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Sobre a playlist impermanente

The Life of PabloHá pouco mais de um ano, depois de Kanye West lançar The Life of Pablo como um álbum exclusivamente digital que estaria sujeito a constantes alterações, escrevi um texto aqui no blog chamado “O princípio do álbum impermanente”.

Na ocasião, comentei que talvez esse tipo de coisa viesse a se tornar prática comum na indústria, e mencionei inclusive uma ótima análise feita por Bruce Houghton, editor do blog de música e tecnologia Hypebot.

No seu texto, Houghton comenta que deixar um álbum em aberto faz com que ele deixe de ser uma “afirmação” e passe a ser uma “conversa”, levando em conta que pelo menos algumas das alterações que Kanye fez tinham sido influenciadas pelo feedback do seu próprio público.

Da minha parte, embora tenha certa resistência à ideia de me abrir a sugestões dos ouvintes no que se refere ao lado estritamente musical do meu trabalho (já até escrevi sobre isso, inclusive), não posso negar que essa seja uma das possibilidades mais interessantes levantadas pela tecnologia do streaming.

No entanto, como esse tipo de coisa também requer certa “bala na agulha” (leia-se: o acesso contínuo a um bom material de gravação e produção de áudio, que permita que o artista mexa nas suas músicas sem perda de qualidade), deixei isso como uma ideia que, quem sabe, eu poderia explorar mais pra frente.

More LifeAté que dois meses atrás outro rapper americano, Drake, lançou um projeto chamado More Life. E, ao invés de chamar essa nova coleção de músicas de álbum ou até mesmo de mixtape (como é comum no universo do hip hop), ele decidiu por considerá-la como uma playlist.

Com isso, o que ele está basicamente dizendo é que esse novo trabalho não tem a pretensão de ser tão “sério” quanto um álbum. Mas, ao mesmo tempo, talvez também não dê pra dizer que seja um projeto tão “despretensioso” quanto uma mixtape.

Foi aí que percebi que, dentro das minhas possibilidades, eu podia combinar as abordagens de Kanye e Drake pra lançar as minhas músicas mais recentes sem necessariamente depender de todo o investimento de tempo e dinheiro envolvidos num lançamento mais tradicional.

Assim surgiu a playlist impermanente, que é, acima de tudo, uma forma de refletir o meu atual momento levando em conta algo que sempre busco ter em mente: a própria natureza de transitoriedade e transformação da vida.

Em outras palavras, é uma forma de continuar contando a minha história sem precisar (ainda) colocar um ponto final:

A inteligência artificial na música

Data (Jornada nas Estrelas)No seu clássico livro Inteligência Emocional, o psicólogo norte-americano Daniel Goleman cita o androide Data, de Jornada nas Estrelas, como um exemplo do quão limitante é pensar na mente humana como se ela fosse um grande computador – sem levar em conta, portanto, a influência das emoções nos pensamentos.

No caso de Data, isso se refletiria da seguinte maneira:

Na falta do senso lírico que traz o sentimento, Data pode tocar música ou escrever poesia com virtuosismo técnico, mas sem paixão. O que demonstra o anseio de Data por sentir anseio é que faltam inteiramente à fria visão cognitiva os valores mais elevados do coração humano — fé, esperança, devoção, amor.

Vale lembrar que Inteligência Emocional foi publicado pela primeira vez há mais de 20 anos. Naquela época, aparentemente ainda era possível falar em robôs sem que se pensasse nas implicações da inteligência artificial na sociedade como um todo.

Hoje em dia, por outro lado, é comum que a simples menção desse assunto considere também os riscos de um cenário apocalíptico em que, um dia, as máquinas podem fazer com que o ser humano se torne cada vez mais obsoleto (mais ou menos como em Matrix).

E, nesse contexto em que se abrem tantas frentes de atuação, não foi bem uma surpresa saber que o projeto Magenta do Google divulgou ano passado a sua primeira música feita totalmente por inteligência artificial (não só eles, aliás).

A música em si é bem simples, mas acaba trazendo a pergunta: será que num futuro não tão distante o músico – seja ele compositor, intérprete etc. – corre o risco de ter que passar a competir com as máquinas pela atenção das pessoas?

A princípio, não. Como já comentei aqui uma vez, ouvir música é uma experiência subjetiva. O simples fato de saber que uma música, por melhor que seja, foi feita por uma máquina, já faz com que a apreciação estética tenha um impacto bem menor do que poderia.

Afinal, pra maior parte das pessoas, muito da importância que se dá à música vem justamente de (inconscientemente) partirmos do pressuposto de que o artista de alguma forma compartilha de vivências e valores parecidos com os nossos.

É claro que, se acontecer de uma máquina compor e interpretar uma música e sermos levados a crer que todo o processo foi feito por seres humanos, aí então a coisa muda completamente de figura (talvez isso já esteja até acontecendo, quem sabe?).

E, pra terminar, vale aqui mais uma consideração: talvez no futuro os robôs cheguem a um nível de sofisticação tão grande que eles mesmos acreditem ser, ou pelo menos “se sintam”, humanos (como David, do filme A.I. – Inteligência Artificial).

Nesse dia, provavelmente já teremos chegado a um ponto em que um robô será visto como nosso semelhante. Logo, uma música feita por uma dessas máquinas vai ter grandes chances de tocar o coração das pessoas sem nenhuma necessidade de se fingir que foi feita por outra pessoa.

Até que esse dia chegue, no entanto, a música – e a arte de um modo geral – vai provavelmente continuar sendo a última fronteira da inteligência artificial.