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Sobre Henrí Galvão

um fazedor de canções numa jornada de autorrealização

Henrí Galvão

22 de maio de 2019

Se na minha vida todos os “se” tivessem se encaixado como eu gostaria, provavelmente eu estaria hoje num cassino.

Vai ver é por isso que o cassino nunca saiu de mim:

Querendo ou não
É bom você se acostumar
Aqui só tem roleta e baccarat

Não vem dizer
Que o freguês tem sempre razão
Freguês é quem tem dinheiro na mão

Ainda estou pra encontrar
Algum grande apostador
Que se preocupe de verdade
Com as cartas que vieram
Ou as que ainda estão pra vir

Mas também tem quem vem pra jogar
No preto ou no vermelho
Pra ir perdendo bem devagar
São justamente esses
Os que tentam despistar o azar

Se o seu trabalho
É adiar o próprio funeral
O meu é te vender a pá e a cal

Acho até que estou
Te fazendo um favor
Não viu o quanto você já gastou?

Se não quiser ficar louco
Nem pense em dar o troco
As suas chances não vão mudar
Só por causa de uma sequência
Um pouco pior

Isso não é, nem devia ser
Tão difícil de entender
A matemática está aí
Pra quem quer ver
De que adianta culpar a banca
Ou o crupiê?
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Henrí Galvão

7 de maio de 2019

Não faço a menor ideia do que significa “fazer por merecer” o que quer que seja.

Mas sei que é possível trabalhar pra que isso não nos impeça de apreciar o que houver pra apreciar:

Letra:

Era um dia comum
Até onde eu sei
Os dois rios seguiam
Seu curso natural
E Muawiyah
Não estava menos a fim
De se vingar

É difícil entender
Como ninguém lembrou
De praticar o ritual
De conversão de haxixe em jihad
Foi como se o paraíso
Já estivesse aqui
Pra quem quisesse ver

O que entendo por autorrealização

Enquanto no texto anterior busquei explicar por que me defino como “um fazedor de canções”, neste quero me dedicar à última parte da frase da qual essa expressão faz parte.

Ou seja, meu objetivo hoje é explicar por que me entendo como estando “numa jornada de autorrealização”.

Pra começar, acho importante dizer que todas as minhas considerações a respeito disso vêm de textos em inglês, e a palavra autorrealização frequentemente é usada pra traduzir expressões que são um tanto diferentes entre si.

A mais conhecida delas é, sem dúvida, self-actualization, graças à famosa pirâmide de hierarquia de necessidades humanas do psicólogo americano Abraham Maslow.

De acordo com essa teoria, self-actualization corresponderia ao ápice do desenvolvimento de um indivíduo. E o que essa expressão vem a significar, exatamente? Maslow coloca da seguinte maneira:

[Self-actualization] se refere ao desejo por self-fulfillment, isso é, à tendência de se tornar actualized [realizado] naquilo que se é potencialmente. Essa tendência pode ser descrita como o desejo de se tornar mais e mais o que se é, de se tornar tudo que uma pessoa seja capaz.

O trecho acima foi livremente traduzido de um artigo seu de 1943, e preferi deixar tanto self-actualization quanto self-fulfillment no original pra ressaltar que ambas as expressões podem ser sinônimos de autorrealização. (Provavelmente é por isso que muita gente prefere traduzir self-actualization como autoatualização.)

Mas a razão principal de eu abordar essas nuances é a seguinte: embora eu admire muito a teoria de Maslow (tanto é que vou voltar a ela logo mais), o que tenho em mente quando falo em autorrealização é o que em inglês se chama, de fato, de self-realization.

E qual a diferença?

Basicamente, o verbo realize – e, por tabela, o substantivo realization – pode ter o sentido não só de actualize (ou seja, “fazer acontecer”, “tornar real” etc.), mas também o de dar-se conta de algo – no caso, de si mesmo.

Ou seja, podemos dizer que self-realization é um termo ao mesmo tempo mais ambíguo e mais completo, já que uma pessoa que realiza a si mesma não só “atualiza” suas potencialidades, mas também as reconhece de fato.

Pode parecer frescura, mas essa distinção é fundamental pra mim. Como já comentei, isso é parte inextricável da minha própria missão, que envolve a crença no poder da música como um catalisador pra diferentes níveis de autoconsciência.

E também não é por acaso que self-realization é um termo muito usado em religiões orientais, já que tal realização de si mesmo faz com que um indivíduo se dê conta daquilo que ele é pra além do que faz ou deixa de fazer.

Dito isso – e correndo o risco de parecer ainda mais pedante –, a palavra que melhor define o que entendo por autorrealização talvez seja individuação, no sentido em que foi usada pelo suíço Carl Jung.

O que me impede de falar em individuação é que essa é uma expressão que pode muito facilmente ser mal interpretada. Assim, acho bom não usá-la tão livremente – a não ser em situações em que ela possa ser devidamente contextualizada.

No mais, assim como talvez mais pra frente eu passe a me definir como um compositor – e não só um “fazedor de canções“, como comentei no meu texto anterior –, nada me impediria de dar um outro salto.

E, pra falar disso, nada mais justo que terminar esse texto mencionando Maslow uma última vez, já que nos seus últimos anos de vida ele próprio reviu o seu modelo de desenvolvimento humano a fim de incluir um outro nível: transcendência.

Essa revisão veio justamente da sua percepção de que self-actualization não contempla uma dimensão verdadeiramente espiritual da vida. (Pena que isso geralmente passe despercebido até hoje entre os que citam a sua pirâmide de necessidades.)

Embora falar em transcendência me pareça um tanto leviano nesse momento, não vou me surpreender se eu passar a ter como minha maior ambição a de permitir que o que eu faço, cada vez mais, “se faça” através de mim.

Desconfio que essa é a ambição suprema que qualquer um pode ter: a de não ter ambição nenhuma.

Henrí Galvão

30 de abril de 2019

O texto de hoje é o último da série Enneagram & Music.

Nele, falo um pouco das minhas impressões sobre o que aprendi nos últimos meses.

E, acima de tudo, falo do que espero ter contribuído pra quem tem interesse pelo Eneagrama:

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Henrí Galvão

23 de abril de 2019

Hoje publico meu penúltimo texto pra Enneagram & Music, e talvez esse seja o mais passível de gerar controvérsia.

Isso porque falar do mexicano Carlos Santana é falar, em doses praticamente iguais, não só de paz e amor, mas também de diferentes tipos de excessos.

Talvez isso soe um pouco confuso, mas o Eneagrama está aí justamente pra isso:

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Henrí Galvão

18 de abril de 2019

Dizem que, pra criar inimizade, é só dizer a verdade com bastante frequência.

E o que fazer quando nem isso parece que adianta?

Letra:

Qual é o crime que eu ainda
Não estou à altura de cometer?
Se eu atirasse pra todos os lados
Isso ajudaria no meu résumé?

Pensei que era só me afastar
Do meu habitat natural
Como um peixe de água doce
Que nada em água com sal

Não é possível que eu tenha
Escapado outra vez
Sem um arranhão

Fui presa fácil
Pra quem quisesse me pegar
Com as calças na mão

Será que vou ter que me armar
De pena, tinteiro e papel?
É assim tão difícil encontrar
Um inimigo mais fiel?

Henrí Galvão

16 de abril de 2019

Secos & Molhados é o meu grupo brasileiro favorito desde sempre.

É claro que muito disso vem da música em si, mas também não tem como ignorar a atitude de contrariedade e não alinhamento daqueles três caras.

Atitude essa que Ney Matogrosso – como é comum entre pessoas do seu subtipo no Eneagrama – sempre fez questão de manter:

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