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Arte e loucura

Das várias impressões a respeito do que um artista é – ou do que ele deveria ser –, talvez poucas tenham persistido por tanto tempo no imaginário coletivo quanto aquela que associa a sua personalidade a graus mais ou menos controlados de loucura.

Essa associação não é muito surpreendente se formos considerar que, pra maior parte do público, o paradigma de um artista de verdade é aquela figura misteriosa que se vale de surtos de inspiração pra sondar verdades que seriam inacessíveis a meros mortais.

Num ótimo texto escrito para a revista The Atlantic há alguns anos, o crítico literário americano William Deresiewicz denomina tal paradigma como o “gênio criativo”, e traça as suas origens ainda no século XVIII (com a ascensão do movimento romântico na Europa e todo o seu culto ao indivíduo).

O interessante é que no mesmo texto Deresiewicz aponta que não só esse paradigma foi substituído ainda no século XX pelo do artista “profissional”, mas até mesmo este último já estaria sendo substituído por outro (o do “empreendedor criativo”).

Por que, então, a ideia do “gênio criativo” continua exercendo tanto fascínio?

Imagino que isso aconteça, em parte, porque é mais glamouroso pensar em um indivíduo que simplesmente “nasceu pra fazer aquilo”, como se ele nunca tivesse estudado e praticado bastante também (mesmo que fora do círculo acadêmico).

Por outro lado, faço questão de ressaltar que não me parece que faz o menor sentido ir no extremo contrário – como volta e meia vejo por aí – dos que olham para a vida e a obra de alguém como Van Gogh e dizem que ele foi um grande artista não por causa da sua loucura, mas a despeito dela.[1]

Não acho que seja possível que um louco no sentido psicopatológico do termo seja um grande artista, mas essa associação também não é de todo absurda. Afinal, a criatividade artística se beneficia de certa dose de inadaptabilidade social, o que (querendo ou não) pode deixar um artista com um pé na loucura.

É claro que a coisa se complica um pouco na medida em que diversos artistas se valeram dessa expectativa por parte do público pra cultivar deliberadamente uma imagem de excentricidade. (O exemplo clássico disso no século XX foi Salvador Dalí.)

Mas a coisa fica séria mesmo não só quando um artista passa a usar tal expectativa como um “passe livre” pra atitudes que de outra forma seriam inaceitáveis, mas também quando ele/ela realmente acha que depende da “loucura” pra fazer algo realmente excepcional.

Ambas as situações me parecem ser o caso de Kanye West. Depois das várias polêmicas em que se meteu ao longo dos anos, não faz muito tempo que o rapper americano comentou que havia sido hospitalizado pra lidar com seu transtorno bipolar.

A própria capa do seu álbum de estúdio do ano passado, ye, diz: “I hate being Bi-Polar it s awesome” (“Eu odeio ser bipolar. É fantástico.”), e, numa declaração no Twitter meses depois, ele disse com todas as letras que os medicamentos que tomava estavam interferindo na sua criatividade.

O exemplo de Kanye é extremo, mas são muitos os artistas que sentem que estar demasiadamente “bem” poderia trazer consequências indesejadas ao seu trabalho. E talvez dê pra dizer que o que todos eles têm em comum é o medo do chamado estado de presença.

Isso é mais que compreensível para aqueles de nós que se identificam plenamente com a forma com que Carl Jung falava sobre a psicologia do artista: “a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento.”

Logo, ficar muito “centrado” pode facilmente ser visto como uma ameaça ao processo criativo, já que tal estado de espírito não nos faria “baixar a guarda” o suficiente pra que o “instinto” artístico se apodere de nós e faça o seu trabalho.

É um pouco como aquela famosa frase da psiquiatra Nise da Silveira: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.”

Caramba, como sair dessa?

Acredito que o próprio Jung oferece uma resposta bem satisfatória quando fala de individuação. Da forma com que ele entendia esse processo, podemos dizer que se trata de alcançar a autorrealização não exorcizando nossos demônios, mas justamente aceitando-os e integrando-os à nossa psique.

Ou seja, a questão não é se tornar alguém “curado”, mas simplesmente alguém mais “inteiro” – enfim, um indivíduo no sentido mais amplo do termo.

O grande barato disso para o artista, a meu ver, é a possibilidade de estar cada vez mais presente para se dedicar ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, entregar-se a ele com um nível de devoção que antes pareceria quase inimaginável (quando não assustador).

Essa é uma ideia que pretendo desenvolver melhor no meu próximo texto (o qual, por sinal, será o último que pretendo publicar por um tempo), já que aqui entramos numa discussão que trata de dois tipos de abordagens muito diferentes em relação ao processo criativo.

 

[1] Aliás, é bem possível que Van Gogh sequer fosse considerado necessariamente louco se vivesse nos dias de hoje. De qualquer forma, o próprio entendimento do que é loucura mudou tanto nas últimas décadas que deve ser um verdadeiro desafio fazer uma análise mais precisa sobre alguém que viveu há mais de um século.


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“Ainda tenho de ser educada?”

Os últimos três textos que escrevi para o blog foram dedicados em sua maior parte a falar do quanto considero problemática a concepção de arte de um dos mais importantes místicos do século XX, o russo George Gurdjieff.

Mas talvez seja importante dizer que, se fiz isso, não foi por antipatia a Gurdjieff. Muito pelo contrário: não sinto nada além de gratidão pelo que venho aprendendo com os princípios do Quarto Caminho (que é o nome que ele dava à sua doutrina).

Destes, um que me fascinou de cara – e que, com o meu limitado conhecimento de espiritualidade e religião, eu nunca vi ser formulado de forma tão contundente em nenhum outro lugar – é o da diferença entre o saber e o ser.

Já falei sobre isso no texto que publiquei em junho aqui no blog, quando trouxe um trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido (escrito por P. D. Ouspensky) em que Gurdjieff dizia que “o grau do saber de um homem é função do grau de seu ser”.

Pra melhor entender essa frase (e pra complementar tudo o que foi dito no texto de junho), transcrevo abaixo o que ele diz pouco antes disso:

[…] Na civilização ocidental muito particularmente, admite-se que um homem pode possuir um vasto saber, pode ser, por exemplo, um sábio eminente, autor de grandes descobertas, um homem que faz progredir a ciência e, ao mesmo tempo, pode ser e tem o direito de ser um pobre egoísta, discutidor, mesquinho, invejoso, vaidoso, ingênuo e distraído. Parece que aqui se considera que um professor tem que esquecer sempre seu guarda-chuva. […] (grifo meu)

Deve ser difícil achar uma pessoa que tenha alcançado certo nível de reconhecimento em qualquer área que não tenha, em maior ou menor medida, passado a se permitir ser menos vigilante em relação às suas fraquezas de caráter.

Pra trazer essa discussão pro campo da música, a frase-título do texto de hoje me parece um exemplo e tanto disso.

Elis Regina fotografada por Marcia Santos

Essa frase é geralmente atribuída a Elis Regina – considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos –, sendo que a citação completa é a seguinte: “Por que exigem de mim tanta coisa? Sou boa cantora e ainda tenho de ser educada?”

É claro que seria injusto e irresponsável da minha parte querer tirar maiores conclusões sobre uma pessoa a partir de uma única citação, sendo que nem mesmo sei de que contexto ela foi tirada.

Mas, sinceramente, mesmo se descobrissem que essa citação foi toda inventada, isso faria pouca diferença pra mim. O que realmente me preocupa é que seja perfeitamente possível que uma grande cantora diga algo assim sem que isso cause estranhamento.

Imagina se, ao invés disso, ela tivesse dito: “Poxa, sou educada, gentil e meiga. Ainda tenho que cantar bem?” Esta citação, sim, seria um absurdo. Já a anterior, não. Por quê? É esse tipo de desequilíbrio, tão presente na nossa sociedade, a que Gurdjieff se referia.

Repare que não estamos falando de diferenças entre habilidades. É claro que qualquer pessoa que foque em determinada área dificilmente vai alcançar um nível parecido em outros campos da vida. (Seria demais esperar que Pelé fosse um grande cantor, por exemplo.)

A questão, como comentei alguns parágrafos atrás, é que estamos falando de qualidades de caráter. E não me parece uma atitude muito inteligente chegar ao ponto de sentir orgulho das próprias limitações no que se refere a isso.

Inclusive eu poderia defender essa minha argumentação com uma outra frase atribuída a Elis: “Importante é recuperar o ser para o próprio ser, na procura da melhoria da qualidade de vida.”

Se há uma certa contradição entre essa citação e a anterior, isso tampouco é de se surpreender. Outra coisa que Gurdjieff observava era o quanto falta à maioria de nós uma verdadeira unidade em termos de opiniões, intenções etc.

Como ele disse certa vez, “O homem está fragmentado numa multidão de pequenos ‘eus'”. Me parece evidente que Elis Regina não era uma exceção a essa regra.

(E eu, é claro, também não.)


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A acidentalidade do juízo estético

Pra fechar essa série de três textos sobre o termo arte objetiva de acordo com o místico russo George Gurdjieff, nas próximas linhas vou abordar um segundo aspecto dessa definição de arte com o qual não estou totalmente de acordo.

Se você chegou até aqui e não está familiarizado com os ensinamentos de Gurdjieff, recomendo fortemente a leitura do meu texto de dois meses atrás, visto que não tem como separar essa sua concepção de estética da doutrina do Quarto Caminho.

Ainda assim, posso escolher uma única frase sua (que já aparece no meu primeiro texto) como ponto de partida pra tudo o que estou discutindo nessa série: “Quando se trata de arte objetiva, não pode haver nada de acidental, nem na própria criação da obra, nem nas impressões que dá.”

No texto passado, ao falar do processo criativo, trouxe o pensamento do psicanalista suíço Carl Jung pra defender a minha posição de que mesmo o que parece “acidental” numa obra de arte pode muito bem estar de acordo com a expressão de princípios impessoais.

Logo, embora eu considere radical e até irreal a noção de que “não pode haver nada de acidental” na criação, naquele texto me pareceu muito mais importante dizer que a falta de controle por parte do artista não impede que ele crie algo relevante em termos espirituais.

Hoje, porém, a minha crítica vai ser um pouco mais direta. Isso porque, como vimos no terceiro parágrafo do texto de hoje, Gurdjieff considerava que também na apreciação estética da arte objetiva não podia haver “nada de acidental”. Em outras palavras,

[…] Tudo é matemático. Tudo pode ser calculado e previsto de antemão. O artista sabe e compreende a mensagem que quer transmitir e sua obra não pode produzir certa impressão num homem e impressão completamente diferente noutro, sob a condição, naturalmente, de que se tomem pessoas de um mesmo nível. […]

A primeira coisa a se comentar a respeito de mais esse trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido é que o próprio Gurdjieff ressaltava que as impressões que uma obra de arte transmite nunca vão ser, a rigor, totalmente objetivas.

Como ele diz em outro momento no mesmo livro (que, nunca é demais lembrar, foi escrito por Ouspensky, e não por ele): “[…] para poder extrair alguma coisa [da arte objetiva], são necessários uma grande unidade interior e um grande controle de si.”

Ainda assim, haveria algo de substancialmente diferente nesse tipo de arte na medida em que ela (sabe-se lá como) estaria além das associações feitas de forma espontânea pelos diferentes indivíduos sujeitos às suas impressões.

O porquê de a arte objetiva estar além dessas associações é um mistério pra mim, e talvez essa seja a principal razão de, como comentei logo no início do meu primeiro texto dessa série, eu não me sentir à altura de falar com propriedade sobre esse assunto.

Ou, talvez, porque certo mistério e maleabilidade sejam parte fundamental do que faz uma obra de arte. Obviamente, não era assim que Gurdjieff via as coisas, já que esse tipo de imprecisão seria para ele “inconsciência” – o pecado mortal no esoterismo.

Mas, mesmo considerando que seja possível que uma determinada obra de arte revele princípios objetivos – a realidade tal como ela é – sem nenhum tipo de ambiguidade, seria essa a sua função?

Acredito que não. Não foi à toa que falei sobre Jung e o inconsciente coletivo no meu texto anterior, porque realmente acredito que é assim que o artista pode melhor atender às demandas da sociedade em que está inserido.

Da mesma foma que acessar o inconsciente pessoal é uma forma de um indivíduo integrar aspectos da sua psique que não estejam muito bem resolvidos, o mesmo ocorre no acesso de uma sociedade, através da arte, ao inconsciente coletivo da humanidade.

É claro que esse processo pode ser um tanto frustrante pra quem espera respostas prontas e um caminho muito claramente delimitado. Como Jung diz ao final de seu texto “Psicologia e poesia” (incluído no livro O Espírito na Arte e na Ciência),

Uma obra-prima é como um sonho que[,] apesar de todas as suas evidências[,] nunca se interpreta a si mesmo e também nunca é unívoco. Nenhum sonho diz: “Você deve”, ou “esta é a verdade”; ele apenas propõe uma imagem, tal como a natureza que faz uma planta crescer. Compete a nós mesmos tirar as conclusões.

Com essa última citação espero ter deixado claro o porquê das minhas críticas à arte objetiva. O que com certeza não espero é trazer outras pessoas pro “meu lado”, até porque entendo que defendo uma perspectiva que, como vimos, traz uma série de limitações.

Não só por causa de uma certa (e já mencionada) ambiguidade, mas também porque ter um entendimento da arte mais de acordo com o que Jung pregava faz com que ela não tenha o mesmo caráter de atemporalidade da definição de arte objetiva de Gurdjieff.

Logo, num e noutro caso, não estamos falando de uma escolha simples de se fazer. De qualquer forma, o mero reconhecimento de que não existe apenas uma maneira de se honrar a dimensão espiritual da arte já me parece extremamente gratificante e valioso.


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A “acidentalidade” no processo criativo

Boa parte do texto anterior foi dedicada à análise do significado do termo arte objetiva de acordo com o místico russo Gurdjieff, que viveu na primeira metade do século XX.

No entanto, já nos últimos parágrafos daquele artigo comecei a esboçar uma crítica a essa definição de arte. E, como são dois os pressupostos que vou questionar, decidi separar meus argumentos em dois textos diferentes, a começar pelo de hoje.

O primeiro pressuposto é o de que a verdadeira arte dependeria, necessariamente, de que o próprio artista fosse alguém de um nível de consciência muito elevado, a fim de conceber uma obra de forma completamente precisa e deliberada.

Isso explica porque, para Gurdjieff, toda espontaneidade no processo criativo seria sempre um sintoma inequívoco do que ele chamava de arte subjetiva (que, como visto no texto anterior, não faria mais que expressar certos caprichos de seu criador).

A seguinte citação (do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, escrito por seu ex-discípulo Ouspensky) deixa bem clara essa questão:

Quando se trata de arte subjetiva, tudo é acidental. O artista, como já disse, não cria; nele “isto se cria sozinho”. O que significa que tal artista está em poder de ideias, de pensamentos e de humores que ele mesmo não compreende e sobre os quais não tem o mínimo controle. Eles o governam e expressam-se por si mesmos sob uma ou outra forma. […]

Acho no mínimo problemático que Gurdjieff considerasse tudo que fugisse ao controle do artista como algo “acidental”, porque parecia que ele simplesmente se recusava a levar em conta a diferença entre o acidental e o não deliberado.

Felizmente, houve um contemporâneo seu que entendia bem essa distinção: ninguém menos que Carl Jung. Segue, abaixo, uma citação sua tirada de um texto de 1930 que aparece no livro O Espírito na Arte e na Ciência sob o título de “Psicologia e poesia”:

[…] a psicologia específica do artista constitui um assunto coletivo[,] e não pessoal. Isto, porque a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento. Em última instância, o que nele quer não é ele mesmo enquanto homem pessoal, mas a obra de arte. Enquanto pessoa, tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, “homem”, e homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade. […]

De cara já fica evidente que, para Jung, não havia arte objetiva nos termos estabelecidos por Gurdjieff. Afinal, o processo criativo nunca estaria totalmente sob controle do artista, por mais que ele pudesse pensar o contrário. (E isso é algo que pretendo explorar em outra ocasião.)

Mas como seria possível fazer algo “não pessoal” dessa maneira? Como poderia um artista com seus “humores, caprichos e metas egoístas” ser capaz de transcender tudo isso através do processo criativo? E que instinto é esse que “dele se apodera, fazendo-o seu instrumento”?

A resposta a essas perguntas é o que Jung chamava de inconsciente coletivo. É a isso que ele se refere quando fala da “alma inconsciente e ativa da humanidade”, da qual o artista, enquanto “homem coletivo”, é “portador” e “plasmador”.

A ideia aqui não é que a arte estaria totalmente separada do inconsciente pessoal do artista. Mas, isso sim, a de que o seu verdadeiro poder vem de uma herança de impressões e arquétipos que são compartilhados por toda a humanidade.

Logo, para Jung, por mais que a arte seja como um instinto que “se apodera” do seu criador, não deixa de haver objetividade (ainda que de um tipo diferente da de Gurdjieff), na medida em que o que se exprime é algo que vai muito além do meramente pessoal.

Como ele resume muito bem alguns parágrafos mais adiante: “o médico que cura feridas tem, ele mesmo, uma ferida”.

Tudo isso fica ainda mais claro ao ler um texto anterior seu, publicado pela primeira vez em 1922, e que foi traduzido para o português como “Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética” (também incluído em O Espírito na Arte e na Ciência):

[a] obra de arte […] não é um ser humano[,] mas algo suprapessoal. É uma coisa e não uma personalidade e, por isso, não pode ser julgad[a] por um critério pessoal. A verdadeira obra de arte tem inclusive um sentido especial no fato de poder se libertar das estreitezas e dificuldades insuperáveis de tudo o que seja pessoal, elevando-se para além do efêmero[,] do apenas pessoal[.]

Reconheço que esse é um assunto potencialmente controverso e um tanto complexo. Mas o meu principal propósito com esse texto foi simplesmente o de dar mais proeminência a uma perspectiva que faz muito sentido pra mim.

No mais, como prometi, ainda me resta abordar um segundo pressuposto de Gurdjieff sobre a arte objetiva, e é isso que vou fazer mês que vem.


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Considerações sobre arte objetiva

Embora o texto de hoje seja sobre um assunto que ronda a minha mente há algum tempo, a forma mais justa de começá-lo é dizendo que tanto nele quanto nos próximos vou entrar em questões que talvez não esteja à altura de abordar.

Consequentemente, é bem provável que seja não só ingenuidade, mas até mesmo irresponsabilidade da minha parte compartilhar essas minhas considerações sobre arte objetiva e as suas implicações tanto para o artista quanto para o seu público (ou comunidade).

Ainda assim, acredito que o que tenho a dizer pode ser relevante não só pros que estão no mesmo barco que eu, mas também pra aqueles que de fato estão capacitados pra falar dessas questões com mais propriedade.

Em primeiro lugar, o que vem a ser arte objetiva? Não é exatamente o tipo de objetividade que eu mencionei num texto de janeiro do ano passado, quando abordei a (inter)subjetividade na apreciação estética e defendi que não haveria arte “objetiva” de fato.

Já naquele texto adicionei uma nota a fim de reconhecer o uso desse termo de acordo com o místico russo George Gurdjieff, mas foi só. Ir além disso faria com que aquela discussão seguisse por caminhos muito diferentes, então preferi deixar esse assunto pra outro dia.

Até que, enfim, depois de tudo o que escrevi no meu texto anterior (principalmente nos últimos parágrafos), vi que algumas palavras sobre os ensinamentos desse mestre espiritual da primeira metade do século XX se fazem não só oportunas, mas necessárias.

Arte objetiva era o termo que Gurdjieff usava para traçar um contraste com o que ele chamava pejorativamente de arte subjetiva. Esta, por sua vez, seria uma mera manifestação das inclinações pessoais de quem a cria, e sequer mereceria ser chamada de arte.

A verdadeira arte, para ele, só poderia ser concebida por alguém num estado de consciência muito elevado. Seu discípulo P. D. Ouspensky, em seu livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, transcreve as palavras de Gurdjieff da seguinte forma:

Entre a arte objetiva e a arte subjetiva a diferença está em que, no primeiro caso, o artista “cria” realmente – faz o que tem a intenção de fazer, introduz em sua obra as ideias e os sentimentos que quer. E a ação de sua obra sobre as pessoas é absolutamente precisa; elas receberão, cada uma de acordo com seu nível, naturalmente, as próprias ideias e sentimentos que o artista quis transmitir-lhes. Quando se trata de arte objetiva, não pode haver nada de acidental, nem na própria criação da obra, nem nas impressões que dá.

Considero essa passagem problemática por duas razões, sendo que a primeira delas vou começar a abordar ainda no texto de hoje.

Mas, antes mesmo de partir para a crítica em si, é importante entender que essa concepção de dois tipos de arte faz todo o sentido de acordo com a doutrina de Gurdjieff (que ele chamava de o Quarto Caminho).

O ponto-chave pra entender essa questão pode ser resumido na seguinte frase: “o saber depende do ser”. Não compreender isso pode ser a fonte de muitos problemas, como se vê na seguinte citação sua (tirada do mesmo livro de Ouspensky):

[…] no Ocidente, pensa-se que o saber de um homem não depende de seu ser. As pessoas dão o maior valor ao saber, mas não sabem dar ao ser valor igual e não têm vergonha do nível inferior de seu ser. Não compreendem sequer o que isso quer dizer. Ninguém compreende que o grau do saber de um homem é função do grau de seu ser.

Consequentemente….

” […] a cada nível de ser correspondem certas possibilidades de saber bem definidas. […] Sem uma mudança na natureza do ser, é impossível uma mudança na natureza do saber.

A parte crucial pra mim desse último trecho citado é aquela que fala em “possibilidades de saber bem definidas”. Embora em termos gerais eu concorde com esse princípio, também acho que um artista pode sim acessar diferentes níveis de saber através do processo criativo.

Inclusive o próprio Gurdjieff diz, um pouco depois, que “o saber é uma coisa, a compreensão é outra”, já que a compreensão “resulta da conjunção do saber e do ser”.

É essa distinção que me ajuda a defender a minha posição de que, através da arte, é perfeitamente possível não só falar de coisas que não se compreende, mas até mesmo fazê-lo com verdadeira autoridade. E acho até que isso acontece com certa frequência.

É claro que, a partir daí, só depende do artista se desenvolver também enquanto ser humano. Mas a questão é que, mesmo que ele não o faça – ou seja, mesmo que ele nunca deixe de ser um incompreendido pra si mesmo –, isso não invalidaria a sua arte.

Sei que essa não é uma posição tão fácil de defender sem o embasamento de outra perspectiva, coisa que pretendo fazer no próximo texto.

Por hoje, deixo apenas o ponto de partida pra uma questão que merece ser considerada mais seriamente, por todas as suas implicações que, como se pôde ver, vão muito além da estética.

O que entendo por autorrealização

Enquanto no texto anterior busquei explicar por que me defino como “um fazedor de canções”, neste quero me dedicar à última parte da frase da qual essa expressão faz parte.

Ou seja, meu objetivo hoje é explicar por que me entendo como estando “numa jornada de autorrealização”.

Pra começar, acho importante dizer que todas as minhas considerações a respeito disso vêm de textos em inglês, e a palavra autorrealização frequentemente é usada pra traduzir expressões que são um tanto diferentes entre si.

A mais conhecida delas é, sem dúvida, self-actualization, graças à famosa pirâmide de hierarquia de necessidades humanas do psicólogo americano Abraham Maslow.

De acordo com essa teoria, self-actualization corresponderia ao ápice do desenvolvimento de um indivíduo. E o que essa expressão vem a significar, exatamente? Maslow coloca da seguinte maneira:

[Self-actualization] se refere ao desejo por self-fulfillment, isso é, à tendência de se tornar actualized [realizado] naquilo que se é potencialmente. Essa tendência pode ser descrita como o desejo de se tornar mais e mais o que se é, de se tornar tudo que uma pessoa seja capaz.

O trecho acima foi livremente traduzido de um artigo seu de 1943, e preferi deixar tanto self-actualization quanto self-fulfillment no original pra ressaltar que ambas as expressões podem ser sinônimos de autorrealização. (Provavelmente é por isso que muita gente prefere traduzir self-actualization como autoatualização.)

Mas a razão principal de eu abordar essas nuances é a seguinte: embora eu admire muito a teoria de Maslow (tanto é que vou voltar a ela logo mais), o que tenho em mente quando falo em autorrealização é o que em inglês se chama, de fato, de self-realization.

E qual a diferença?

Basicamente, o verbo realize – e, por tabela, o substantivo realization – pode ter o sentido não só de actualize (ou seja, “fazer acontecer”, “tornar real” etc.), mas também o de dar-se conta de algo – no caso, de si mesmo.

Ou seja, podemos dizer que self-realization é um termo ao mesmo tempo mais ambíguo e mais completo, já que uma pessoa que realiza a si mesma não só “atualiza” suas potencialidades, mas também as reconhece de fato.

Pode parecer frescura, mas essa distinção é fundamental pra mim. Como já comentei, isso é parte inextricável da minha própria missão, que envolve a crença no poder da música como um catalisador pra diferentes níveis de autoconsciência.

E também não é por acaso que self-realization é um termo muito usado em religiões orientais, já que tal realização de si mesmo faz com que um indivíduo se dê conta daquilo que ele é pra além do que faz ou deixa de fazer.

Dito isso – e correndo o risco de parecer ainda mais pedante –, a palavra que melhor define o que entendo por autorrealização talvez seja individuação, no sentido em que foi usada pelo suíço Carl Jung.

O que me impede de falar em individuação é que essa é uma expressão que pode muito facilmente ser mal interpretada. Assim, acho bom não usá-la tão livremente – a não ser em situações em que ela possa ser devidamente contextualizada.

No mais, assim como talvez mais pra frente eu passe a me definir como um compositor – e não só um “fazedor de canções“, como comentei no meu texto anterior –, nada me impediria de dar um outro salto.

E, pra falar disso, nada mais justo que terminar esse texto mencionando Maslow uma última vez, já que nos seus últimos anos de vida ele próprio reviu o seu modelo de desenvolvimento humano a fim de incluir um outro nível: transcendência.

Essa revisão veio justamente da sua percepção de que self-actualization não contempla uma dimensão verdadeiramente espiritual da vida. (Pena que isso geralmente passe despercebido até hoje entre os que citam a sua pirâmide de necessidades.)

Embora falar em transcendência me pareça um tanto leviano nesse momento, não vou me surpreender se eu passar a ter como minha maior ambição a de permitir que o que eu faço, cada vez mais, “se faça” através de mim.

Desconfio que essa é a ambição suprema que qualquer um pode ter: a de não ter ambição nenhuma.

Por que me defino como um fazedor de canções

Se você for visitar o meu perfil no Gravatar, vai poder ver que eu me denomino “um fazedor de canções numa jornada de autorrealização”.

“Fazedor de canções” foi uma expressão que ouvi do espanhol Joan Manuel Serrat. Como ontem mesmo publiquei meu texto sobre ele e o Eneagrama, esse me parece o momento ideal pra explicar porque também decidi utilizá-la.

Antes de mais nada, é importante dizer que o texto de ontem (assim como todos os da série Enneagram & Music) foi escrito em inglês. Assim, lá pelas tantas menciono uma entrevista (da segunda metade dos anos 70) em que Serrat se definia como um “maker of songs”.

Como a entrevista foi para um programa de TV da Espanha mesmo, a expressão que ele usou foi, de fato, “hacedor de canciones”. Essa foi a melhor maneira que ele encontrou de demarcar as diferenças entre fazer canções e fazer música e/ou poesia à parte.

Achei muito interessante perceber que em espanhol, assim como em português, é difícil encontrar uma palavra que tenha o mesmo sentido de songwriter. Que em inglês quer dizer justamente aquele que escreve canções.

Por aqui, quase sempre se dá preferência à palavra compositor. O problema é que ela pode ser usada pra falar não só de quem escreve canções, mas também de quem escreve outros tipos de música (este, em inglês, é chamado de composer).

A bem da verdade, até temos por aqui uma palavra que poderia ser usada como sinônimo de songwriter: cancionista. Inclusive já mencionei o quanto ela me pareceu muito bem utilizada por Rogério Skylab, que falou das diferenças entre estes e os “músicos”.

Não considero cancionista uma palavra ruim, muito pelo contrário. Mas realmente acho que fazedor de canções exprime melhor a forma com que me enxergo.

A palavra fazedor tem um caráter muito mais prosaico – ainda que menos elegante. Consequentemente, ela me ajuda muito a não ter cerimônia em dizer que, pra mim, fazer canções é um trabalho como qualquer outro.

Talvez trazer um exemplo de outra área ajude a entender essa minha escolha: romancista e escritor de romances são basicamente a mesma coisa. Mas uma expressão soa muito diferente da outra, não é?

Por outro lado, entendo que tal escolha também envolve um risco considerável: a ênfase no “fazer” pode me levar a ser visto mais como um artesão do que como um artista.

Isso seria um golpe tremendo pro meu ego, porque ainda tenho muitos sonhos e ambições em relação ao que quero alcançar com a minha arte, e nem tudo o que faço – ou quero fazer – são canções.

No entanto, por questões de ordem prática, esse vem sendo o único tipo de música que compartilho. Logo, sinto que é importante que eu busque comunicar com mais clareza aquilo que tenho a oferecer no momento.

Acho até que é bem possível que mais pra frente eu me sinta mais confortável em me denominar um compositor (ou talvez um cantor e compositor).

Até lá, no entanto, tenho muito trabalho pela frente.