Algumas considerações sobre o compartilhamento (quase) imediato de uma música

Desde que comecei o projeto da playlist impermanente, há alguns meses, venho pensando cada vez mais em como a possibilidade de divulgar a versão inicial de uma música pode fazer uma diferença no resultado final.

Afinal, o simples ato de compor uma música já sabendo que em pouco tempo ela pode estar na internet (mesmo que numa versão não muito “polida”) já afeta consideravelmente o próprio processo de composição.

Por mais que eu acredite que compor seja, acima de tudo, uma conversa comigo mesmo, o fato é que tenho a pretensão de fazer essa conversa ser ouvida por outras pessoas. E é importante que nesse momento ela faça sentido dentro de um contexto maior.

E que contexto é esse? Basicamente, o das experiências que acredito que vale a pena compartilhar, tendo como base uma narrativa fundamental: a da música como um caminho de autoconsciência.

E o grande barato da playlist impermanente é que, como eu estou sempre me sujeitando a um feedback praticamente instantâneo por parte de quem ouve, essa narrativa fica muito mais dinâmica.

Isso é até um tanto assustador – no melhor sentido dessa palavra –, já que me força a ter sempre em mente os valores que quero expressar, e reforça ainda mais o meu senso de responsabilidade.

Como se não bastasse tudo isso, venho também sentindo na pele as implicações de algo que escrevi aqui ano passado: até que ponto uma canção pode ser considerada “finalizada” de fato?

Afinal, cada vez mais é perfeitamente possível mexer e remexer não só na produção e nos arranjos de uma canção, mas também nos elementos antes tidos como “intocáveis”: ritmo, melodia, harmonia e letra.

Ainda é cedo pra dizer até onde essas ideias vão levar, já que a própria tecnologia que vem potencializando tudo isso (leia-se: streaming) ainda é relativamente recente. Mas já dá pra dizer que ela traz, no mínimo, uma série de possibilidades bem instigantes.

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Sobre olhar pra trás

Muitos artistas – acho até que a maioria – têm a tendência de não dar muita atenção aos seus trabalhos já publicados. Um dos muitos exemplos disso é o do ator Johnny Depp, que mais de uma vez disse que nunca assiste a seus próprios filmes.

Entre músicos, essa tendência é ainda mais comum, já que não são poucos os que costumam dizer que nunca ouvem seus próprios álbuns (Bob Dylan uma vez disse que não faz isso porque “não quer se lembrar”).

Esse tipo de atitude é mais que compreensível se a gente for levar em conta que gravar um álbum é algo que geralmente consome tanto tempo e esforço que, quando o trabalho está feito, a sensação é muito mais de alívio do que propriamente de satisfação.

Outra questão, que a meu ver requer até mais atenção, é a seguinte: o ato de olhar pra trás também estaria associado, pra muitos, a um apego ao passado vindo de quem – e é esse o grande medo – teoricamente não teria mais nada a dizer.

Mas o grande paradoxo de tudo isso é que olhar pra trás, quando é algo feito pelas razões certas – ou seja, quando é feito por quem busca aprender com o que já fez – é justamente aquilo que permite que um músico não se repita.

Quando um artista faz basicamente a mesma coisa há décadas, são grandes as chances de que ele não esteja olhando pra trás de forma tão sistemática e deliberada quanto poderia (isso, é claro, partindo do pressuposto de que ele realmente esteja interessado em não se repetir).

Pra artistas que mudam radicalmente de estilo com o passar dos anos, a tendência é que se repetir seja bem mais difícil. Um exemplo disso é John Frusciante, que nos últimos tempos vem se dedicando de corpo e alma à música eletrônica (embora seja um dos melhores guitarristas do mundo).

Mas, pra maioria, com o passar do tempo se faz muito importante analisar o próprio trabalho com um viés mais distanciado. É isso que permite encontrar temas recorrentes, técnicas que foram esquecidas (e outras que foram usadas à exaustão) e ideias que poderiam ter sido mais bem exploradas.

Ou seja, pra maioria talvez seja interessante ouvir o alerta que Johnny Depp recebeu de um certo Marlon Brando, ainda nos anos 90.

Conta o próprio Depp que uma vez Marlon lhe perguntou quantos filmes ele fazia por ano. Quando Depp respondeu que havia feito três no ano anterior, Marlon disse o seguinte: “Não faça tantos”, pra em seguida explicar o porquê: “nós só temos alguns coelhos na cartola”.*

Se mesmo um ator como Marlon Brando não tinha uma quantidade assim tão grande de coelhos na cartola, imagine os outros. Logo, que isso sirva ao menos pra que a gente possa aprender a reconhecer os nossos próprios “personagens”, e ver a que novos caminhos eles podem nos levar.

Brando e Depp em Don Juan DeMarco

 

*tradução livre pra expressão “we only have so many faces in our pockets”

O dilema de um músico da geração Y

Ainda em maio do ano passado, o jornal Valor Econômico publicou o resultado de uma pesquisa bem interessante, em que pessoas que completaram 30 anos em 2016 – o que as coloca como parte da chamada geração Y, ou Millennials – disseram o quanto estavam satisfeitas com as suas vidas (profissional e pessoal).

E tão interessante quanto o resultado da pesquisa em si – não muito animador, por sinal – foram as reações a ela. Alguns meses depois da matéria do Valor, o site SOS Solteiros publicou um texto a respeito (que, curiosamente, só foi ganhar mais evidência há algumas semanas) com o título “Tá todo mundo mal”.

Logo no começo desse texto, seu autor, Claussen Munhoz, fez uma observação pra lá de reveladora: “não somos os únicos que não viraram empresários de sucesso ou estrelas do Rock” (faço questão de ressaltar essa frase porque, como vamos ver logo mais, a carapuça serve pra muita gente).

Bom, já mais pro fim de 2016, Simon Sinek (mais conhecido pela sua palestra TED “Start with Why”) traçou um panorama bem controverso dessa situação numa entrevista pro empreendedor Tom Bilyeu (isso ainda no seu antigo canal no YouTube, o Inside Quest).

Em um dado momento, Sinek descreve quatro grandes fatores que contribuem pra essa insatisfação generaliza da geração Y: criação, tecnologia, impaciência e ambiente.

Destes, quero destacar aqui a criação e a impaciência. Segundo Sinek, essa é uma geração que não só cresceu sendo levada a crer que realizaria grandes coisas, mas que se acostumou a querer – e frequentemente ter – tudo pra ontem. O resultado?

É como se eles estivessem aos pés de uma montanha e tivessem esse conceito abstrato chamado “impacto que eles querem ter no mundo”. Que é o topo. Mas o que eles não veem é a montanha. Não me interessa se você sobe a montanha rápido ou devagar, ainda há uma montanha.

Levando em conta que também faço parte dessa geração, acredito que tal análise ajuda bastante a entender por que às vezes ainda parece ser tão difícil pra mim e pra muitos outros músicos da minha faixa etária aceitar as atuais regras do jogo em que decidimos entrar.

Isso porque, por mais absurdo que possa parecer, todas as nossas expectativas quanto a causar um grande impacto não nos pareciam assim tão infundadas. Vale lembrar que fomos adolescentes dos anos 90. Crescemos vendo muitos dos nossos músicos favoritos tendo espaço nos principais meios de comunicação.

Mas quando chegou a nossa vez de entrar em cena as coisas já haviam mudado drasticamente, graças às mudanças que a indústria da música começava a atravessar (principalmente por causa da internet). E isso vem tornando o sucesso em larga escala algo muito menos provável.

Em outras palavras, cada vez mais estamos vendo nessa indústria um fenômeno que os economistas chamam de “o vencedor leva tudo”: os que se destacam em certa área se tornam super-mega-astros que ocupam uma fatia cada vez maior do mercado.

Foi por essas e outras que o escritor Chris Anderson ressaltou, ainda em 2006, a importância da chamada “cauda longa”, que trata justamente do fortalecimento cada vez maior dos mercados de nicho (como comentei aqui).

O grande problema disso é: como convencer uma pessoa que se acostumou a sonhar grande a de repente aceitar que pode ser igualmente satisfatório alcançar apenas uma fatia infinitamente menor do mercado?

Como mudar a mentalidade de uma pessoa cujo credo (conscientemente ou não) sempre foi: “Eu quero entrar para a história da música”[1]? Pra quem sempre pensou assim, qualquer coisa menos que isso seria um fracasso retumbante.

A essa altura, já deve ter dado pra perceber que eu não sou a pessoa mais recomendada pra oferecer uma solução pra esse dilema – e nem é essa a minha pretensão. Mas talvez seja a hora de considerar redefinir o sucesso a partir de valores e princípios mais constantes (algo que Stephen Covey chamava de Ética do Caráter).

E uma boa forma de começar nessa jornada (e encerrar esse texto antes que ele fique longo demais) é escutar com mais carinho as palavras de Sinek na mesma entrevista acima mencionada:

O que essa jovem geração precisa aprender é paciência. Que algumas coisas que realmente, realmente importam, como amor, ou realização profissional, alegria, amor pela vida, autoconfiança, um conjunto de habilidades… qualquer uma dessas coisas, todas essas coisas requerem tempo.

 

[1]“I want to go down in musical history”. Esse é um verso de uma música dos Smiths chamada “Frankly, Mr. Shankly”, lançada (ironicamente) há pouco mais de 30 anos.

Uma outra perspectiva sobre o processo criativo compartilhado

Ainda sobre a questão do artista levar em conta o feedback do público durante o processo criativo, quero falar de um vídeo recente de Steve Pavlina onde ele traz uma visão um tanto diferente daquela que abordei aqui mês passado.

Antes de tudo, acho importante dizer que Steve é uma das pessoas que mais respeito e admiro na área de desenvolvimento pessoal. Tanto é que a letra de uma das cinco faixas do meu EP Música de Passagem, “Spirit”, nada mais é que um poema seu.

Bom, no vídeo em questão Steve sugere que um artista considere “criar valor de uma maneira que você interativamente obtém feedback do seu público alvo, dos seus consumidores.” E esclarece:

Isso não significa obter feedback de todos, ou de algumas pessoas aleatórias. Significa obter feedback das pessoas pras quais você espera vender.

Esse é um ponto até bastante recorrente – diversas outras pessoas já vêm falando nisso, embora nem sempre de forma tão explícita –, mas que por algum motivo eu não levei muito em conta no meu texto anterior.

Talvez porque na ocasião eu foquei demais no que seria o papel da arte e do artista, e isso me levou a minimizar a importância desse artista se conectar com um público que esteja interessado, receptivo e até certo ponto preparado pro que ele tem a dizer.

Até porque estar atento à receptividade das pessoas não significa necessariamente tomar como ponto de partida o que elas desejam receber. Nas palavras de Steve:

Você não está delegando o processo artístico aos seus consumidores. Você não está dizendo “O que você quer?” (…) O que você está fazendo é pegando a sua ideia inicial (…) e compartilhando-a com eles e dizendo “O que você acha? Você gosta disso? Poderia ser melhorado? Você está interessado na direção que isso está tomando? Você acha que isso é algo que você poderia querer comprar?” E você obtém o feedback. E então você repete, você volta e melhora mais, você lhes dá algo mais.

Pensando aqui comigo, isso é basicamente o que venho buscando fazer com a minha playlist impermanente. Até por ela ser uma coleção de músicas sem o compromisso de ter um caráter definitivo, eu não me sinto desconfortável em pedir a opinião das pessoas a cada e-mail que envio pra minha lista.

E cada comentário que recebo (que por enquanto ainda são poucos, é verdade) certamente afeta a forma com que percebo o meu próprio trabalho, muitas vezes de maneiras que eu mesmo nem me dou conta.

No fim das contas, é por isso que faço o que faço. Se eu não sentisse a mínima vontade de ter algum tipo de reconhecimento, eu não sujeitaria essas músicas ao julgamento de outras pessoas.

Daí é possível concluir que todo artista que não queira estar fadado a ser mais uma voz no deserto tem o dever de reconhecer a importância de clarificar a sua mensagem e encontrar as pessoas que possam se conectar com ela. Independente de quão poucas possam ser essas pessoas.

De onde vem o meu incômodo?

Comentei algumas vezes aqui no blog que vem crescendo cada vez mais a ideia de que o artista hoje em dia estaria se tornando, acima de tudo, um diretor artístico – ou seja, alguém cuja principal atividade é menos a de criação, e mais a de curadoria.

Essa é uma perspectiva bem interessante, mas quase sempre ela traz consigo pelo menos uma coisa que me incomoda: a suposta necessidade do artista estar constantemente aberto ao feedback do público no que diz respeito ao processo criativo.

O que me levou a pensar no seguinte: de onde vem esse meu incômodo? Seria isso apenas um capricho da minha parte, por eu estar ainda preso a um paradigma ultrapassado sobre o que significa ser um artista? E, se for o caso, que paradigma seria esse?

Pra abordar esse assunto, quero trazer algumas palavras do britânico Alan Moore – mais conhecido como o criador de graphic novels como Watchmen e V de Vingança –, numa declaração pro fantástico documentário The Mindscape of Alan Moore:

Nos últimos tempos, eu acho que os artistas e os escritores permitiram a si mesmos serem enganados. Eles aceitaram a crença prevalente de que a arte e a escrita são meramente formas de entretenimento. Elas não são vistas como forças transformadoras que podem mudar um ser humano, que podem mudar uma sociedade. (…) Não é o trabalho dos artistas dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse o que precisa, então ele não seria o público. Ele seria o artista. É o trabalho dos artistas dar ao público o que ele precisa.

Arrogância? Talvez. Mas antes de tirar qualquer conclusão precipitada, acho importante entender qual é a base pra esse argumento de Moore. E isso ele nos oferece logo antes da citação acima, quando diz o seguinte:

Eu acredito que magia é arte e que a arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens para alcançar mudanças de consciência.

Alan MooreDiferentemente de Moore, não tenho muito conhecimento sobre ocultismo. Mas se tem algo que compartilho com ele é a crença no poder transformador da arte em geral, e de como esse poder pode acabar se pervertendo – ou, na melhor das hipóteses, se diluindo – quando um artista se contenta em atender às demandas mais imediatas das pessoas.

Talvez pra um músico não consagrado adotar essa filosofia não seja uma escolha muito inteligente atualmente, já que diminuir cada vez mais a distinção entre o artista e o público – ou pelo menos dar essa impressão – é algo que pode ajudar bastante como estratégia de marketing.

O risco disso, porém, é que a arte se torne uma mera commodity.

Não que eu condene completamente esse tipo de estratégia. Alguns dos músicos que eu mais amo passaram/passam por fases em que faziam/fazem um som bastante “comercial”, e isso nunca me impediu de admirá-los do mesmo jeito.

Até porque isso pode servir como porta de entrada pra que as pessoas conheçam um outro lado deles. Seja essa uma estratégia deliberada ou não, no fim das contas, quando se é um fã até esses trabalhos mais comerciais podem ser vistos com outros olhos.

Logo, encarando dessa forma, talvez haja um jeito de equilibrar essas duas abordagens, e então podemos pensar em arte e entretenimento como duas forças complementares – e não necessariamente antagônicas – na trajetória de um artista.

Mas é claro que é perfeitamente possível que eu esteja forçando a barra nessa suposição. Se for o caso – se não houver mesmo como conciliar as duas coisas –, então me arrisco a dizer que a maior parte do que venho fazendo aqui é uma grande perda de tempo.

Sobre a playlist impermanente

The Life of PabloHá pouco mais de um ano, depois de Kanye West lançar The Life of Pablo como um álbum exclusivamente digital que estaria sujeito a constantes alterações, escrevi um texto aqui no blog chamado “O princípio do álbum impermanente”.

Na ocasião, comentei que talvez esse tipo de coisa viesse a se tornar prática comum na indústria, e mencionei inclusive uma ótima análise feita por Bruce Houghton, editor do blog de música e tecnologia Hypebot.

No seu texto, Houghton comenta que deixar um álbum em aberto faz com que ele deixe de ser uma “afirmação” e passe a ser uma “conversa”, levando em conta que pelo menos algumas das alterações que Kanye fez tinham sido influenciadas pelo feedback do seu próprio público.

Da minha parte, embora tenha certa resistência à ideia de me abrir a sugestões dos ouvintes no que se refere ao lado estritamente musical do meu trabalho (já até escrevi sobre isso, inclusive), não posso negar que essa seja uma das possibilidades mais interessantes levantadas pela tecnologia do streaming.

No entanto, como esse tipo de coisa também requer certa “bala na agulha” (leia-se: o acesso contínuo a um bom material de gravação e produção de áudio, que permita que o artista mexa nas suas músicas sem perda de qualidade), deixei isso como uma ideia que, quem sabe, eu poderia explorar mais pra frente.

More LifeAté que dois meses atrás outro rapper americano, Drake, lançou um projeto chamado More Life. E, ao invés de chamar essa nova coleção de músicas de álbum ou até mesmo de mixtape (como é comum no universo do hip hop), ele decidiu por considerá-la como uma playlist.

Com isso, o que ele está basicamente dizendo é que esse novo trabalho não tem a pretensão de ser tão “sério” quanto um álbum. Mas, ao mesmo tempo, talvez também não dê pra dizer que seja um projeto tão “despretensioso” quanto uma mixtape.

Foi aí que percebi que, dentro das minhas possibilidades, eu podia combinar as abordagens de Kanye e Drake pra lançar as minhas músicas mais recentes sem necessariamente depender de todo o investimento de tempo e dinheiro envolvidos num lançamento mais tradicional.

Assim surgiu a playlist impermanente, que é, acima de tudo, uma forma de refletir o meu atual momento levando em conta algo que sempre busco ter em mente: a própria natureza de transitoriedade e transformação da vida.

Em outras palavras, é uma forma de continuar contando a minha história sem precisar (ainda) colocar um ponto final:

A inteligência artificial na música

Data (Jornada nas Estrelas)No seu clássico livro Inteligência Emocional, o psicólogo norte-americano Daniel Goleman cita o androide Data, de Jornada nas Estrelas, como um exemplo do quão limitante é pensar na mente humana como se ela fosse um grande computador – sem levar em conta, portanto, a influência das emoções nos pensamentos.

No caso de Data, isso se refletiria da seguinte maneira:

Na falta do senso lírico que traz o sentimento, Data pode tocar música ou escrever poesia com virtuosismo técnico, mas sem paixão. O que demonstra o anseio de Data por sentir anseio é que faltam inteiramente à fria visão cognitiva os valores mais elevados do coração humano — fé, esperança, devoção, amor.

Vale lembrar que Inteligência Emocional foi publicado pela primeira vez há mais de 20 anos. Naquela época, aparentemente ainda era possível falar em robôs sem que se pensasse nas implicações da inteligência artificial na sociedade como um todo.

Hoje em dia, por outro lado, é comum que a simples menção desse assunto considere também os riscos de um cenário apocalíptico em que, um dia, as máquinas podem fazer com que o ser humano se torne cada vez mais obsoleto (mais ou menos como em Matrix).

E, nesse contexto em que se abrem tantas frentes de atuação, não foi bem uma surpresa saber que o projeto Magenta do Google divulgou ano passado a sua primeira música feita totalmente por inteligência artificial (não só eles, aliás).

A música em si é bem simples, mas acaba trazendo a pergunta: será que num futuro não tão distante o músico – seja ele compositor, intérprete etc. – corre o risco de ter que passar a competir com as máquinas pela atenção das pessoas?

A princípio, não. Como já comentei aqui uma vez, ouvir música é uma experiência subjetiva. O simples fato de saber que uma música, por melhor que seja, foi feita por uma máquina, já faz com que a apreciação estética tenha um impacto bem menor do que poderia.

Afinal, pra maior parte das pessoas, muito da importância que se dá à música vem justamente de (inconscientemente) partirmos do pressuposto de que o artista de alguma forma compartilha de vivências e valores parecidos com os nossos.

É claro que, se acontecer de uma máquina compor e interpretar uma música e sermos levados a crer que todo o processo foi feito por seres humanos, aí então a coisa muda completamente de figura (talvez isso já esteja até acontecendo, quem sabe?).

E, pra terminar, vale aqui mais uma consideração: talvez no futuro os robôs cheguem a um nível de sofisticação tão grande que eles mesmos acreditem ser, ou pelo menos “se sintam”, humanos (como David, do filme A.I. – Inteligência Artificial).

Nesse dia, provavelmente já teremos chegado a um ponto em que um robô será visto como nosso semelhante. Logo, uma música feita por uma dessas máquinas vai ter grandes chances de tocar o coração das pessoas sem nenhuma necessidade de se fingir que foi feita por outra pessoa.

Até que esse dia chegue, no entanto, a música – e a arte de um modo geral – vai provavelmente continuar sendo a última fronteira da inteligência artificial.