Com Amor, Van Gogh: em busca de uma nova narrativa

Durante boa parte do século XX, Van Gogh foi o exemplo consumado do “gênio atormentado”. Sua história foi quase sempre usada, em primeiro lugar, pra perpetuar o mito de um artista cuja loucura o impelia à criação, ao mesmo tempo que o consumia por completo.

Isso se percebe claramente nas representações mais emblemáticas sobre a sua trajetória. Só pra ficar em dois exemplos: Sede de Viver, o livro de Irving Stone que depois virou filme; e “Vincent”, a (belíssima) canção de Don McLean.

É claro que o que não faltam são episódios na sua vida que corroboram tudo isso: ter (literalmente) colocado a mão no fogo por uma mulher por quem estava apaixonado; ter vivido à beira do masoquismo nos seus tempos de missionário; ter cortado parte da própria orelha (entregando-a a uma prostituta); e por aí vai.

Nada disso deve ser minimizado. Até porque, depois do famoso episódio da orelha, ele mesmo reconheceu a necessidade de se internar num manicômio (onde inclusive chegou a tentar o suicídio). Fez isso não só para a sua segurança, mas também (talvez até principalmente) para a segurança das pessoas à sua volta.

Nos últimos anos, porém, mais e mais vem se buscando tirar um pouco o foco desses aspectos mais “românticos” da vida de Vincent. Afinal, há toda uma abundância de cartas escritas por ele que revelam um homem extremamente consciente e culto (e um estudioso da história e dos fundamentos da pintura).

E até mesmo o grande evento que sedimentou a sua imagem por décadas a fio vem sendo seriamente questionado: é bem possível que o tiro que ele teria dado contra o próprio peito tenha sido (acidentalmente) dado por outra pessoa, a quem Vincent teria preferido acobertar.

No entanto, até aqui o que faltava era justamente quem juntasse todas essas outras peças do quebra-cabeça e as apresentasse numa narrativa consistente para um público maior.

Agora não falta mais:

Com Amor, Van Gogh, dirigido pelo casal Dorota Kobiela e Hugh Welchman, estreou ano passado no festival de animação de Annecy. O filme é todo feito à mão por diversos artistas que se basearam nas suas pinturas (inclusive usando a mesma técnica: óleo sobre tela), o que por si só já justifica a ida ao cinema.

Ainda assim, o grande mérito dos diretores é mesmo o de oferecer uma narrativa mais completa sobre Vincent. Pra quem realmente tem interesse em ir um pouco além de todo o folclore a seu respeito, o filme oferece uma visão bem convincente de como foram os seus últimos anos de vida.

No entanto, mesmo que vença o Oscar no mês que vem (na categoria melhor animação), é pouco provável que Com Amor, Van Gogh tenha o mesmo impacto que as obras que citei no segundo parágrafo deste texto. Com todos os seus méritos, o filme está longe de ser uma experiência emocionalmente arrebatadora (e talvez nem fosse essa a intenção).

Mas já é, com certeza, um ótimo passo em direção a uma abordagem mais ampla não só sobre a vida de Van Gogh, mas também sobre os desafios que qualquer artista encontra pra se ver reconhecido e legitimado.

Nesse sentido, esse é o filme que todos nós esperávamos há muito tempo.

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Subjetividade, intersubjetividade e apreciação estética

Ainda no fim de 2015, escrevi dois textos (“Quando a música é boa…” e “História e subjetividade na experiência musical”) em que defendia que ouvir (e apreciar) música é, acima de tudo, uma experiência subjetiva.

Na época, essa foi a forma que encontrei pra me posicionar contra uma ideia que ainda parece ser bem comum: a de que seria possível julgar uma música – e a arte em geral – de forma “objetiva”, sem levar em conta a época, o lugar, o contexto social etc.[1]

Se você está lendo esse texto, estou partindo do pressuposto de que você percebe que não é assim que as coisas funcionam.

Por outro lado, admito que só há alguns meses, depois que li (o fantástico) Sapiens, de Yuval Harari, percebi que nesse tempo todo em que eu falava (e pensava) em “subjetividade” eu deveria ter falado em “intersubjetividade”.

Antes de entrarmos na definição desse último termo, vamos voltar ao livro em questão pra deixar bem claro o que Harari entende por “objetivo” e “subjetivo”.

Segundo ele, um fenômeno objetivo é aquele que “existe independentemente da consciência humana e das crenças humanas.” Subjetivo, por sua vez, “é algo que existe dependendo da consciência e das crenças de um único indivíduo.”

Só por aí já começamos a entender por que a subjetividade, no sentido estrito da palavra, não pode dar conta da experiência estética de um modo geral.

Isso porque ouvir música (ou assistir um filme, ver um quadro etc.) nunca depende apenas do que se passa na mente de uma única pessoa.

Logo, quando eu defendia a apreciação estética como um fenômeno “subjetivo”, eu cometia um erro tão comum como o de quem fala que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

E é aí que entra a importância de entender também o significado do termo “intersubjetividade”. Mais uma vez passo a bola pra Harari:

Intersubjetivo é algo que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos. Se um único indivíduo mudar suas crenças, ou mesmo morrer, será de pouca importância. No entanto, se a maioria dos indivíduos na rede morrer ou mudar suas crenças, o fenômeno intersubjetivo se transformará ou desaparecerá.

Talvez uma outra forma de explicar essa palavra seria dizendo que intersubjetividade é como se fosse uma espécie de “subjetividade compartilhada”.

Pra demonstrar o poder disso no que se refere à música, coloco abaixo uma citação de um dos autores que mais admiro, o filósofo sufi Inayat Khan:

Os prazeres de hoje não são como os dos mais inteligentes e sábios em tempos antigos. Aqueles costumavam apreciar poesia e música mais elevadas; hoje o jazz se tornou mais popular.

Não é estranho ler alguém falando do jazz dessa maneira, em contraste a outros tipos de música, que seriam “mais elevados”?

Talvez seja estranho pra nós, ocidentais civilizados do início do século XXI. Mas se você levar em conta que Inayat Khan viveu no início do século XX (a citação em questão foi transcrita de uma de suas várias palestras entre 1914 e 1926), as coisas já começam a fazer mais sentido.

Além do mais, há que se observar que, antes de ser um professor espiritual, Inayat Khan tocava música clássica indiana. Ou seja, música era algo sério pra ele (talvez até demais).

De qualquer forma, nem preciso dizer que a maioria das pessoas vê o jazz de uma forma muito diferente hoje em dia. Em outras palavras, o jazz, enquanto fenômeno intersubjetivo, ocupa agora um lugar diametralmente oposto ao que ocupava há 100 anos.

O que leva quase que inevitavelmente a pensar se mais pra frente algo parecido pode acontecer com o funk ou com o reggaeton, só pra ficar em dois exemplos de estilos que são execrados atualmente. Mas isso, obviamente, só o tempo dirá.

 

[1] Só pra não passar batido, há até quem fale em “arte objetiva”, como defendida pelo místico Gurdjieff na primeira metade do século XX. Mas essa já é, definitivamente, uma outra história…

Treinar pra quê?

Dia desses li um livro chamado Pense como um Artista, escrito por Will Gompertz (editor de arte da BBC). É uma leitura curta, mas ao mesmo tempo bastante instrutiva na medida em que mostra diferentes maneiras com que grandes artistas veem o mundo.

Um dos últimos capítulos é emblematicamente intitulado “Os artistas param para pensar”. Nele, Gompertz cita o francês Marcel Duchamp como um belo exemplo de alguém que soube cultivar uma visão abrangente da arte:

Tecnicamente falando, ele era muito limitado. Seu irmão era um escultor muito melhor, e a maioria dos outros pintores em Paris na época – inclusive Picasso e Matisse – era infinitamente mais talentosa. Neste sentido, Duchamp não era um grande artista. Sua genialidade foi aprender a pensar como um deles.

Mais adiante, Gompertz conclui:

Seu truque era passar mais tempo pensando que fazendo. Ele parava para pensar e refletir sobre a vida e a criatividade, e sobre como as coisas poderiam ser.

Inevitável não traçar um paralelo entre isso e o mito das 10.000 horas de trabalho.

Mas antes de entrar nessa questão quero deixar duas coisas bem claras. Primeiro: não nego a importância do trabalho duro e constante em qualquer coisa que uma pessoa se proponha a fazer (tanto é que a última música que subi pra playlist impermanente fala justamente disso).

Segundo: quando falo no “mito das 10.000 horas de trabalho”, não estou criticando essa ideia da forma com que foi exposta – e popularizada – por Malcolm Gladwell no seu best-seller Fora de Série.

Estou criticando, isso sim, a forma simplista com que muita gente pegou os exemplos dados por Gladwell pra concluir que milhares de horas praticando determinada atividade já seriam o suficiente pra alcançar a “maestria” (seja lá o que essa palavra signifique).

Nesse sentido, o exemplo de Duchamp é valioso não por necessariamente se opor ao trabalho duro, mas por demonstrar a importância das limitações no processo criativo.

Em outras palavras: certos limites – sejam eles circunstanciais ou deliberadamente autoimpostos – podem se tornar verdadeiras bênçãos. Mas, pra isso, é necessário criar a predisposição para imaginar caminhos diferentes do habitual.

Ou seja, é preciso parar para pensar.

Se não conseguirmos reconhecer isso em Duchamp, vai ser fácil demais taxá-lo simplesmente de “preguiçoso”.

Não por acaso, essa era a mesma acusação que Romário recebia pelo fato de não gostar de treinar e por praticamente não correr em campo.

Preguiçoso ou não, o fato é que qualquer um que viu o Baixinho jogando podia perceber que, quando recebia a bola, frequentemente ele não precisava olhar nem pro adversário, nem pra baliza pra saber o que fazer em seguida.

Isso porque, mais do que ninguém, ele sabia se antecipar aos adversários pra tomar decisões muito rápidas em espaços curtíssimos do campo. Não à toa Johan Cruijff (outro cara que sabia parar para pensar) lhe deu o apelido de “o gênio da grande área”.

Em ambos os casos, acredito que é mais instrutivo pensar neles não como “gênios preguiçosos”, e sim como pessoas que conseguiram fazer muito com muito pouco. Isso pode ser chamado simplesmente de engenhosidade, mas também não deixa de ser trabalho.

Autoconsciência vs. autoconhecimento

Pra além de qualquer sonoridade mais específica, gosto de dizer que o que faço é música intrapessoal. Como explico melhor aqui, isso é simplesmente o meu jeito de valorizar o papel da música como um caminho de autoconsciência.

E já que o termo “autoconsciência”[1] é muitas vezes entendido como sinônimo de “autoconhecimento”, acho importante ressaltar a diferença entre as duas palavras, e por que escolho usar a primeira e evito usar a segunda.

Antes de falar em autoconsciência, talvez seja mais fácil começar dizendo que dou preferência a este termo por uma razão muito simples: não me sinto muito qualificado pra dizer até que ponto existe algo pra se “conhecer” quando falamos de nós mesmos.

Sendo assim, falar em autoconhecimento talvez seja não só uma tarefa incrivelmente complicada e presunçosa; talvez seja até mesmo uma busca completamente ilusória.

Quem está familiarizado com o budismo deve se lembrar que isso tem muito a ver com o conceito de anatta, que é justamente a noção de que não há um “eu” permanente, ou uma “essência”. O psiquiatra Neel Burton coloca isso da seguinte forma:

se você tentar se tornar consciente de si mesmo, você vai apenas se tornar consciente de tal e tal sentimento, tal e tal percepção, ou tal e tal pensamento, mas nunca de um self próprio, central.

Em poucas palavras, aí está o principal contraste entre autoconsciência e autoconhecimento. E o fato é que estudos, experimentos e descobertas recentes da neurociência dão cada vez mais fundamento a essa perspectiva, o que dificulta e muito qualquer crença num eu não divisível.

Sam Harris, por exemplo, explora esse tema à exaustão no seu livro Despertar, onde se esforça ao máximo pra mostrar como é ter uma vida espiritual sem, necessariamente, ter um sistema de crenças religiosas.

Isso é possível, segundo ele, a partir do momento em que se desenvolve um senso de espiritualidade que vá além da “sensação de ser um pensador de pensamentos no interior de nossa cabeça, a sensação de ser dono ou habitante de um corpo físico”.

Assim, não é à toa que Harris desce a lenha nas chamadas grandes religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo –, já que elas se baseiam inteiramente na própria existência da alma humana.

Da minha parte, sabendo que posso dar a impressão de estar encima do muro, quando falo em autoconsciência não estou necessariamente negando por completo a existência de uma essência, ou algo parecido.

Porque se alguém me perguntar nesse momento no que acredito, a resposta mais honesta que posso dar é: não sei.

Só o que sei é que, independente do que possa ou não haver dentro de cada um de nós, isso não nos impede de perceber que há sempre muito que explorar na nossa paisagem interior. O que, por si só, é motivo mais do que suficiente pra seguir nessa jornada.

 

 

[1] em inglês a tradução mais apropriada pra autoconsciência é “self-awareness”, que por sua vez é diferente de “self-consciousness”. O Google não faz essa distinção, e traduz ambas as palavras como “autoconsciência”. Já o Linguee, quando traduz “self-conscious”, dá preferência ao termo “inseguro”, o que já é um avanço.

Algumas considerações sobre o compartilhamento (quase) imediato de uma música

Desde que comecei o projeto da playlist impermanente, há alguns meses, venho pensando cada vez mais em como a possibilidade de divulgar a versão inicial de uma música pode fazer uma diferença no resultado final.

Afinal, o simples ato de compor uma música já sabendo que em pouco tempo ela pode estar na internet (mesmo que numa versão não muito “polida”) já afeta consideravelmente o próprio processo de composição.

Por mais que eu acredite que compor seja, acima de tudo, uma conversa comigo mesmo, o fato é que tenho a pretensão de fazer essa conversa ser ouvida por outras pessoas. E é importante que nesse momento ela faça sentido dentro de um contexto maior.

E que contexto é esse? Basicamente, o das experiências que acredito que vale a pena compartilhar, tendo como base uma narrativa fundamental: a da música como um caminho de autoconsciência.

E o grande barato da playlist impermanente é que, como eu estou sempre me sujeitando a um feedback praticamente instantâneo por parte de quem ouve, essa narrativa fica muito mais dinâmica.

Isso é até um tanto assustador – no melhor sentido dessa palavra –, já que me força a ter sempre em mente os valores que quero expressar, e reforça ainda mais o meu senso de responsabilidade.

Como se não bastasse tudo isso, venho também sentindo na pele as implicações de algo que escrevi aqui ano passado: até que ponto uma canção pode ser considerada “finalizada” de fato?

Afinal, cada vez mais é perfeitamente possível mexer e remexer não só na produção e nos arranjos de uma canção, mas também nos elementos antes tidos como “intocáveis”: ritmo, melodia, harmonia e letra.

Ainda é cedo pra dizer até onde essas ideias vão levar, já que a própria tecnologia que vem potencializando tudo isso (leia-se: streaming) ainda é relativamente recente. Mas já dá pra dizer que ela traz, no mínimo, uma série de possibilidades bem instigantes.

Sobre olhar pra trás

Muitos artistas – acho até que a maioria – têm a tendência de não dar muita atenção aos seus trabalhos já publicados. Um dos muitos exemplos disso é o do ator Johnny Depp, que mais de uma vez disse que nunca assiste a seus próprios filmes.

Entre músicos, essa tendência é ainda mais comum, já que não são poucos os que costumam dizer que nunca ouvem seus próprios álbuns (Bob Dylan uma vez disse que não faz isso porque “não quer se lembrar”).

Esse tipo de atitude é mais que compreensível se a gente for levar em conta que gravar um álbum é algo que geralmente consome tanto tempo e esforço que, quando o trabalho está feito, a sensação é muito mais de alívio do que propriamente de satisfação.

Outra questão, que a meu ver requer até mais atenção, é a seguinte: o ato de olhar pra trás também estaria associado, pra muitos, a um apego ao passado vindo de quem – e é esse o grande medo – teoricamente não teria mais nada a dizer.

Mas o grande paradoxo de tudo isso é que olhar pra trás, quando é algo feito pelas razões certas – ou seja, quando é feito por quem busca aprender com o que já fez – é justamente aquilo que permite que um músico não se repita.

Quando um artista faz basicamente a mesma coisa há décadas, são grandes as chances de que ele não esteja olhando pra trás de forma tão sistemática e deliberada quanto poderia (isso, é claro, partindo do pressuposto de que ele realmente esteja interessado em não se repetir).

Pra artistas que mudam radicalmente de estilo com o passar dos anos, a tendência é que se repetir seja bem mais difícil. Um exemplo disso é John Frusciante, que nos últimos tempos vem se dedicando de corpo e alma à música eletrônica (embora seja um dos melhores guitarristas do mundo).

Mas, pra maioria, com o passar do tempo se faz muito importante analisar o próprio trabalho com um viés mais distanciado. É isso que permite encontrar temas recorrentes, técnicas que foram esquecidas (e outras que foram usadas à exaustão) e ideias que poderiam ter sido mais bem exploradas.

Ou seja, pra maioria talvez seja interessante ouvir o alerta que Johnny Depp recebeu de um certo Marlon Brando, ainda nos anos 90.

Conta o próprio Depp que uma vez Marlon lhe perguntou quantos filmes ele fazia por ano. Quando Depp respondeu que havia feito três no ano anterior, Marlon disse o seguinte: “Não faça tantos”, pra em seguida explicar o porquê: “nós só temos alguns coelhos na cartola”.[1]

Se mesmo um ator como Marlon Brando não tinha uma quantidade assim tão grande de coelhos na cartola, imagine os outros. Logo, que isso sirva ao menos pra que a gente possa aprender a reconhecer os nossos próprios “personagens”, e ver a que novos caminhos eles podem nos levar.

Brando e Depp em Don Juan DeMarco

[1] tradução livre pra expressão “we only have so many faces in our pockets”

O dilema de um músico da geração Y

Ainda em maio do ano passado, o jornal Valor Econômico publicou o resultado de uma pesquisa bem interessante, em que pessoas que completaram 30 anos em 2016 – o que as coloca como parte da chamada geração Y, ou Millennials – disseram o quanto estavam satisfeitas com as suas vidas (profissional e pessoal).

E tão interessante quanto o resultado da pesquisa em si – não muito animador, por sinal – foram as reações a ela. Alguns meses depois da matéria do Valor, o site SOS Solteiros publicou um texto a respeito (que, curiosamente, só foi ganhar mais evidência há algumas semanas) com o título “Tá todo mundo mal”.

Logo no começo desse texto, seu autor, Claussen Munhoz, fez uma observação pra lá de reveladora: “não somos os únicos que não viraram empresários de sucesso ou estrelas do Rock” (faço questão de ressaltar essa frase porque, como vamos ver logo mais, a carapuça serve pra muita gente).

Bom, já mais pro fim de 2016, Simon Sinek (mais conhecido pela sua palestra TED “Start with Why”) traçou um panorama bem controverso dessa situação numa entrevista pro empreendedor Tom Bilyeu (isso ainda no seu antigo canal no YouTube, o Inside Quest).

Em um dado momento, Sinek descreve quatro grandes fatores que contribuem pra essa insatisfação generaliza da geração Y: criação, tecnologia, impaciência e ambiente.

Destes, quero destacar aqui a criação e a impaciência. Segundo Sinek, essa é uma geração que não só cresceu sendo levada a crer que realizaria grandes coisas, mas que se acostumou a querer – e frequentemente ter – tudo pra ontem. O resultado?

É como se eles estivessem aos pés de uma montanha e tivessem esse conceito abstrato chamado “impacto que eles querem ter no mundo”. Que é o topo. Mas o que eles não veem é a montanha. Não me interessa se você sobe a montanha rápido ou devagar, ainda há uma montanha.

Levando em conta que também faço parte dessa geração, acredito que tal análise ajuda bastante a entender por que às vezes ainda parece ser tão difícil pra mim e pra muitos outros músicos da minha faixa etária aceitar as atuais regras do jogo em que decidimos entrar.

Isso porque, por mais absurdo que possa parecer, todas as nossas expectativas quanto a causar um grande impacto não nos pareciam assim tão infundadas. Vale lembrar que fomos adolescentes dos anos 90. Crescemos vendo muitos dos nossos músicos favoritos tendo espaço nos principais meios de comunicação.

Mas quando chegou a nossa vez de entrar em cena as coisas já haviam mudado drasticamente, graças às mudanças que a indústria da música começava a atravessar (principalmente por causa da internet). E isso vem tornando o sucesso em larga escala algo muito menos provável.

Em outras palavras, cada vez mais estamos vendo nessa indústria um fenômeno que os economistas chamam de “o vencedor leva tudo”: os que se destacam em certa área se tornam super-mega-astros que ocupam uma fatia cada vez maior do mercado.

Foi por essas e outras que o escritor Chris Anderson ressaltou, ainda em 2006, a importância da chamada “cauda longa”, que trata justamente do fortalecimento cada vez maior dos mercados de nicho (como comentei aqui).

O grande problema disso é: como convencer uma pessoa que se acostumou a sonhar grande a de repente aceitar que pode ser igualmente satisfatório alcançar apenas uma fatia infinitamente menor do mercado?

Como mudar a mentalidade de uma pessoa cujo credo (conscientemente ou não) sempre foi: “Eu quero entrar para a história da música”?[1] Pra quem sempre pensou assim, qualquer coisa menos que isso seria um fracasso retumbante.

A essa altura, já deve ter dado pra perceber que eu não sou a pessoa mais recomendada pra oferecer uma solução pra esse dilema – e nem é essa a minha pretensão. Mas talvez seja a hora de considerar redefinir o sucesso a partir de valores e princípios mais constantes (algo que Stephen Covey chamava de Ética do Caráter).

E uma boa forma de começar nessa jornada (e encerrar esse texto antes que ele fique longo demais) é escutar com mais carinho as palavras de Sinek na mesma entrevista acima mencionada:

O que essa jovem geração precisa aprender é paciência. Que algumas coisas que realmente, realmente importam, como amor, ou realização profissional, alegria, amor pela vida, autoconfiança, um conjunto de habilidades… qualquer uma dessas coisas, todas essas coisas requerem tempo.

[1] “I want to go down in musical history”. Esse é um verso de uma música dos Smiths chamada “Frankly, Mr. Shankly”, lançada (ironicamente) há pouco mais de 30 anos.