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Sobre Henrí Galvão

um fazedor de canções numa jornada de autorrealização https://www.fiverr.com/henrigalvao

Arte e loucura

Das várias impressões a respeito do que um artista é – ou do que ele deveria ser –, talvez poucas tenham persistido por tanto tempo no imaginário coletivo quanto aquela que associa a sua personalidade a graus mais ou menos controlados de loucura.

Essa associação não é muito surpreendente se formos considerar que, pra maior parte do público, o paradigma de um artista de verdade é aquela figura misteriosa que se vale de surtos de inspiração pra sondar verdades que seriam inacessíveis a meros mortais.

Num ótimo texto escrito para a revista The Atlantic há alguns anos, o crítico literário americano William Deresiewicz denomina tal paradigma como o “gênio criativo”, e traça as suas origens ainda no século XVIII (com a ascensão do movimento romântico na Europa e todo o seu culto ao indivíduo).

O interessante é que no mesmo texto Deresiewicz aponta que não só esse paradigma foi substituído ainda no século XX pelo do artista “profissional”, mas até mesmo este último já estaria sendo substituído por outro (o do “empreendedor criativo”).

Por que, então, a ideia do “gênio criativo” continua exercendo tanto fascínio?

Imagino que isso aconteça, em parte, porque é mais glamouroso pensar em um indivíduo que simplesmente “nasceu pra fazer aquilo”, como se ele nunca tivesse estudado e praticado bastante também (mesmo que fora do círculo acadêmico).

Por outro lado, faço questão de ressaltar que não me parece que faz o menor sentido ir no extremo contrário – como volta e meia vejo por aí – dos que olham para a vida e a obra de alguém como Van Gogh e dizem que ele foi um grande artista não por causa da sua loucura, mas a despeito dela.[1]

Não acho que seja possível que um louco no sentido psicopatológico do termo seja um grande artista, mas essa associação também não é de todo absurda. Afinal, a criatividade artística se beneficia de certa dose de inadaptabilidade social, o que (querendo ou não) pode deixar um artista com um pé na loucura.

É claro que a coisa se complica um pouco na medida em que diversos artistas se valeram dessa expectativa por parte do público pra cultivar deliberadamente uma imagem de excentricidade. (O exemplo clássico disso no século XX foi Salvador Dalí.)

Mas a coisa fica séria mesmo não só quando um artista passa a usar tal expectativa como um “passe livre” pra atitudes que de outra forma seriam inaceitáveis, mas também quando ele/ela realmente acha que depende da “loucura” pra fazer algo realmente excepcional.

Ambas as situações me parecem ser o caso de Kanye West. Depois das várias polêmicas em que se meteu ao longo dos anos, não faz muito tempo que o rapper americano comentou que havia sido hospitalizado pra lidar com seu transtorno bipolar.

A própria capa do seu álbum de estúdio do ano passado, ye, diz: “I hate being Bi-Polar it s awesome” (“Eu odeio ser bipolar. É fantástico.”), e, numa declaração no Twitter meses depois, ele disse com todas as letras que os medicamentos que tomava estavam interferindo na sua criatividade.

O exemplo de Kanye é extremo, mas são muitos os artistas que sentem que estar demasiadamente “bem” poderia trazer consequências indesejadas ao seu trabalho. E talvez dê pra dizer que o que todos eles têm em comum é o medo do chamado estado de presença.

Isso é mais que compreensível para aqueles de nós que se identificam plenamente com a forma com que Carl Jung falava sobre a psicologia do artista: “a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento.”

Logo, ficar muito “centrado” pode facilmente ser visto como uma ameaça ao processo criativo, já que tal estado de espírito não nos faria “baixar a guarda” o suficiente pra que o “instinto” artístico se apodere de nós e faça o seu trabalho.

É um pouco como aquela famosa frase da psiquiatra Nise da Silveira: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.”

Caramba, como sair dessa?

Acredito que o próprio Jung oferece uma resposta bem satisfatória quando fala de individuação. Da forma com que ele entendia esse processo, podemos dizer que se trata de alcançar a autorrealização não exorcizando nossos demônios, mas justamente aceitando-os e integrando-os à nossa psique.

Ou seja, a questão não é se tornar alguém “curado”, mas simplesmente alguém mais “inteiro” – enfim, um indivíduo no sentido mais amplo do termo.

O grande barato disso para o artista, a meu ver, é a possibilidade de estar cada vez mais presente para se dedicar ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, entregar-se a ele com um nível de devoção que antes pareceria quase inimaginável (quando não assustador).

Essa é uma ideia que pretendo desenvolver melhor no meu próximo texto (o qual, por sinal, será o último que pretendo publicar por um tempo), já que aqui entramos numa discussão que trata de dois tipos de abordagens muito diferentes em relação ao processo criativo.

 

[1] Aliás, é bem possível que Van Gogh sequer fosse considerado necessariamente louco se vivesse nos dias de hoje. De qualquer forma, o próprio entendimento do que é loucura mudou tanto nas últimas décadas que deve ser um verdadeiro desafio fazer uma análise mais precisa sobre alguém que viveu há mais de um século.


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Henrí Galvão

18 de setembro de 2019

Se é verdade que boa parte do potencial humano ainda está pra ser explorado, daí até que uma pessoa se sinta no direito de explorá-lo pode ter uma distância enorme.

E talvez pra muitos essa distância nem pareça que vale a pena de ser percorrida. (Até porque, pra essas coisas, o tempo nunca parece que joga a nosso favor.)

Letra:

Se já é tarde
Só posso ser quem eu sempre fui
Não vou renegar a vida
Que eu levei

Não se culpe
Você fez o que tinha que fazer
Eu é que nunca dei ouvidos
A qualquer tipo de sermão

Ser forte era tudo
O que eu queria ser
Quem estava lá
Quando eu mais precisei?
Compaixão, caridade
Tudo isso é uma miragem

Nunca me importei
De aprender a rezar
E não vai ser agora
Que eu vou começar
Por que não guarda
As suas preces
Pra quem de fato
Te merece?

“Ainda tenho de ser educada?”

Os últimos três textos que escrevi para o blog foram dedicados em sua maior parte a falar do quanto considero problemática a concepção de arte de um dos mais importantes místicos do século XX, o russo George Gurdjieff.

Mas talvez seja importante dizer que, se fiz isso, não foi por antipatia a Gurdjieff. Muito pelo contrário: não sinto nada além de gratidão pelo que venho aprendendo com os princípios do Quarto Caminho (que é o nome que ele dava à sua doutrina).

Destes, um que me fascinou de cara – e que, com o meu limitado conhecimento de espiritualidade e religião, eu nunca vi ser formulado de forma tão contundente em nenhum outro lugar – é o da diferença entre o saber e o ser.

Já falei sobre isso no texto que publiquei em junho aqui no blog, quando trouxe um trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido (escrito por P. D. Ouspensky) em que Gurdjieff dizia que “o grau do saber de um homem é função do grau de seu ser”.

Pra melhor entender essa frase (e pra complementar tudo o que foi dito no texto de junho), transcrevo abaixo o que ele diz pouco antes disso:

[…] Na civilização ocidental muito particularmente, admite-se que um homem pode possuir um vasto saber, pode ser, por exemplo, um sábio eminente, autor de grandes descobertas, um homem que faz progredir a ciência e, ao mesmo tempo, pode ser e tem o direito de ser um pobre egoísta, discutidor, mesquinho, invejoso, vaidoso, ingênuo e distraído. Parece que aqui se considera que um professor tem que esquecer sempre seu guarda-chuva. […] (grifo meu)

Deve ser difícil achar uma pessoa que tenha alcançado certo nível de reconhecimento em qualquer área que não tenha, em maior ou menor medida, passado a se permitir ser menos vigilante em relação às suas fraquezas de caráter.

Pra trazer essa discussão pro campo da música, a frase-título do texto de hoje me parece um exemplo e tanto disso.

Elis Regina fotografada por Marcia Santos

Essa frase é geralmente atribuída a Elis Regina – considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos –, sendo que a citação completa é a seguinte: “Por que exigem de mim tanta coisa? Sou boa cantora e ainda tenho de ser educada?”

É claro que seria injusto e irresponsável da minha parte querer tirar maiores conclusões sobre uma pessoa a partir de uma única citação, sendo que nem mesmo sei de que contexto ela foi tirada.

Mas, sinceramente, mesmo se descobrissem que essa citação foi toda inventada, isso faria pouca diferença pra mim. O que realmente me preocupa é que seja perfeitamente possível que uma grande cantora diga algo assim sem que isso cause estranhamento.

Imagina se, ao invés disso, ela tivesse dito: “Poxa, sou educada, gentil e meiga. Ainda tenho que cantar bem?” Esta citação, sim, seria um absurdo. Já a anterior, não. Por quê? É esse tipo de desequilíbrio, tão presente na nossa sociedade, a que Gurdjieff se referia.

Repare que não estamos falando de diferenças entre habilidades. É claro que qualquer pessoa que foque em determinada área dificilmente vai alcançar um nível parecido em outros campos da vida. (Seria demais esperar que Pelé fosse um grande cantor, por exemplo.)

A questão, como comentei alguns parágrafos atrás, é que estamos falando de qualidades de caráter. E não me parece uma atitude muito inteligente chegar ao ponto de sentir orgulho das próprias limitações no que se refere a isso.

Inclusive eu poderia defender essa minha argumentação com uma outra frase atribuída a Elis: “Importante é recuperar o ser para o próprio ser, na procura da melhoria da qualidade de vida.”

Se há uma certa contradição entre essa citação e a anterior, isso tampouco é de se surpreender. Outra coisa que Gurdjieff observava era o quanto falta à maioria de nós uma verdadeira unidade em termos de opiniões, intenções etc.

Como ele disse certa vez, “O homem está fragmentado numa multidão de pequenos ‘eus'”. Me parece evidente que Elis Regina não era uma exceção a essa regra.

(E eu, é claro, também não.)


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Henrí Galvão

16 de agosto de 2019

Não me considero cristão, embora tenha sido batizado e tenha feito a primeira comunhão e tudo mais.

Por outro lado, ultimamente venho me familiarizando um pouco melhor com as diferenças entre o Antigo e o Novo Testamento.

Não estou aqui pra tirar grandes conclusões, até porque a minha perspectiva seria até previsível pra quem realmente conhece a Bíblia.

Ainda assim, as diferenças entre o antes e o depois são consideráveis, não é?

Letra:

Veja o quão maravilhoso é o espetáculo da criação
Todo fruto lhe é permitido, exceto aquele – aquele não!
Prová-lo é ser deixado ao azar da intempérie que se seguirá
Quando as trevas trouxerem o caos e a desolação

Quem me desobedecer não será digno do meu perdão
Este será o primeiro a sofrer na minha mão
Eu sou o olho que tudo vê, não haverá onde se esconder
Quando as trevas trouxerem o caos e a desolação

Os rios serão cobertos de sangue
A noite cairá num só instante
E o terror estampará as faces
Do corajoso e do covarde

Não importa o quão justo você se julgue perante mim
Ou o quanto você anseie por antecipar o próprio fim
O seu destino eu já tracei, e a minha palavra é a lei
O que lhe é resta é esperar pelo dia da revelação
Não haverá tormento igual ao dos que seguem os caminhos do mal
Quando as trevas trouxerem o caos e a desolação

A acidentalidade do juízo estético

Pra fechar essa série de três textos sobre o termo arte objetiva de acordo com o místico russo George Gurdjieff, nas próximas linhas vou abordar um segundo aspecto dessa definição de arte com o qual não estou totalmente de acordo.

Se você chegou até aqui e não está familiarizado com os ensinamentos de Gurdjieff, recomendo fortemente a leitura do meu texto de dois meses atrás, visto que não tem como separar essa sua concepção de estética da doutrina do Quarto Caminho.

Ainda assim, posso escolher uma única frase sua (que já aparece no meu primeiro texto) como ponto de partida pra tudo o que estou discutindo nessa série: “Quando se trata de arte objetiva, não pode haver nada de acidental, nem na própria criação da obra, nem nas impressões que dá.”

No texto passado, ao falar do processo criativo, trouxe o pensamento do psicanalista suíço Carl Jung pra defender a minha posição de que mesmo o que parece “acidental” numa obra de arte pode muito bem estar de acordo com a expressão de princípios impessoais.

Logo, embora eu considere radical e até irreal a noção de que “não pode haver nada de acidental” na criação, naquele texto me pareceu muito mais importante dizer que a falta de controle por parte do artista não impede que ele crie algo relevante em termos espirituais.

Hoje, porém, a minha crítica vai ser um pouco mais direta. Isso porque, como vimos no terceiro parágrafo do texto de hoje, Gurdjieff considerava que também na apreciação estética da arte objetiva não podia haver “nada de acidental”. Em outras palavras,

[…] Tudo é matemático. Tudo pode ser calculado e previsto de antemão. O artista sabe e compreende a mensagem que quer transmitir e sua obra não pode produzir certa impressão num homem e impressão completamente diferente noutro, sob a condição, naturalmente, de que se tomem pessoas de um mesmo nível. […]

A primeira coisa a se comentar a respeito de mais esse trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido é que o próprio Gurdjieff ressaltava que as impressões que uma obra de arte transmite nunca vão ser, a rigor, totalmente objetivas.

Como ele diz em outro momento no mesmo livro (que, nunca é demais lembrar, foi escrito por Ouspensky, e não por ele): “[…] para poder extrair alguma coisa [da arte objetiva], são necessários uma grande unidade interior e um grande controle de si.”

Ainda assim, haveria algo de substancialmente diferente nesse tipo de arte na medida em que ela (sabe-se lá como) estaria além das associações feitas de forma espontânea pelos diferentes indivíduos sujeitos às suas impressões.

O porquê de a arte objetiva estar além dessas associações é um mistério pra mim, e talvez essa seja a principal razão de, como comentei logo no início do meu primeiro texto dessa série, eu não me sentir à altura de falar com propriedade sobre esse assunto.

Ou, talvez, porque certo mistério e maleabilidade sejam parte fundamental do que faz uma obra de arte. Obviamente, não era assim que Gurdjieff via as coisas, já que esse tipo de imprecisão seria para ele “inconsciência” – o pecado mortal no esoterismo.

Mas, mesmo considerando que seja possível que uma determinada obra de arte revele princípios objetivos – a realidade tal como ela é – sem nenhum tipo de ambiguidade, seria essa a sua função?

Acredito que não. Não foi à toa que falei sobre Jung e o inconsciente coletivo no meu texto anterior, porque realmente acredito que é assim que o artista pode melhor atender às demandas da sociedade em que está inserido.

Da mesma foma que acessar o inconsciente pessoal é uma forma de um indivíduo integrar aspectos da sua psique que não estejam muito bem resolvidos, o mesmo ocorre no acesso de uma sociedade, através da arte, ao inconsciente coletivo da humanidade.

É claro que esse processo pode ser um tanto frustrante pra quem espera respostas prontas e um caminho muito claramente delimitado. Como Jung diz ao final de seu texto “Psicologia e poesia” (incluído no livro O Espírito na Arte e na Ciência),

Uma obra-prima é como um sonho que[,] apesar de todas as suas evidências[,] nunca se interpreta a si mesmo e também nunca é unívoco. Nenhum sonho diz: “Você deve”, ou “esta é a verdade”; ele apenas propõe uma imagem, tal como a natureza que faz uma planta crescer. Compete a nós mesmos tirar as conclusões.

Com essa última citação espero ter deixado claro o porquê das minhas críticas à arte objetiva. O que com certeza não espero é trazer outras pessoas pro “meu lado”, até porque entendo que defendo uma perspectiva que, como vimos, traz uma série de limitações.

Não só por causa de uma certa (e já mencionada) ambiguidade, mas também porque ter um entendimento da arte mais de acordo com o que Jung pregava faz com que ela não tenha o mesmo caráter de atemporalidade da definição de arte objetiva de Gurdjieff.

Logo, num e noutro caso, não estamos falando de uma escolha simples de se fazer. De qualquer forma, o mero reconhecimento de que não existe apenas uma maneira de se honrar a dimensão espiritual da arte já me parece extremamente gratificante e valioso.


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Henrí Galvão

15 de julho de 2019

Foi ainda no final de abril que publiquei meu último texto para a série Enneagram & Music no Medium.

Assim sendo, achei que seria interessante ter uma discussão um pouco mais avançada sobre as implicações de se estudar os diferentes subtipos do Eneagrama.

Particularmente se você estiver entre os que são considerados contratipos nesse sistema.

Caso seja o seu caso (ou caso tenha interesse em saber melhor do que isso se trata), é minha esperança que o texto abaixo seja particularmente útil pra você:

View at Medium.com

Henrí Galvão

10 de julho de 2019

Se você clicou no link pro Bandcamp da música que compartilhei ontem, provavelmente já imagina o que vou falar aqui.

A partir de agora, todas as músicas que fazem ou fizeram parte da playlist impermanente têm os seus acordes no Bandcamp.

É só acessar cada faixa individualmente, que logo abaixo da letra você vai poder ver a cifra também. 🙂