Arquivo da tag: Bono

O produto e a experiência

Uma característica em comum das grandes bandas de rock da segunda metade do século XX era o fato delas serem muito boas tanto em estúdio quando ao vivo. Ou seja, não só os seus álbuns estão entre os mais celebrados de todos os tempos, mas também os seus shows eram memoráveis e uma parte fundamental dos seus respectivos legados. Isso vale pros Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd e praticamente qualquer outro grande grupo dos anos 70 pra cá.

Ainda assim, sempre houve uma distinção entre o que se entendia como uma banda que tinha um perfil mais de estúdio, enquanto que outra faria mais sentido ao vivo. Essa distinção, aliás, não partia apenas dos fãs e da imprensa, mas também dos próprios músicos. É como se cada grupo, de acordo com as preferências de seus membros, sentisse que um desses dois meios (o estúdio ou o palco) era o seu verdadeiro habitat natural.

E acho que poucas bandas representam tão bem o time do “ao vivo” quanto o U2. Por mais que alguns dos seus álbuns sejam clássicos (vide The Joshua Tree e Achtung Baby), e mesmo que eles tenham se caracterizado por um grau de experimentação bem acima da média (principalmente nos anos 90), os irlandeses sempre foram também o epítome da banda que se garante mesmo é nos shows.

A razão pra isso é até simples de entender, graças ao carisma do Bono e à sua vontade desesperadora de se conectar com a audiência. Essa ânsia faz com que cada pessoa que vai assistir ao U2 se sinta parte de uma grande comunidade, que se reúne ali pra uma experiência de devoção quase religiosa. Isso é, com certeza, o mais próximo que o rock chega de um discurso de Martin Luther King (um dos ídolos do Bono, por sinal).

E acho que isso também ajuda a entender o porquê da banda ter se mantido relevante (e não apenas conhecida) por tanto tempo. Muito se fala das suas constantes reinvenções, tanto no visual quanto no som, e é claro que isso foi fundamental. Mas vale ressaltar o mérito do grupo de ter percebido que, com o tempo, qualquer distinção entre ser “de estúdio” ou “ao vivo” foi fazendo cada vez menos sentido.

E isso pelo seguinte motivo: as mudanças na indústria fonográfica na última década e meia fizeram com que o álbum perdesse o seu valor econômico como o carro-chefe de todo um modelo de negócios. Assim, a expansão dos grandes festivais de música (juntamente com o encarecimento dos ingressos) é na verdade apenas um sintoma de uma tendência muito maior que vem sendo bastante discutida por analistas da indústria de hoje: a predominância do serviço em relação ao produto.

Enquanto que a dificuldade de se piratear um LP favorecia a criação de um sentimento de escassez, hoje os downloads e o streaming são tão prevalentes que os fãs de menos de 30 anos se acostumaram a ter uma relação mais fluida e intangível com o consumo de música. Essa relação tem muito menos a ver com posse material (apesar dos adesivos, camisas etc.), e muito mais a ver com comunhão espiritual (daí a valorização dos meet-and-greets, sessões de autógrafos etc.).

Mas tem pelo menos um grande problema nessa história toda: a nova realidade dificultou bastante o lado dos artistas que têm pouco (ou nada) a oferecer no fator “ao vivo”. E é por isso que os serviços de streaming são alvo de muitas reclamações (justas ou não) em relação aos baixos valores de distribuição de direitos autorais e conexos aos compositores, produtores, músicos de apoio etc.

É uma situação que, apesar de todos os esforços que estão de fato sendo feitos, parece ainda longe de se resolver de forma satisfatória pra todos. E o pior é que, se essa questão não for ao menos atenuada de alguma forma, a consequência é que muita gente boa vai se sentir desencorajada a seguir o caminho da música. Como o próprio Bono observou muito bem há dois anos: “Cole Porter[1] não teria vendido camisas. Cole Porter não estava vindo pra um estádio perto de você”.

 

[1] Cole Porter foi um compositor americano, autor de clássicos como “Night and Day” e “I’ve Got You Under My Skin”

Anúncios

O que representa a canção pro compositor

Quando se fala de um compositor e as suas canções, o grande clichê é dizer que, pra ele, cada uma delas seria como um filho seu. Eu mesmo já me peguei dizendo algo parecido sobre minhas primeiras músicas, e percebi que isso pode levar a uma relação de posse completamente falsa, além de dificultar uma avaliação minimante objetiva sobre as suas qualidades (afinal, é difícil pra um pai ter uma visão imparcial sobre a sua prole).

Além disso, à medida que fui compondo mais percebi que ver uma canção como um filho subentende uma relação de autoridade que também não poderia estar mais longe da verdade. É por isso que foi fantástico o que fez o trovador cubano Silvio Rodríguez, quando escreveu uma canção a respeito das suas canções e resolveu chamá-la de “Compañera”. Essa foi uma forma muito elegante de reconhecer, como ele mesmo diz, que falar em paternidade seria não só injusto, mas também uma grande mentira.

É uma abordagem linda e instigante, mas não tenho dúvidas de que é possível ir ainda mais longe. No caso, quem o fez foi Bono do U2, que subverteu completamente essa relação ao dizer que as canções são na verdade como pais pra um compositor. Nas suas palavras: “Elas te dizem o que fazer, elas te dizem como se comportar, elas te dizem como se comportar mal, como se vestir. Tudo que você faz é direcionado pelas canções”.

Bono, mais do que ninguém, é ciente do senso de responsabilidade que as suas músicas lhe dão. Ele sabe que não pode se dar ao luxo de ser cínico, a não ser que resolva criar um alter ego (como, aliás, já fez), deixando claro pra todos que o artista Bono está muito longe de Paul Hewson, um cidadão irlandês de 55 anos. Por outro lado, ele sabe também que isso limitaria demais o alcance da sua mensagem.

De qualquer forma, é bom ressaltar também que a canção não faz do cantor uma pessoa necessariamente melhor (seja lá o que isso signifique), ou mesmo mais coerente. Se assim fosse, os cantores românticos seriam as pessoas mais amorosas do mundo, quando na verdade muitos deles não parecem seguir esses ideais no campo pessoal (é claro que estou falando aqui dos que cantam músicas românticas porque realmente acreditam no que fazem, e não apenas pra fazer sucesso).

Daí vem uma última observação, de algo que talvez muitas pessoas não percebam: quando um compositor canta sobre qualquer ideia, ele está na maior parte das vezes apontando o dedo, em primeiro lugar, pra si mesmo. É uma forma que ele encontra de se lembrar da importância de algo que de outra maneira passaria batido no meio da loucura quotidiana. É por isso que um cantor é sempre, de uma forma ou de outra, um missionário de si mesmo, e a música é o mais próximo que ele tem de uma oração – ou, melhor dizendo, um sermão.

Performance e identidade

Partindo da entrevista de Bob Dylan para a revista da AARP, que mencionei na semana passada, quero destacar uma questão que ele levanta, e que considero de fundamental importância para qualquer músico que toque ao vivo: a forma com que um artista acessa seus sentimentos na hora de cantar. Nas palavras de Dylan: “Um ator está fingindo ser outra pessoa, mas um cantor não. Ele não está se escondendo atrás de nada”.

Me atrevo a discordar, e dizer que é perfeitamente possível (até certo ponto) para um cantor se “esconder” num personagem, exatamente como um ator faria numa peça. Isso vale não só para os quatro caras no Kiss, mas também para cantores de pop-rock que criaram diferentes alter egos, como David Bowie (que levou essa brincadeira a um outro nível), Bono, Madonna, Beyoncé etc. Inclusive os próprios Beatles na época de Sgt. Pepper’s poderiam ser incluídos nessa lista, não fosse o fato de que àquela altura eles já não se apresentavam mais ao vivo.

De qualquer forma, é compreensível que Dylan pense o contrário. Por ser ele um cantor-compositor na melhor tradição da música folk, espera-se que tudo o que ele cante seja uma demonstração de emoções genuínas, e ele sabe bem disso. Na música pop, por outro lado, esse tipo de exigência não se aplica.

Aliás, é possível ir além e dizer que, justamente porque no pop tende a haver uma maior dissociação entre a pessoa e a persona do artista, este tende a se mostrar mais confortável em estar no palco e apresentar um espetáculo de fato. Senão, vejamos o que Beyoncé tem a dizer quanto à sua persona Sasha Fierce: “Eu criei um alter ego; coisas que eu faço numa performance que eu nunca faria normalmente”.

Deixando de lado todas as teorias conspiratórias a esse respeito, acredito que essa pode ser uma referência interessante para músicos de outros gêneros, principalmente os de folk, trova e cantautores em geral (dentre os quais me incluo até certo ponto). A fim de preservar uma discutível “autenticidade”, não é nenhuma surpresa que muitos shows destes gêneros sejam considerados entediantes, ou, na melhor das hipóteses, previsíveis.

É óbvio que esse tipo de atitude não precisa ser levada a extremos (ninguém espera que o Chico Buarque vá levantar os braços e agitar o público como se fosse a Ivete Sangalo). É só uma questão de perceber que, a partir do momento em que está num palco, um músico se encontra numa dimensão diferente e, com ou sem um alter ego explícito, tem à sua disposição atitudes que podem tornar a experiência muito mais interessante para o público.