Peso pesado

Qualquer pessoa que busca estar alinhada com seu propósito é tentada a seguir um caminho que promete ser mais fácil.

Mas, como diria um dos meus heróis, Leonard Cohen, talvez valha mais a pena trabalhar duro.

Letra:

Se um dia fizerem questão do meu veredito
Fica tranquilo que na hora eu dou um jeito
Até lá, só o que sei
É que não vou perder meu tempo
Exorcizando cada incerteza
Como se fosse um cão sardento

Do mesmo jeito que eu vim, eu vou
Não tenho nem nunca tive plano de voo
Por mais que corra o risco
De não ser levado a sério
Por quem ainda se acha muito esperto
Pra admitir que a vida é todo esse mistério

E mesmo quem decide o que é importante
Nunca é capaz de dizer quando um diamante
Vai emergir do magma de um vulcão

Por isso, só ofereço suor e trabalho
Quem quiser que procure um atalho
Não vou tentar cortar caminho
Depois de tanto jogo de cena
Me considero um cara de muita sorte
Por sofrer por algo que vale a pena
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Pacto

Um dos maiores clichês na arte é aquela ideia de que pra se criar é preciso sofrer.

Sinceramente, na maioria das vezes acho que esse tipo de mentalidade acaba complicando as coisas além do necessário.

Mas o fato é que, como todo clichê, também este tem um fundo de verdade:

Letra:

Isso de trocar dor por entendimento
Nunca vai me deixar em paz
Cada passo à frente
É como se fossem dois passos pra trás
E até sonhar já é demais

Faço o que posso sem saber até que ponto
Posso escolher o que sentir
E assim vou martelando
Procurando um novo elixir
Que eu saiba ao menos repartir

Falta a coragem de brincar com fogo até o fim
E mesmo que o fundo do poço se esconda de mim
Como seguir o tal do caminho do meio
Se eu nunca sofro por inteiro?

Como se não bastassem as oportunidades
Que eu não soube aproveitar
É um tormento ver como ainda hoje me falta ar
Pra não me deixar dispersar

Vai ser preciso terminar por onde comecei
E ter que passar pelos mesmos erros outra vez
Pra admitir que nada do que eu fizer
Vai me dar um grama de fé?

Não quero a liberdade de ocupar o espaço
Que me ensinaram a ocupar
Quero abrir uma brecha
Onde nem a sorte ou o azar
Vão conseguir me perturbar

Sobe e desce

No seu clássico Rápido e Devagar, Daniel Kahneman fala de como o pensamento humano opera de duas formas.

Uma é aquela mais rápida e intuitiva, que ele chama de Sistema 1; outra é aquela mais lenta, deliberada – o Sistema 2.

Esses números talvez sirvam pra um livro de Psicologia, mas não sei se é o tipo de coisa que eu colocaria numa música.

Por isso gosto mais dos termos que Daniel Goleman usa: mente “ascendente”, ao invés de Sistema 1; e “descendente”, ao invés de Sistema 2.

A partir daí, dá pra imaginar uma conversa entre os dois?

Letra:

Se tento medir as minhas palavras
É porque ainda acho que não digo nada
Que valha o silêncio de quem me ouve

Mas sinto um impulso quase irresistível
De continuar flertando com o perigo
Como um animal sem medo do açoite

Então vem e me diz o que há pra saber
Tenta me alertar e me convencer
Que às vezes vale a pena se perguntar por quê

Eu sei que você só quer o meu bem
E quero poder te agradecer também
Por não me deixar saltar desse trem

Se quiser provar da minha insanidade
Me deixa sozinho de verdade
Não tem nada mais fácil que criar alarde

É uma perdição ter na ponta da língua
A solução pra qualquer intriga
A chave mágica pra qualquer saída

Mas se eu fosse ao menos escutar os sinais
Aprenderia a olhar pra trás
Sem desperdiçar nem um dia a mais

À deriva

Um bom tempo atrás li um texto (não me lembro onde) em que o autor falava como muitas vezes a gente evita encarar os nossos próprios sentimentos de frente.

E comparava esse processo com o de um navio em circunavegação.

Se não lembro bem do texto, pelo menos a ideia continuou comigo:

Letra:

Pra além da dor e do prazer
Não tenho muito o que dizer
Se alguma coisa não depende
De ser corpo, mente ou coração
Talvez seja demais
Até pra minha imaginação

O que me impede de aprender
De ir de A até Z?
Será que os meus cinco sentidos
Fazem o melhor que podem?
De repente atrás das retinas
Tem uma fonte mais cristalina
Que não se prende a qualquer convenção
Nem procura uma circunavegação
Pra alguma rota mais segura
Que negue a única loucura
Que não dá margem pra apelação

Pra quem já sabe que essa viagem
Depende só de querer
Não vai fazer sentido
Perguntar a hora de ir embora

E se a canoa virar
Olê, olê, olá
Como é quase certo, aliás
Prometo me segurar
Pra não culpar o azar
Nem parar pra pensar demais

De novo Nassim Taleb…

Duas semanas atrás, compartilhei uma música que foi inspirada pelo livro A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb.

Essa foi uma leitura que me impactou tanto que me levou a outro livro seu, Antifrágil.

Não tenho muito o que dizer a respeito, a não ser que esse livro fez o que parecia inimaginável: me impactou ainda mais que o anterior.

Letra:

Pra que forçar a barra pra estar em paz
Se a gente nem precisa chegar a um consenso?
Tem coisa mais bonita
Que se abrir pra possibilidade
De concordar em discordar?

Nada do que você me disser
Vai me afetar tanto quanto o seu silêncio
E por mais estranho que possa parecer
A sua voz me soa até melhor
Na resistência do vento

Imagina se fosse o contrário
Quem poderia se dar ao luxo
De um amor tão delicado?

Que tal começar pelo que a gente sente?
Se não funcionar, sempre vai ter outro jeito
Quem sabe isso vira até um novo hobby
Ao invés de continuar sendo só um segredo