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Nunca perseguí la gloria…

Nunca perseguí la gloria
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción

Esses versos do poeta andaluz Antonio Machado (que depois foram musicados brilhantemente pelo catalão Joan Manuel Serrat) ficaram rondando a minha cabeça enquanto lia um artigo recente do americano Chuck Klosterman para o New York Times, chamado “Which Rock Star Will Historians of the Future Remember?”.

Ou seja, Klosterman imagina um cenário de daqui a centenas de anos, quando o rock provavelmente não vai ser muito mais que um objeto de estudo histórico, e pergunta que músico vai ser lembrado como a síntese do gênero. Não vou dizer a qual conclusão ele chega, primeiro, porque acho que vale a pena a leitura do texto completo; segundo, porque minha intenção aqui é continuar essa discussão com outra pergunta: isso faz realmente diferença?

Antes de mais nada (e independente de fazer alguma diferença ou não), é importante ressaltar que esse desejo de ser lembrado pra posteridade é bastante perigoso. Tão perigoso que pode descambar pro que Paulo Coelho chama de “síndrome de Van Gogh” – ou seja, um artista pode achar que depois da morte é que virá o reconhecimento (assim como aconteceu com o pintor holandês).

Talvez seja possível argumentar que Paulo fala isso porque sabe que, se for depender dos críticos, é pouco provável que o seu legado sobreviva muitos anos depois de sua morte. Mas também é possível que ele não se importe muito com essas coisas, e com muita propriedade. Afinal, o alcance (e, por que não dizer, a influência) da sua obra é algo sem precedentes pra um escritor brasileiro (mesmo que muitos lhe achem um escritor de meia tigela).

Da minha parte, acredito realmente que a verdadeira liberdade pro ser humano está justamente em perseguir as coisas que são mais relevantes pra si próprio. Se elas são ou não relevantes pros outros, isso vai depender do quanto essa pessoa está vivendo de acordo com o seu propósito, e até que ponto ela consegue expressar esse propósito com clareza e competência.

E é aí que entra a citação de Machado com a qual comecei esse texto. A questão da transitoriedade das coisas é um tema bem recorrente nos seus poemas, e, paradoxalmente, parte do que torna a sua obra tão sedutora até hoje é o seu desprezo por essa suposta “imortalidade” artística. Logo, não é de espantar que a arte que mais perdura seja quase sempre aquela que é, acima de tudo, relevante pro seu próprio tempo.

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O melhor conselho que já ouvi

Quando comecei a ler mais sobre desenvolvimento pessoal e espiritualidade, me deparei com vários autores que ressaltavam, cada um a seu modo, a importância de se ter um senso de propósito na vida. Frequentemente essa ideia me vinha (não sem alguma razão) atrelada com a noção de se “encontrar” esse propósito (mais ou menos como um dentista que procura por tártaro entre os dentes). Essa me parecia uma tarefa de uma densidade absurda, visto que se fazia necessário cada vez mais introspecção para finalmente chegar a essa “resposta mágica”.

Foi então que me deparei com um artigo do autor e empreendedor norte-americano Jonathan Fields chamado “What If I Choose Wrong?”. Nele, Fields mencionava a entrevista que fez, como parte de seu Good Life Project, com o renomado guru do marketing Seth Godin. A resposta de Godin para a pergunta título do texto (“E se eu escolher errado?”), e que coincide com a resposta que o próprio Fields frequentemente dá, é bem simples: não importa.

O simples fato de se escolher é que faz com que um caminho se torne “o” caminho. Em outras palavras, ação traz clareza, muito além de qualquer noção preconcebida do que seria certo ou errado. Falando assim parece tudo muito fácil, mas posso garantir que isso foi algo que demorei a entender, e que desde então me tirou um peso enorme para voltar a vivenciar e experimentar com diferentes possibilidades na vida. Dessa vez, porém, com a diferença de que pude fazer muitas coisas de forma bem mais consciente do que antes.

É claro que a capacidade para introspecção é importante. Afinal, pro que quer que se faça o impacto e a abrangência é muito maior quando há um fio condutor por trás. Num outro texto, até como forma de levar isso em conta, Fields faz duas ressalvas para que uma determinada escolha faça mesmo a diferença: o comprometimento em se estar presente e engajado; e uma atitude de curiosidade e abertura, mantendo a mente de um estudante.

Curiosamente, depois que a “ficha caiu” pra mim foi que passei a reparar cada vez mais em outras pessoas que disseram a mesma coisa de maneiras diferentes. O fato é que as palavras de Fields não eram necessariamente melhores do que as de outros, eram apenas o que eu precisava naquele momento. E depois que algo se torna claro é possível olhar com outros olhos o que já estava ali, bastante evidente, ao ponto em que me pergunto como isso pôde me ter passado despercebido antes. Afinal, um dos que já havia resumido tudo em poucas palavras – numa citação repetida à exaustão – foi o poeta espanhol Antonio Machado: “Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar”.