua relação com a censura da época: “Eles me encheram o saco, mas também enchi muito o saco deles”.

Ao mesmo tempo, Chico sempre foi bem consciente do risco que é reduzir um artista a suas posições políticas, ou mesmo à ideia de que a música esteja subordinada a alguma ideologia. Como ele teria dito em 1978: “Acho absurda a mania de cobrar do artista um engajamento político sobre sua arte”. Por outro lado, não é nenhum espanto que ele tenha uma posição política que se reflita, ainda que de maneira sutil, nas suas letras.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

No entanto, aí entra outro ponto que o diferencia de muitos outros músicos que fazem/fizeram “música de protesto”: a sua consciência a respeito de suas próprias limitações para falar de forma mais aprofundada sobre essas questões. Da mesma forma que nunca se furtou em declarar suas preferências (sabendo a influência que tem enquanto figura pública), Chico nunca tentou se vender como uma autoridade nesse tipo de assunto, e sim como um homem extremamente interessado, esclarecido e sensível à dinâmica política como um todo.

Pra que esse texto não termine como sendo apenas sobre Chico, trago a visão de um amigo seu (e que também sabe o que é esse tipo de patrulha), o cantautor cubano Silvio Rodríguez: “Sou dos que acredita que todas as canções são políticas, porque todas propõem algo, ainda que seja trivial. Um pecado poderia consistir em fazer muito óbvios alguns critérios, porque então poderia ocorrer que nos veriam mais como ideólogos do que como artistas”.

Nessas linhas, que Chico certamente assinaria embaixo, está toda a questão para quem faz arte e se interessa por política, que é a de, ao mesmo tempo, reconhecer os limites entre as duas esferas sem fazer disso uma razão para se conformar ou se render ao niilismo.