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Treinar pra quê?

Dia desses li um livro chamado Pense como um Artista, escrito por Will Gompertz (editor de arte da BBC). É uma leitura curta, mas ao mesmo tempo bastante instrutiva na medida em que mostra diferentes maneiras com que grandes artistas veem o mundo.

Um dos últimos capítulos é emblematicamente intitulado “Os artistas param para pensar”. Nele, Gompertz cita o francês Marcel Duchamp como um belo exemplo de alguém que soube cultivar uma visão abrangente da arte:

Tecnicamente falando, ele era muito limitado. Seu irmão era um escultor muito melhor, e a maioria dos outros pintores em Paris na época – inclusive Picasso e Matisse – era infinitamente mais talentosa. Neste sentido, Duchamp não era um grande artista. Sua genialidade foi aprender a pensar como um deles.

Mais adiante, Gompertz conclui:

Seu truque era passar mais tempo pensando que fazendo. Ele parava para pensar e refletir sobre a vida e a criatividade, e sobre como as coisas poderiam ser.

Inevitável não traçar um paralelo entre isso e o mito das 10.000 horas de trabalho.

Mas antes de entrar nessa questão quero deixar duas coisas bem claras. Primeiro: não nego a importância do trabalho duro e constante em qualquer coisa que uma pessoa se proponha a fazer (tanto é que a última música que subi pra playlist impermanente fala justamente disso).

Segundo: quando falo no “mito das 10.000 horas de trabalho”, não estou criticando essa ideia da forma com que foi exposta – e popularizada – por Malcolm Gladwell no seu best-seller Fora de Série.

Estou criticando, isso sim, a forma simplista com que muita gente pegou os exemplos dados por Gladwell pra concluir que milhares de horas praticando determinada atividade já seriam o suficiente pra alcançar a “maestria” (seja lá o que essa palavra signifique).

Nesse sentido, o exemplo de Duchamp é valioso não por necessariamente se opor ao trabalho duro, mas por demonstrar a importância das limitações no processo criativo.

Em outras palavras: certos limites – sejam eles circunstanciais ou deliberadamente autoimpostos – podem se tornar verdadeiras bênçãos. Mas, pra isso, é necessário criar a predisposição para imaginar caminhos diferentes do habitual.

Ou seja, é preciso parar para pensar.

Se não conseguirmos reconhecer isso em Duchamp, vai ser fácil demais taxá-lo simplesmente de “preguiçoso”.

Não por acaso, essa era a mesma acusação que Romário recebia pelo fato de não gostar de treinar e por praticamente não correr em campo.

Preguiçoso ou não, o fato é que qualquer um que viu o Baixinho jogando podia perceber que, quando recebia a bola, frequentemente ele não precisava olhar nem pro adversário, nem pra baliza pra saber o que fazer em seguida.

Isso porque, mais do que ninguém, ele sabia se antecipar aos adversários pra tomar decisões muito rápidas em espaços curtíssimos do campo. Não à toa Johan Cruijff (outro cara que sabia parar para pensar) lhe deu o apelido de “o gênio da grande área”.

Em ambos os casos, acredito que é mais instrutivo pensar neles não como “gênios preguiçosos”, e sim como pessoas que conseguiram fazer muito com muito pouco. Isso pode ser chamado simplesmente de engenhosidade, mas também não deixa de ser trabalho.

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Sobre os prazos pra criação

Dizem que uma vez perguntaram ao Tom Jobim qual seria a sua maior musa inspiradora, no que ele teria respondido sem pestanejar: “os prazos”. Considerando que esse é o mesmo homem que já teve Helô Pinheiro como musa, é o tipo de resposta que merece atenção.

Se formos pra pensar, um prazo é uma forma de ativar dois princípios psicológicos básicos: o da escassez (já que se reconhece que o tempo é limitado) e o do compromisso, ambos muito bem analisados por Robert Cialdini no seu clássico livro As Armas da Persuasão. Quando esse prazo está vinculado a um contrato assinado, então, tem-se uma situação de comprometimento extremo, já que os danos de não cumpri-lo não são só morais, como também econômicos.

Por isso, tenho certeza que Tom está longe de ser o primeiro artista a reconhecer esse estímulo. Uma das razões para muitos músicos que trabalham para o cinema (Ennio Morricone, John Williams etc.) serem tão prolíficos por décadas a fio é justamente o fato de escreverem quase sempre por encomenda, o que os ensina a trabalhar com um foco fora do comum.

Esse era o caso também de músicos populares de décadas atrás, quando as gravadoras estabeleciam contratos nos quais eles tinham de gravar um disco a cada doze meses, ou uma quantidade X de discos em 5 anos. Aliás, esse tipo de contrato explica também o lançamento de muitas coletâneas completamente fora de hora, assim como a gravação de discos inusitados. Mas aí já é outra história.

Voltando à questão do prazo ligado ao estímulo econômico, talvez seja por isso que, quanto mais consagrado é um músico, parece que maior é a tendência de que ele não cumpra os prazos pra lançar um álbum. Não é que “a fonte secou”, mas sim que gravar um disco acaba se tornando uma dentre várias outras atividades, muitas das quais dão a esse artista um retorno financeiro muito mais imediato. Essa tendência me parece nítida em nomes como U2, Metallica e Rolling Stones (banda que nem se dá mais ao trabalho de gravar um álbum antes de sair em turnê).

Existiria então algum motivo, pra além da necessidade financeira, pra que alguém em sã consciência queira se impor prazos pra criação? Com certeza. Uma maior produtividade é uma questão de aprendizado. Nada ajuda mais um músico a encontrar sua voz do que experimentar, mas sem esquecer de terminar o que começou. De pouco adianta um monte de ótimas ideias inacabadas no processo de amadurecimento de um artista.

Essa abordagem obviamente vai contra a concepção romântica da arte como um lugar misterioso e praticamente inacessível. Nesse sentido, me parece que os grandes pintores tinham um entendimento muito mais pragmático da situação. Já falei aqui de Van Gogh como um exemplo disso. O que dizer então de Picasso, que fez dezenas de milhares de quadros (isso sem falar nas esculturas)? Será que ele tinha a necessidade de produzir tanto assim? Provavelmente não. O que ele certamente tinha era o entendimento de que se manter comprometido com o processo é a melhor maneira de se explorar os limites da expressão artística.

Um termostato de produtividade

Em Os Segredos da Mente Milionária, T. Harv Eker diz que as crenças de cada pessoa em relação ao dinheiro formam uma espécie de “termostato financeiro”, que regula o quanto ela se mostra capaz de conquistar e manter. Partindo dessa mesma lógica, é de se perguntar se não seria possível aplicar esse conceito pra outros campos.

Tudo indica que sim. Recentemente, por exemplo, li um texto sensacional que de certa forma fala de algo que poderia ser chamado de “termostato afetivo” (embora o autor use o termo “frequência afetiva”), que engloba o quanto duas pessoas mantêm contato e se mostram disponíveis uma em relação à outra. Da minha parte, neste texto pretendo falar de uma outra área, esta bem mais mensurável: a da produtividade.

Primeiramente, vale ressaltar que isso fará muito mais sentido para quem já fez o trabalho inicial de ter em mente (mesmo que de forma não tão clara quanto gostaria) seus objetivos de curto, médio e longo prazo. Visto isso, é possível ter uma noção do quanto se consegue manter o foco neles, e quanto tempo é gasto desviando-se a atenção para tarefas menos alinhadas com o propósito escolhido. E, se estivermos falando do tempo gasto no computador, é nesse ponto que entra o plugin RescueTime.

Já escrevi sobre ele, mas em linhas gerais sua função é a seguinte: na versão gratuita, monitora todo o tempo que você passa online em cada site ou programa, cabendo a você (na maioria das vezes) classificar a produtividade de tal atividade. Na sua versão paga, você ainda tem a opção de classificar páginas específicas de cada site (e não apenas o site como um todo), além de monitorar também o tempo gasto off-line.

Depois de utilizá-lo por algum tempo você passa a perceber uma coisa: a sua produtividade tende a se manter em níveis bem constantes. A variação pode ser grande de um dia pro outro, mas é difícil não começar a reconhecer padrões quando se compara uma semana com a anterior (o que dizer então de um mês em relação ao outro!).

A coisa fica mais interessante quando, tendo uma noção da sua média de produtividade, você coloca a intenção de aumentá-la nem que seja um pouco. Me lembro que, quando comecei a utilizar o plugin, minha produtividade estava sempre na faixa dos 50%, o que me fez desejar que eu conseguisse me manter constantemente na casa dos 55%.

Levou um tempo pra alcançar isso, mas esse foi um jogo muito estimulante, pois me levou a repensar a minha aparente falta de tempo, e questionar quantas escolhas tidas como “inofensivas” acabavam por cobrar um preço alto. Pra me ajudar nessa brincadeira, utilizei (e ainda utilizo) outros plugins que também já mencionei aqui, como o StayFocusd e o Pocket.

Por fim, caso você esteja interessado em experimentar esse recurso, cabe um último aviso: é fundamental que você seja honesto consigo mesmo. Pode ser tentador classificar determinada atividade como “neutral”, quando no fundo você sabe bem que ela é, de fato, “distracting”. Qualquer alívio momentâneo com certeza não compensará a sua frustração no longo prazo.

5 ferramentas para um uso mais consciente do seu tempo

No meu primeiro post falei brevemente sobre a importância de se desenvolver clareza de propósito – algo que é, evidentemente, acima de tudo um trabalho em construção. Uma das consequências mais imediatas disso é que você passa a desenvolver uma relação bem diferente com o tempo, fruto do reconhecimento natural do fato de que se trata do bem mais escasso que temos.

Não preciso entrar na discussão sobre como a época em que vivemos é provavelmente a mais abundante em termos de estímulos externos, que por sua vez podem facilmente se tornar distrações – mesmo quando se tem uma boa noção do que se quer de fato. Por isso, apresento nesse post cinco plugins para Google Chrome que, cada um a seu modo, podem ajudar a minimizar o seu tempo gasto com assuntos menos relevantes e usufruir melhor da liberdade que é poder usar a internet de forma mais consciente.

RescueTime

Este foi o primeiro plugin que comecei a utilizar. Trata-se de uma ferramenta que, na sua função gratuita, permite que você veja quanto do seu tempo online foi gasto não só em cada site, mas também em cada programa aberto. A partir daí, você pode classificá-los por diferentes categorias e níveis de produtividade. É verdade que muitos dos sites a própria extensão já classifica, mas a maioria é deixada pra que você mesmo o faça (caso contrário, eles permanecem na posição neutra de “uncategorized”).

É claro que nem sempre as coisas são assim tão simples. Não é incomum que você esteja, por exemplo, no YouTube, mas assistindo algo que você consideraria produtivo. Para essas exceções, no entanto, é necessária a versão paga do plugin (além da sua paciência em de fato mexer no programa e classificar cada link específico). Nada disso torna essa ferramenta menos recomendável, principalmente pela perspectiva que te dá em relação a períodos mais longos de tempo (com gráficos de produtividade semanal, mensal etc.).

StayFocusd

Para utilizar esta ferramenta, a primeira coisa a se fazer é ter em mente, em linhas gerais, os sites nos quais você gostaria de passar menos tempo. Estes são adicionados na “lista negra” de “Blocked Sites”, e então se estabelece uma cota máxima por dia nessas páginas. Pra além disso, uma excelente função é a opção “Nuclear”, que te permite bloquear esses endereços (ou simplesmente toda a web) pelo tempo que você quiser. Tudo isso de forma completamente gratuita – e eles não pedem mais que uma doação de $10,00.

Sidekick

Sidekick é uma extensão que traz para o seu Gmail, Outlook e/ou Apple Mail as funções mais básicas dos serviços de e-mail marketing, ou seja: notificações sobre quem abriu as suas mensagens e quem clicou nos links que você incorporou no corpo do texto.

De todas as ferramentas dessa lista, essa é a que eu tenho mais dificuldade em lidar. Por algum motivo, não sou notificado a respeito dos cliques em links, e (desconfio) nem sempre sou notificado sobre quando alguém abre uma mensagem. Suponho que esses problemas venham a ser minimizados no futuro, ainda mais porque em breve eles trarão também a opção de agendar o envio de e-mails. De qualquer forma, é um plugin realmente fantástico, além dos seus colaboradores trazerem regularmente ótimas dicas de produtividade, gerenciamento de tempo etc.

Pocket

Comecei utilizando o Pocket mais por curiosidade, esperando não encontrar tanta utilidade assim nele. Em pouco tempo, no entanto, esse plugin me cativou e já posso considerá-lo como umas das ferramentas mais importantes que utilizo. Basicamente, sua função é a de salvar os links das páginas para que você as leia posteriormente.

Parece simples, e é. Aparentemente, não é nada muito diferente de se colocar um link entre os favoritos do seu navegador. No entanto, quando se tem uma enxurrada de páginas que se gostaria de visitar, faz-se muito útil ter uma ferramenta que lhe permita não só salvá-las, mas também categorizá-los da forma que você bem entender. Acaba sendo uma ótima maneira de se enxergar com os outros olhos aquele texto que anteontem parecia tão interessante, e ver que o mundo não vai acabar se ele esperar mais um pouco.

PasswordBox

Sendo para mim a ferramenta mais recente dessa lista, é aquela com a qual tenho menos intimidade e a que menos explorei para além da sua função básica, que é a de armazenar automaticamente as senhas de quantos sites você quiser – desde que, é claro, você não esqueça a senha mestra. 😉

Considerações finais

Como mencionei no início do texto, utilizo o Google Chrome, e nem todos os plugins mencionados são compatíveis com outros navegadores (ou até mesmo com outros sistemas operacionais além do Windows). Mas pode ter certeza de que existem muitas outras opções de plugins e programas com funções essencialmente similares, disponíveis para diversas configurações de sistema. De qualquer forma, espero que este texto tenha sido de alguma forma útil para, no menor dos casos, te fazer considerar melhor essas questões.