Sobe e desce

No seu clássico Rápido e Devagar, Daniel Kahneman fala de como o pensamento humano opera de duas formas.

Uma é aquela mais rápida e intuitiva, que ele chama de Sistema 1; outra é aquela mais lenta, deliberada – o Sistema 2.

Esses números talvez sirvam pra um livro de Psicologia, mas não sei se é o tipo de coisa que eu colocaria numa música.

Por isso gosto mais dos termos que Daniel Goleman usa: mente “ascendente”, ao invés de Sistema 1; e “descendente”, ao invés de Sistema 2.

A partir daí, dá pra imaginar uma conversa entre os dois?

Letra:

Se tento medir as minhas palavras
É porque ainda acho que não digo nada
Que valha o silêncio de quem me ouve

Mas sinto um impulso quase irresistível
De continuar flertando com o perigo
Como um animal sem medo do açoite

Então vem e me diz o que há pra saber
Tenta me alertar e me convencer
Que às vezes vale a pena se perguntar por quê

Eu sei que você só quer o meu bem
E quero poder te agradecer também
Por não me deixar saltar desse trem

Se quiser provar da minha insanidade
Me deixa sozinho de verdade
Não tem nada mais fácil que criar alarde

É uma perdição ter na ponta da língua
A solução pra qualquer intriga
A chave mágica pra qualquer saída

Mas se eu fosse ao menos escutar os sinais
Aprenderia a olhar pra trás
Sem desperdiçar nem um dia a mais
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À deriva

Um bom tempo atrás li um texto (não me lembro onde) em que o autor falava como muitas vezes a gente evita encarar os nossos próprios sentimentos de frente.

E comparava esse processo com o de um navio em circunavegação.

Se não lembro bem do texto, pelo menos a ideia continuou comigo:

Letra:

Pra além da dor e do prazer
Não tenho muito o que dizer
Se alguma coisa não depende
De ser corpo, mente ou coração
Talvez seja demais
Até pra minha imaginação

O que me impede de aprender
De ir de A até Z?
Será que os meus cinco sentidos
Fazem o melhor que podem?
De repente atrás das retinas
Tem uma fonte mais cristalina
Que não se prende a qualquer convenção
Nem procura uma circunavegação
Pra alguma rota mais segura
Que negue a única loucura
Que não dá margem pra apelação

Pra quem já sabe que essa viagem
Depende só de querer
Não vai fazer sentido
Perguntar a hora de ir embora

E se a canoa virar
Olê, olê, olá
Como é quase certo, aliás
Prometo me segurar
Pra não culpar o azar
Nem parar pra pensar demais

De novo Nassim Taleb…

Duas semanas atrás, compartilhei uma música que foi inspirada pelo livro A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb.

Essa foi uma leitura que me impactou tanto que me levou a outro livro seu, Antifrágil.

Não tenho muito o que dizer a respeito, a não ser que esse livro fez o que parecia inimaginável: me impactou ainda mais que o anterior.

Letra:

Pra que forçar a barra pra estar em paz
Se a gente nem precisa chegar a um consenso?
Tem coisa mais bonita
Que se abrir pra possibilidade
De concordar em discordar?

Nada do que você me disser
Vai me afetar tanto quanto o seu silêncio
E por mais estranho que possa parecer
A sua voz me soa até melhor
Na resistência do vento

Imagina se fosse o contrário
Quem poderia se dar ao luxo
De um amor tão delicado?

Que tal começar pelo que a gente sente?
Se não funcionar, sempre vai ter outro jeito
Quem sabe isso vira até um novo hobby
Ao invés de continuar sendo só um segredo

Caçando cisnes negros

Um dos livros que mais me impactou nos últimos tempos foi A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb.

Pra quem nunca leu, dá pra resumir dizendo que ele fala sobre a nossa dificuldade (ou, melhor dizendo, incapacidade) de prever e lidar com eventos altamente improváveis – os cisnes negros.

Que podem vir tanto para o bem quanto para o mal.

E uma armadilha é justamente a de querer perseguir determinados cisnes negros – uma busca que talvez seja ilusória na maior parte do tempo.

Esse é com certeza o caso de muitos artistas (é só ler o capítulo 7 do livro, que por si só já é um soco no estômago).

E também era – de certa forma, ainda é – o meu caso:

Letra:

Um verso desbanca todas as intrigas
Qualquer que seja o ponto de partida
Ou a promessa que não foi cumprida
Por um impulso que não se soube largar

Todo sonho que atravessa essa fronteira
Já justifica uma vida inteira
De botar mais lenha na fogueira
Sem saber qual o limite da imaginação
Ou o que é certo e o que é só especulação

A gente cresce e desmerece
Todas as coisas que fazem perseverar
Mas de que adianta ficar
O tempo todo de olho no placar?

Às vezes acho que todo cisne é negro
E quanto mais me arrisco, mais eu vejo
Que o mundo é um labirinto de espelhos
Mostrando o infinito fora do lugar

Talvez nunca chegue o dia
Em que dê pra aceitar
Que sempre paga o maior preço
Quem tenta ver logo no começo o fim

A solidão nossa de cada dia

Alceu Valença tem uma música em que diz que “a solidão é fera, a solidão devora”.

Realmente, ela pode ser muita dura às vezes.

Mas outras vezes talvez ela seja algo mais que um mal necessário:

Letra:

Se eu fosse um mágico
Me esconderia bem no fundo da cartola
Quando acabasse o show

Se eu fosse um náufrago
Procuraria a ilha mais distante
De tudo o que há

E se eu fosse um rei
Não acho que enjoaria
De ir deitar todas as noites
Na minha cama vazia

Se eu fosse um místico
Que maravilha seria estar entregue
Ao mistério total

Se eu fosse o último a sair
Depois de apagar as luzes
Ainda daria um jeito de voltar

E se eu fosse um deus
Na certa até me guardaria
Pra um instante bem sutil
Como um por do sol que ninguém viu