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Henrí Galvão

20 de dezembro de 2017

Uma coisa que se enfatiza muito no budismo é o valor das coisas mais prosaicas da vida.

Ou, como diz a monja Yvonette Silva Gonçalves logo no início do seu famoso texto “Desfazendo equívocos”:

Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.

[ATUALIZAÇÃO: essa música foi relançada em fevereiro de 2018]

Letra:

Lamento te decepcionar, meu bem
Mas não tem nada aqui de tão especial
Não vou nunca deixar de estar aquém
Do seu inventário sentimental

Não quero mais insistir na ilusão
De que a gente ainda tem tempo
Esse tal de tempo é uma invenção
Que eu nem finjo que entendo

Me contentaria em me sentir capaz
De chegar ao ponto de te segredar
Que o sublime nunca é sublime demais
E só é livre quem é vulgar

Por que a gente não para de colocar
A carroça na frente dos bois?
Tem tanta poeira pra levantar
Deixa o resto pra depois

Autoconsciência vs. autoconhecimento

Pra além de qualquer sonoridade mais específica, gosto de dizer que o que faço é música intrapessoal. Como explico melhor aqui, isso é simplesmente o meu jeito de valorizar o papel da música como um caminho de autoconsciência.

E já que o termo “autoconsciência”[1] é muitas vezes entendido como sinônimo de “autoconhecimento”, acho importante ressaltar a diferença entre as duas palavras, e por que escolho usar a primeira e evito usar a segunda.

Antes de falar em autoconsciência, talvez seja mais fácil começar dizendo que dou preferência a este termo por uma razão muito simples: não me sinto muito qualificado pra dizer até que ponto existe algo pra se “conhecer” quando falamos de nós mesmos.

Sendo assim, falar em autoconhecimento talvez seja não só uma tarefa incrivelmente complicada e presunçosa; talvez seja até mesmo uma busca completamente ilusória.

Quem está familiarizado com o budismo deve se lembrar que isso tem muito a ver com o conceito de anatta, que é justamente a noção de que não há um “eu” permanente, ou uma “essência”. O psiquiatra Neel Burton coloca isso da seguinte forma:

se você tentar se tornar consciente de si mesmo, você vai apenas se tornar consciente de tal e tal sentimento, tal e tal percepção, ou tal e tal pensamento, mas nunca de um self próprio, central.

Em poucas palavras, aí está o principal contraste entre autoconsciência e autoconhecimento. E o fato é que estudos, experimentos e descobertas recentes da neurociência dão cada vez mais fundamento a essa perspectiva, o que dificulta e muito qualquer crença num eu não divisível.

Sam Harris, por exemplo, explora esse tema à exaustão no seu livro Despertar, onde se esforça ao máximo pra mostrar como é ter uma vida espiritual sem, necessariamente, ter um sistema de crenças religiosas.

Isso é possível, segundo ele, a partir do momento em que se desenvolve um senso de espiritualidade que vá além da “sensação de ser um pensador de pensamentos no interior de nossa cabeça, a sensação de ser dono ou habitante de um corpo físico”.

Assim, não é à toa que Harris desce a lenha nas chamadas grandes religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo –, já que elas se baseiam inteiramente na própria existência da alma humana.

Da minha parte, sabendo que posso dar a impressão de estar encima do muro, quando falo em autoconsciência não estou necessariamente negando por completo a existência de uma essência, ou algo parecido.

Porque se alguém me perguntar nesse momento no que acredito, a resposta mais honesta que posso dar é: não sei.

Só o que sei é que, independente do que possa ou não haver dentro de cada um de nós, isso não nos impede de perceber que há sempre muito que explorar na nossa paisagem interior. O que, por si só, é motivo mais do que suficiente pra seguir nessa jornada.

 

 

[1] em inglês a tradução mais apropriada pra autoconsciência seria “self-awareness”, já que “self-consciousness” pode levar a interpretações ambíguas. O Google não faz essa distinção, traduzindo ambas as palavras como “autoconsciência”. Já o Linguee, quando traduz “self-conscious”, dá preferência ao termo “inseguro”, o que já é um avanço.