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Sobre Henrí Galvão

um fazedor de canções numa jornada de autorrealização

Henrí Galvão

7 de janeiro de 2020

Já fazia um tempo que eu estava pra reescrever pelo menos algumas partes da letra de “Labirinto de Espelhos”.

Foi então que eu percebi que não bastava reescrever um trecho ou outro.

Precisava, isso sim, reescrever a letra como um todo.

Pelo menos agora, emocionalmente falando, já me sinto mais honesto comigo mesmo:

Emocionalmente, faz pouca diferença
Que você diga tudo que pensa
Se não tiver uma fé imensa
No caminho que escolheu pra si

Quanta gente atravessa essa fronteira
Ainda mais de primeira?
Sei de quem leva uma vida inteira
Pra aprender a adestrar a imaginação
A dar por certo o que é só especulação

Eu mesmo já me dispersei tantas vezes
É até constrangedor confessar
O que me salva é que eu nunca enjoo
Do gosto do maná

Também não sou de desprezar um cisne negro
Se pra você eu estou falando grego
Olha pro chão, pega aquele trevo
E me diz quantas folhas ele tem

Não tenho a pretensão de me tornar
Um santo, ou algo assim
Nem estou nadando contra a corrente
O que eu quero é pura e simplesmente sentir

Henrí Galvão

29 de dezembro de 2019

Acabei de estrear a página “agora” do site.

Como sugerido por Derek Sivers, nela falo do que é mais importante para mim neste momento.

Sivers explica o propósito disso da seguinte maneira: “Pense no que você diria a um amigo que você não vê há um ano.”

Já facilita muito pra se ter uma conversa interessante, não é?

Assim, se tiver algo a me dizer, sugiro que antes dê uma olhada nessa página (que vai estar sempre atualizada).

Um ótimo 2020!

Henrí Galvão

13 de dezembro de 2019

Uma vez ouvi dizer que seria possível ter qualquer coisa, mas que não seria possível ter tudo.

Pelo menos não ao mesmo tempo.

Verdade ou não, acho que é essa a energia por trás da última canção que compartilho neste ano:

Torço pra que você entenda
Que eu não sou mais que um homem
Se eu sair dessa
Juro que volto pra te dar
Toda a atenção que você merece
Até lá, o meu lugar é aqui
Fazendo o melhor que posso
Pra me submeter
Àquela paz tão radical
Que vem de sentir
Uma espécie de gratidão
Por dias assim
Não serem mais tão comuns
E, se eu falo em dias,
É só pra facilitar
Esse momento, no fundo,
É tudo o que há
Só preciso me lembrar
Que nada é meu
Nada é meu
Nada é meu

Henrí Galvão

14 de novembro de 2019

Teve uma vez uma música que decidi chamar de “Arcos”.

A música em si me agradava; a letra, nem tanto.

Agora que a reescrevi, posso resumir o que sinto numa única palavra: completude.

Pra que falar em anil
Violeta, ardósia e bordô
Se nem Picasso descobriu
O que fazer com tanta cor?

Qual a necessidade
De saber o ponto exato
Em que cada uma deve ficar?
Isso é pura falta de fé
E sem fé não dá nem pra começar

Não sei se você percebeu
Mas os pincéis que você tem
São iguaizinhos aos meus
É a mesma marca, meu bem

Qual a sua desculpa
Pra não ver o que eu vejo?
Olha só pra esse céu ao seu redor
O trabalho é o mesmo
Pra todo e qualquer desejo
Desde o menor até o maior

Com certeza você já duvidou
Dessa tal de realidade
Então, me diz,
Quem você pensa que eu sou:
Um homem ou um avatar?

Você já tem ao seu dispor
Tudo que alguém pode querer
Pra ser um ótimo pintor:
Conhecimento, poder
E amor

Sobre ter o que dizer

No início do ano o americano Cass McCombs lançou seu mais recente álbum de estúdio, Tip of the Sphere (que, por sinal, é quase tão bom quanto o anterior, Mangy Love), e foi tema de uma matéria muito interessante da revista Vanity Fair.

A autora da matéria em questão, Erin Vanderhoof, observou que as músicas de Cass são conhecidas por fazer “coisas agradavelmente inesperadas”. O que, segundo ele, viria da forma com que costuma compor:

A minha abordagem é de trás pra frente”, ele diz a respeito do seu processo de composição, “ao escrever, geralmente, a letra primeiro, e depois tentar fazer a adaptação pra uma música… ao invés do outro jeito, que eu tentei fazer no passado. Você nunca realmente consegue dizer o que quer quando escreve a música primeiro e depois tenta – sei lá – triturar um punhado de palavras naquele espaço. Isso parece pouco natural pra mim.

Embora o meu próprio processo de composição seja o que Cass aparentemente entenderia como sendo o mais lógico – ou seja, primeiro vem a música, depois vem a letra –, concordo totalmente com a sua opinião de que isso é bem pouco natural.

Inclusive me parece até irônico que ele diga isso, porque logo em seguida, na mesma matéria, ele diz que a música é um “artifício”, algo “falso” e “sintético”, e que… “É justamente isso o que eu gosto nela”.

Só aí já dá pra ver como a questão do valor da “naturalidade” na arte rende uma discussão e tanto. Mas como em agosto do ano passado dediquei todo um texto pra falar sobre isso, quero focar em outro ponto aqui.

O trecho que mais me interessa na citação que transcrevi é aquele em que Cass diz que um compositor nunca consegue “realmente” dizer o que quer quando a letra está subordinada à música.

Essa é outra opinião com a qual também estou de acordo, mas o fato é que isso nunca me incomodou muito. Talvez porque, diferentemente dele, não me considero um músico que tenha o que dizer.

Sei que essa última frase pode soar estranha. Pra evitar qualquer mal entendido, acho válido destacar novamente algo que mencionei num texto de setembro do ano passado: a diferença entre “gerar” e “expressar” emoções através da arte.

Essa diferença foi abordada por David Byrne num trecho do seu livro Como Funciona a Música, quando ele defende que “Fazer música é como criar uma máquina que serve para desenterrar as emoções tanto dos intérpretes quanto dos ouvintes.”

Essa citação de Byrne diz muito sobre a minha experiência como compositor porque, sinceramente, ter ou não ter o que dizer faz muito pouca diferença pra mim.

Afinal, de um jeito ou de outro, eu nunca sei o que vou dizer até o momento em que me manifesto de fato. O que digo está sempre subordinado ao que a música quer que eu diga (ou o que ela me permite dizer, o que pra mim dá no mesmo).

E tudo isso me lembra de algo que mencionei há quatro meses, num texto em que comparei as perspectivas de Jung e de Gurdjieff quanto ao processo criativo.

Na ocasião, falei sobre o que Gurdjieff chamava de arte objetiva, a qual contrastei com a visão de Jung, para quem (transcrevendo as minhas próprias palavras) “o processo criativo nunca estaria totalmente sob controle do artista, por mais que ele pudesse pensar o contrário.”

O que fica implícito aí é que, apesar de, no fim das contas, o artista nunca ter controle total sobre a sua criação, existem aqueles que abordam o processo criativo de forma totalmente deliberada (exatamente como Gurdjieff dizia que devia ser) e pensam que estão no controle.

Cito abaixo um trecho de um texto de Jung chamado “Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética” (que aparece no livro O Espírito na Arte e na Ciência) em que ele fala disso com mais detalhes:

[…] Existem obras em prosa e verso que nascem totalmente da intenção e determinação do autor, visando a este ou àquele resultado específico. Neste caso, o autor submete seu material a ser trabalhado a um tratamento com propósito definido, tirando ou adicionando, enfatizando um efeito, atenuando outro, dando um toque colorido aqui, outro acolá, considerando cuidadosamente os possíveis efeitos e observando constantemente as leis do belo e do estilo. Neste trabalho o autor aplica seu julgamento mais criterioso e escolhe com inteira liberdade a expressão desejada. Seu material é para ele apenas material, subordinado ao seu propósito artístico: é isto que ele quer produzir e nada além disto. […]

Esse é um tipo de artista. Já o outro tipo, segundo Jung, é aquele que “tem consciência de estar submetido à sua obra ou, pelo menos, ao lado, como uma segunda pessoa que tivesse entrado na esfera de um querer estranho.”

O primeiro tipo (do qual talvez Cass McCombs seja um exemplo, pelo menos no que se refere à escrita de letras) expressaria uma atitude de “introversão” artística, enquanto o segundo (no qual me incluo) expressaria principalmente uma atitude de “extroversão”.

A simples menção das palavras “introversão” e “extroversão” já é capaz de causar muita confusão. Por isso, também me parece prudente mostrar como Jung define essas duas atitudes (pelo menos quanto à criação artística):

[…] O gênero introvertido caracteriza-se pela afirmativa do sujeito e de suas intenções e finalidades conscientes em oposição às solicitações do objeto; em contrapartida, o gênero extrovertido é caracterizado pela subordinação do sujeito às solicitações do objeto. […]

É por ter essa abordagem mais “extrovertida” que, com todas as limitações que a música me impõe no que se refere à escrita de uma letra, me sinto grato por ter algo que me leve a caminhos aos quais eu provavelmente não chegaria por conta própria.

O que, por sua vez, também tem tudo a ver com o fato de que este é o meu último texto para o blog, pelo menos por um bom tempo.

Não por falta do que dizer (a essa altura acho que já deixei bem claro que essa nunca foi a questão pra mim). Simplesmente pra poder direcionar os meus esforços pra que aquilo que canto se faça ouvir mais claramente.

Pelo menos praqueles que estejam dispostos a me ouvir.


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Henrí Galvão

17 de outubro de 2019

O próprio ato de se dedicar a qualquer expressão artística já pode ser considerado uma forma de brincar com fogo.

E é quando essa brincadeira fica séria que isso fica mais evidente:

Letra:

Nem eu mesmo entendo o que eu digo
Sou como um cego guiando outro cego
Já sofri todo tipo de castigo
Mas parece que nem assim eu sossego

Deixo o meu choro pra alguma hora
Em que alguém me reconheça
Já não é fácil me concentrar agora
Com tanta coisa na minha cabeça

Não sei o que eu fiz de errado
Que não sirvo pra ser nem infiel, nem crente
Não sei dizer nem o que é pecado

Será que o segredo é simplesmente
Passar pela vida como um exilado
E só estar aqui de corpo presente?

Arte e loucura

Das várias impressões a respeito do que um artista é – ou do que ele deveria ser –, talvez poucas tenham persistido por tanto tempo no imaginário coletivo quanto aquela que associa a sua personalidade a graus mais ou menos controlados de loucura.

Essa associação não é muito surpreendente se formos considerar que, pra maior parte do público, o paradigma de um artista de verdade é aquela figura misteriosa que se vale de surtos de inspiração pra sondar verdades que seriam inacessíveis a meros mortais.

Num ótimo texto escrito para a revista The Atlantic há alguns anos, o crítico literário americano William Deresiewicz denomina tal paradigma como o “gênio criativo”, e traça as suas origens ainda no século XVIII (com a ascensão do movimento romântico na Europa e todo o seu culto ao indivíduo).

O interessante é que no mesmo texto Deresiewicz aponta que não só esse paradigma foi substituído ainda no século XX pelo do artista “profissional”, mas até mesmo este último já estaria sendo substituído por outro (o do “empreendedor criativo”).

Por que, então, a ideia do “gênio criativo” continua exercendo tanto fascínio?

Imagino que isso aconteça, em parte, porque é mais glamouroso pensar em um indivíduo que simplesmente “nasceu pra fazer aquilo”, como se ele nunca tivesse estudado e praticado bastante também (mesmo que fora do círculo acadêmico).

Por outro lado, faço questão de ressaltar que não me parece que faz o menor sentido ir no extremo contrário – como volta e meia vejo por aí – dos que olham para a vida e a obra de alguém como Van Gogh e dizem que ele foi um grande artista não por causa da sua loucura, mas a despeito dela.[1]

Não acho que seja possível que um louco no sentido psicopatológico do termo seja um grande artista, mas essa associação também não é de todo absurda. Afinal, a criatividade artística se beneficia de certa dose de inadaptabilidade social, o que (querendo ou não) pode deixar um artista com um pé na loucura.

É claro que a coisa se complica um pouco na medida em que diversos artistas se valeram dessa expectativa por parte do público pra cultivar deliberadamente uma imagem de excentricidade. (O exemplo clássico disso no século XX foi Salvador Dalí.)

Mas a coisa fica séria mesmo não só quando um artista passa a usar tal expectativa como um “passe livre” pra atitudes que de outra forma seriam inaceitáveis, mas também quando ele/ela realmente acha que depende da “loucura” pra fazer algo realmente excepcional.

Ambas as situações me parecem ser o caso de Kanye West. Depois das várias polêmicas em que se meteu ao longo dos anos, não faz muito tempo que o rapper americano comentou que havia sido hospitalizado pra lidar com seu transtorno bipolar.

A própria capa do seu álbum de estúdio do ano passado, ye, diz: “I hate being Bi-Polar it s awesome” (“Eu odeio ser bipolar. É fantástico.”), e, numa declaração no Twitter meses depois, ele disse com todas as letras que os medicamentos que tomava estavam interferindo na sua criatividade.

O exemplo de Kanye é extremo, mas são muitos os artistas que sentem que estar demasiadamente “bem” poderia trazer consequências indesejadas ao seu trabalho. E talvez dê pra dizer que o que todos eles têm em comum é o medo do chamado estado de presença.

Isso é mais que compreensível para aqueles de nós que se identificam plenamente com a forma com que Carl Jung falava sobre a psicologia do artista: “a arte, nele, é inata como um instinto que dele se apodera, fazendo-o seu instrumento.”

Logo, ficar muito “centrado” pode facilmente ser visto como uma ameaça ao processo criativo, já que tal estado de espírito não nos faria “baixar a guarda” o suficiente pra que o “instinto” artístico se apodere de nós e faça o seu trabalho.

É um pouco como aquela famosa frase da psiquiatra Nise da Silveira: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata.”

Caramba, como sair dessa?

Acredito que o próprio Jung oferece uma resposta bem satisfatória quando fala de individuação. Da forma com que ele entendia esse processo, podemos dizer que se trata de alcançar a autorrealização não exorcizando nossos demônios, mas justamente aceitando-os e integrando-os à nossa psique.

Ou seja, a questão não é se tornar alguém “curado”, mas simplesmente alguém mais “inteiro” – enfim, um indivíduo no sentido mais amplo do termo.

O grande barato disso para o artista, a meu ver, é a possibilidade de estar cada vez mais presente para se dedicar ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, entregar-se a ele com um nível de devoção que antes pareceria quase inimaginável (quando não assustador).

Essa é uma ideia que pretendo desenvolver melhor no meu próximo texto (o qual, por sinal, será o último que pretendo publicar por um tempo), já que aqui entramos numa discussão que trata de dois tipos de abordagens muito diferentes em relação ao processo criativo.

 

[1] Aliás, é bem possível que Van Gogh sequer fosse considerado necessariamente louco se vivesse nos dias de hoje. De qualquer forma, o próprio entendimento do que é loucura mudou tanto nas últimas décadas que deve ser um verdadeiro desafio fazer uma análise mais precisa sobre alguém que viveu há mais de um século.


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