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O freudiano e o junguiano

No último post dessa série sobre David Byrne e o livro Como Funciona a Música, abordei a sua perspectiva em relação ao “culto à espontaneidade” na arte – a ideia de que a arte, a fim de ser autêntica, deveria ser/parecer tão natural quanto possível.

Como sugeri no final daquele texto, acredito que essa ideia tem grande relação com o atual paradigma (a meu ver, um tanto equivocado) sobre o que é arte (e, consequentemente, o que se imagina que ela deva expressar).

Pra começar a abordar esse assunto com alguma propriedade, trago mais uma citação do próprio Byrne:

Fazer música é como criar uma máquina que serve para desenterrar as emoções tanto dos intérpretes quanto dos ouvintes. Algumas pessoas acham essa ideia repulsiva, pois parece relegar o artista à posição de um sujeito embusteiro, manipulador e falso – uma espécie de onanista autojustificativo. Elas preferem encarar a música como algo que expressa emoções, em vez de gerá-las, e acreditar que o artista sempre tem algo a dizer. […]

Por hoje não quero explorar tanto essa dicotomia entre “gerar” e “expressar” emoções. O que quero mesmo é observar o quão acertada me parece a ênfase de Byrne no fato de que essas emoções são compartilhadas por todos nós.

Afinal, é isso que serve de apoio ao seu argumento de que a arte não precisa ser “naturalista” para ser autêntica, já que o que se expressa em determinada obra ou performance nunca está restrito às emoções de um único indivíduo:

[…] Estou começando a pensar no artista como uma pessoa que se dedica a criar dispositivos capazes de acessar nossa estrutura psicológica comum e ativar pontos profundamente emocionais que temos em comum. Nesse sentido, a ideia convencional de autoria é discutível. Não rejeito o crédito pelas músicas que compus, mas talvez o que constitui a autoria não seja exatamente o que imaginamos. […]

Outra coisa a se destacar no trecho acima é que fica difícil negar a influência do conceito de inconsciente coletivo de Jung (embora Byrne não o cite em momento algum do livro), que busca destacar justamente esse substrato comum a toda a humanidade.

O que, por sua vez, acaba tirando um pouco a ênfase na experiência do próprio indivíduo como algo sempre determinante pra tudo que ele venha a expressar (nem toda emoção precisa vir de um complexo de Édipo ou Electra).

Não se trata, é claro, de negar o indivíduo ou o valor das suas experiências formativas. Muito pelo contrário. Se a arte tem algo de terapêutico – e ela certamente tem – é justamente por ajudar o ser humano a reconhecer o valor de sua própria experiência.

Mas, feito isso, é importante dar um passo além, e reconhecer o quanto das emoções desse indivíduo em particular – assim como suas interpretações a respeito – se relacionam com algo maior.

O que nos leva à questão da autoria na arte. Acredito que qualquer um que tenha se envolvido num processo criativo a ponto de alcançar um estado de verdadeira imersão (ou “fluxo”, como diz o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi) é capaz de entender o que Byrne questiona.

Afinal, esse estado de imersão acaba por suspender, ainda que por apenas alguns momentos, o senso de eu de um indivíduo. E isso, de alguma forma, o deixa pelo menos um pouco mais reticente quanto a reivindicar a autoria pelo que fez.

A razão pra isso já é mais do que batida, mas nem por isso menos verdadeira: um indivíduo que tem uma experiência de imersão se reconhece como um meio através do qual determinadas ideias, conceitos etc. são expressos.

Por outro lado, por mais que esse substrato comum (quer você o chame de inconsciente coletivo ou não) esteja disponível a qualquer um, é claro que não são todos que vão percorrer esse caminho. Afinal, é por isso que existe a arte. E é pra isso que existe o artista.

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Música e amadorismo

Terminei o texto mais recente dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, de David Byrne, dizendo que a criatividade muitas vezes requer que a gente tenha a predisposição a não se levar a sério demais.

Um caminho pra chegar lá é reconhecer o valor do verdadeiro engajamento em determinada atividade, independente de qualquer resultado em termos de reconhecimento (ou até mesmo de maestria).

Acredito que essa é uma boa maneira de se tirar um pouco o foco do nosso centro mental (que às vezes pode nos levar a ficar muito presos a teorias e racionalizações), trazendo-o pro centro físico.

O que, como Byrne enfatiza, pode nos fazer um bem danado:

Um movimento está crescendo, uma verdadeira mudança não apenas quanto ao padrão passivo de absorção da cultura, mas também quanto à visão da arte e da música como meros veículos para a expressão de conceitos. As mãos operantes foram devolvidas ao cotidiano de uma nova geração. A cabeça dessa estrutura continua no lugar, mas agora temos a consciência de que parte da nossa compreensão e da maneira como vivenciamos o mundo vem dos nossos corpos, e também passa por eles.

Não é à toa que esse trecho vem de um capítulo intitulado “Amadores!”. Com todas as associações pejorativas que essa palavra traz, Byrne faz questão de valorizar aquilo que ela tem de melhor: o simples ato de se fazer algo por amor, sem depender de validações externas.

Curiosamente, esse ideal traz alguns paralelos muito interessantes com um outro livro lançado naquele mesmíssimo ano de 2012, que é o Antifrágil de Nassim Taleb:

Temos a ilusão de que o mundo funciona graças ao planejamento, às pesquisas universitárias e ao financiamento burocrático, mas há provas convincentes — bastante convincentes — de que tudo isso é uma ilusão, ilusão que chamo de ensinar os pássaros a voar. A tecnologia é o resultado da antifragilidade, explorada por aqueles que assumem riscos sob a forma de ajustes e de tentativa e erro, ficando o planejamento obsessivo confinado aos bastidores. Os engenheiros e os remendãos desenvolvem coisas, enquanto os livros de história são escritos por acadêmicos […].

Novamente, temos aqui a oposição entre uma sobrevalorização do centro mental (“planejamento obsessivo”) e o foco na prática (“tentativa e erro”).

Por sinal, é por isso que Taleb é muito crítico à nossa tendência de desmerecer aqueles que sabem fazer algo, mas nem sempre conseguem explicar como ou por quê.

Pra concluir, tomando a liberdade de usar um exemplo próprio, foi esse mesmo ideal que busquei expressar numa das últimas músicas que subi pra playlist impermanente.

Embora eu goste muito de falar sobre o que motivou determinada canção, talvez seja relevante deixar claro que isso pra mim é bem diferente de ter que explicar o porquê desse ou daquele verso, esse ou aquele acorde etc.

Já aconteceu de eu me meter numa enrascada dessas e não saber o que dizer. Se naquela época eu tivesse lido um dos dois livros que menciono nesse texto, talvez eu não me sentisse constrangido em simplesmente responder: “porque sim”.

O ideal da criação autotélica

No final de 2015 escrevi sobre uma então recente entrevista de John Frusciante (ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers) em que ele dizia que não tinha público.

Essa declaração causou tanto estranhamento (afinal, o que não falta é gente interessada na sua carreira solo) que logo em seguida ele mesmo achou por bem esclarecer o que quis dizer.

Basicamente, a sua lógica era a seguinte: como o seu processo criativo teria chegado ao ponto de se tornar totalmente dissociado das expectativas de quem quer que fosse, ele já não sabia mais dizer quem era o seu público.

Como comentei na ocasião, não dá pra ignorar que esse processo criativo totalmente autotélico (ou seja, a criação como um fim em si mesmo) é bem mais fácil de cultivar quando já se é um artista famoso, com um – supõe-se – ótimo nível de abundância financeira.

Mas a questão que quero trazer agora é outra: será que é realmente possível chegar a uma completa separação entre o processo de criação e o compartilhamento do trabalho artístico? E, caso isso seja possível, será que seria algo recomendável?

É claro que depende muito de como você enxerga a questão. Mas, a não ser que alguém faça arte por hobby, terapia etc., inevitavelmente surge a necessidade de ser versado em relação aos diferentes aspectos da sua indústria.

Consequentemente, é praticamente inevitável que tal artista passe a adotar uma mentalidade mais empreendedora (não à toa, é muito comum hoje em dia o uso de termos como empreendedor criativo, musicpreneur etc.).

E, como se sabe, um empreendedor precisa pelo menos ter alguma ideia de com quem está falando. Afinal, conhecer o seu público é provavelmente aquilo que mais lhe ajuda a poupar recursos (leia-se: tempo, energia e dinheiro).

Por outro lado, ao mesmo tempo acredito que seja sim muito importante manter-se num estado de relativa ignorância durante o processo criativo, como forma de se estar em contato com uma visão de mundo própria.

Afinal, se tem uma diferença entre os artistas que amamos e os que ignoramos é que, na maioria das vezes, os últimos estão frequentemente muito preocupados em agradar demais, em seguir tendências e se manter em evidência a qualquer preço.

Já os que verdadeiramente amamos (e não apenas achamos “interessantes”), por mais que se importem com a opinião alheia, sabem que desagradar algumas (ou muitas) pessoas é o preço a pagar em troca de realmente tocar aquelas que estão receptivas à sua mensagem.

Então, como conciliar uma coisa (as expectativas alheias) com a outra (manter-se fiel ao seu coração)? A meu ver, no caso de um compositor o caminho é claro: fazer música que você realmente tenha vontade de ouvir, e que realmente toque o seu coração.

Fazendo isso, você pode até pensar que não está sendo influenciado pelas opiniões dos outros. Mas, se você tiver um mínimo de ambição, e se compartilhar o seu trabalho com certa regularidade, pouco a pouco essas coisas vão influenciando também o processo criativo.

Não que eu ache que John estivesse mentindo (ou mesmo se iludindo) quando disse que fazia música alheio às expectativas dos outros. Mas, no seu caso específico, duas coisas ficaram bem claras.

Primeiro: ele se referia a um momento em que fazia música principalmente como forma de aprendizado; segundo (e mais importante): ele não tinha nenhuma intenção de mostrar aquelas músicas pra outras pessoas (embora depois tenha mudado de ideia, compartilhando-as gratuitamente no SoundCloud e no Bandcamp).

De resto, acredito que pra maioria das pessoas envolvidas com a criação artística, por mais que perseguir um ideal autotélico seja fundamental – e é mesmo –, não custa lembrar que, assim como outros valores tão importantes quanto, ele provavelmente vai continuar sendo sempre isso: um ideal.

Treinar pra quê?

Dia desses li um livro chamado Pense como um Artista, escrito por Will Gompertz (editor de arte da BBC). É uma leitura curta, mas ao mesmo tempo bastante instrutiva na medida em que mostra diferentes maneiras com que grandes artistas veem o mundo.

Um dos últimos capítulos é emblematicamente intitulado “Os artistas param para pensar”. Nele, Gompertz cita o francês Marcel Duchamp como um belo exemplo de alguém que soube cultivar uma visão abrangente da arte:

Tecnicamente falando, ele era muito limitado. Seu irmão era um escultor muito melhor, e a maioria dos outros pintores em Paris na época – inclusive Picasso e Matisse – era infinitamente mais talentosa. Neste sentido, Duchamp não era um grande artista. Sua genialidade foi aprender a pensar como um deles.

Mais adiante, Gompertz conclui:

Seu truque era passar mais tempo pensando que fazendo. Ele parava para pensar e refletir sobre a vida e a criatividade, e sobre como as coisas poderiam ser.

Inevitável não traçar um paralelo entre isso e o mito das 10.000 horas de trabalho.

Mas antes de entrar nessa questão quero deixar duas coisas bem claras. Primeiro: não nego a importância do trabalho duro e constante em qualquer coisa que uma pessoa se proponha a fazer (tanto é que a última música que subi pra playlist impermanente fala justamente disso).

Segundo: quando falo no “mito das 10.000 horas de trabalho”, não estou criticando essa ideia da forma com que foi exposta – e popularizada – por Malcolm Gladwell no seu best-seller Fora de Série.

Estou criticando, isso sim, a forma simplista com que muita gente pegou os exemplos dados por Gladwell pra concluir que milhares de horas praticando determinada atividade já seriam o suficiente pra alcançar a “maestria” (seja lá o que essa palavra signifique).

Nesse sentido, o exemplo de Duchamp é valioso não por necessariamente se opor ao trabalho duro, mas por demonstrar a importância das limitações no processo criativo.

Em outras palavras: certos limites – sejam eles circunstanciais ou deliberadamente autoimpostos – podem se tornar verdadeiras bênçãos. Mas, pra isso, é necessário criar a predisposição para imaginar caminhos diferentes do habitual.

Ou seja, é preciso parar para pensar.

Se não conseguirmos reconhecer isso em Duchamp, vai ser fácil demais taxá-lo simplesmente de “preguiçoso”.

Não por acaso, essa era a mesma acusação que Romário recebia pelo fato de não gostar de treinar e por praticamente não correr em campo.

Preguiçoso ou não, o fato é que qualquer um que viu o Baixinho jogando podia perceber que, quando recebia a bola, frequentemente ele não precisava olhar nem pro adversário, nem pra baliza pra saber o que fazer em seguida.

Isso porque, mais do que ninguém, ele sabia se antecipar aos adversários pra tomar decisões muito rápidas em espaços curtíssimos do campo. Não à toa Johan Cruijff (outro cara que sabia parar para pensar) lhe deu o apelido de “o gênio da grande área”.

Em ambos os casos, acredito que é mais instrutivo pensar neles não como “gênios preguiçosos”, e sim como pessoas que conseguiram fazer muito com muito pouco. Isso pode ser chamado simplesmente de engenhosidade, mas também não deixa de ser trabalho.

Algumas considerações sobre o compartilhamento (quase) imediato de uma música

Desde que comecei o projeto da playlist impermanente, há alguns meses, venho pensando cada vez mais em como a possibilidade de divulgar a versão inicial de uma música pode fazer uma diferença no resultado final.

Afinal, o simples ato de compor uma música já sabendo que em pouco tempo ela pode estar na internet (mesmo que numa versão não muito “polida”) já afeta consideravelmente o próprio processo de composição.

Por mais que eu acredite que compor seja, acima de tudo, uma conversa comigo mesmo, o fato é que tenho a pretensão de fazer essa conversa ser ouvida por outras pessoas. E é importante que nesse momento ela faça sentido dentro de um contexto maior.

E que contexto é esse? Basicamente, o das experiências que acredito que vale a pena compartilhar, tendo como base uma narrativa fundamental: a da música como um caminho de autoconsciência.

E o grande barato da playlist impermanente é que, como eu estou sempre me sujeitando a um feedback praticamente instantâneo por parte de quem ouve, essa narrativa fica muito mais dinâmica.

Isso é até um tanto assustador – no melhor sentido dessa palavra –, já que me força a ter sempre em mente os valores que quero expressar, e reforça ainda mais o meu senso de responsabilidade.

Como se não bastasse tudo isso, venho também sentindo na pele as implicações de algo que escrevi aqui ano passado: até que ponto uma canção pode ser considerada “finalizada” de fato?

Afinal, cada vez mais é perfeitamente possível mexer e remexer não só na produção e nos arranjos de uma canção, mas também nos elementos antes tidos como “intocáveis”: ritmo, melodia, harmonia e letra.

Ainda é cedo pra dizer até onde essas ideias vão levar, já que a própria tecnologia que vem potencializando tudo isso (leia-se: streaming) ainda é relativamente recente. Mas já dá pra dizer que ela traz, no mínimo, uma série de possibilidades bem instigantes.

Sobre olhar pra trás

Muitos artistas – acho até que a maioria – têm a tendência de não dar muita atenção aos seus trabalhos já publicados. Um dos muitos exemplos disso é o do ator Johnny Depp, que mais de uma vez disse que nunca assiste a seus próprios filmes.

Entre músicos, essa tendência é ainda mais comum, já que não são poucos os que costumam dizer que nunca ouvem seus próprios álbuns (Bob Dylan uma vez disse que não faz isso porque “não quer se lembrar”).

Esse tipo de atitude é mais que compreensível se a gente for levar em conta que gravar um álbum é algo que geralmente consome tanto tempo e esforço que, quando o trabalho está feito, a sensação é muito mais de alívio do que propriamente de satisfação.

Outra questão, que a meu ver requer até mais atenção, é a seguinte: o ato de olhar pra trás também estaria associado, pra muitos, a um apego ao passado vindo de quem – e é esse o grande medo – teoricamente não teria mais nada a dizer.

Mas o grande paradoxo de tudo isso é que olhar pra trás, quando é algo feito pelas razões certas – ou seja, quando é feito por quem busca aprender com o que já fez – é justamente aquilo que permite que um músico não se repita.

Quando um artista faz basicamente a mesma coisa há décadas, são grandes as chances de que ele não esteja olhando pra trás de forma tão sistemática e deliberada quanto poderia (isso, é claro, partindo do pressuposto de que ele realmente esteja interessado em não se repetir).

Pra artistas que mudam radicalmente de estilo com o passar dos anos, a tendência é que se repetir seja bem mais difícil. Um exemplo disso é John Frusciante, que nos últimos tempos vem se dedicando de corpo e alma à música eletrônica (embora seja um dos melhores guitarristas do mundo).

Mas, pra maioria, com o passar do tempo se faz muito importante analisar o próprio trabalho com um viés mais distanciado. É isso que permite encontrar temas recorrentes, técnicas que foram esquecidas (e outras que foram usadas à exaustão) e ideias que poderiam ter sido mais bem exploradas.

Ou seja, pra maioria talvez seja interessante ouvir o alerta que Johnny Depp recebeu de um certo Marlon Brando, ainda nos anos 90.

Conta o próprio Depp que uma vez Marlon lhe perguntou quantos filmes ele fazia por ano. Quando Depp respondeu que havia feito três no ano anterior, Marlon disse o seguinte: “Não faça tantos”, pra em seguida explicar o porquê: “nós só temos alguns coelhos na cartola”.[1]

Se mesmo um ator como Marlon Brando não tinha uma quantidade assim tão grande de coelhos na cartola, imagine os outros. Logo, que isso sirva ao menos pra que a gente possa aprender a reconhecer os nossos próprios “personagens”, e ver a que novos caminhos eles podem nos levar.

Brando e Depp em Don Juan DeMarco

[1] tradução livre pra expressão “we only have so many faces in our pockets”

Uma outra perspectiva sobre o processo criativo compartilhado

Ainda sobre a questão do artista levar em conta o feedback do público durante o processo criativo, quero falar de um vídeo recente de Steve Pavlina onde ele traz uma visão um tanto diferente daquela que abordei aqui mês passado.

Antes de tudo, acho importante dizer que Steve é uma das pessoas que mais respeito e admiro na área de desenvolvimento pessoal. Tanto é que a letra de uma das cinco faixas do meu EP Música de Passagem, “Spirit”, nada mais é que um poema seu.

Bom, no vídeo em questão Steve sugere que um artista considere “criar valor de uma maneira que você interativamente obtém feedback do seu público alvo, dos seus consumidores.” E esclarece:

Isso não significa obter feedback de todos, ou de algumas pessoas aleatórias. Significa obter feedback das pessoas pras quais você espera vender.

Esse é um ponto até bastante recorrente – diversas outras pessoas já vêm falando nisso, embora nem sempre de forma tão explícita –, mas que por algum motivo eu não levei muito em conta no meu texto anterior.

Talvez porque na ocasião eu foquei demais no que seria o papel da arte e do artista, e isso me levou a minimizar a importância desse artista se conectar com um público que esteja interessado, receptivo e até certo ponto preparado pro que ele tem a dizer.

Até porque estar atento à receptividade das pessoas não significa necessariamente tomar como ponto de partida o que elas desejam receber. Nas palavras de Steve:

Você não está delegando o processo artístico aos seus consumidores. Você não está dizendo “O que você quer?” (…) O que você está fazendo é pegando a sua ideia inicial (…) e compartilhando-a com eles e dizendo “O que você acha? Você gosta disso? Poderia ser melhorado? Você está interessado na direção que isso está tomando? Você acha que isso é algo que você poderia querer comprar?” E você obtém o feedback. E então você repete, você volta e melhora mais, você lhes dá algo mais.

Pensando aqui comigo, isso é basicamente o que venho buscando fazer com a minha playlist impermanente. Até por ela ser uma coleção de músicas sem o compromisso de ter um caráter definitivo, eu não me sinto desconfortável em pedir a opinião das pessoas a cada e-mail que envio pra minha lista.

E cada comentário que recebo (que por enquanto ainda são poucos, é verdade) certamente afeta a forma com que percebo o meu próprio trabalho, muitas vezes de maneiras que eu mesmo nem me dou conta.

No fim das contas, é por isso que faço o que faço. Se eu não sentisse a mínima vontade de ter algum tipo de reconhecimento, eu não sujeitaria essas músicas ao julgamento de outras pessoas.

Daí é possível concluir que todo artista que não queira estar fadado a ser mais uma voz no deserto tem o dever de reconhecer a importância de clarificar a sua mensagem e encontrar as pessoas que possam se conectar com ela. Independente de quão poucas possam ser essas pessoas.