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Sobre Henrí Galvão

um não músico numa jornada de autorrealização

Por que lançar um álbum?

De todos os capítulos do livro Como Funciona a Música, de David Byrne, talvez à primeira vista o que pareça o menos interessante para quem não esteja de alguma forma envolvido com essa indústria seja o sétimo, cujo título é “Negócios e finanças”.

Grown Backwards, de 2004É neste capítulo que Byrne apresenta bem detalhadamente o balanço financeiro de seu álbum Grown Backwards, de 2004. Mas pro propósito do texto de hoje me parece suficiente dizer que o retorno líquido desse lançamento, ainda que digno, esteve longe de ser espetacular.

O que não foi nada surpreendente, é claro. Àquela altura (primeira metade dos anos 2000) os downloads (ilegais ou não) já haviam feito o seu estrago, e as vendas de discos passaram a representar uma fatia cada vez menor do mercado desde então.

Mas o mais interessante disso tudo é que, embora Como Funciona a Música tenha sido lançado já em 2012 (quando até mesmo os downloads já começavam a dar sinais de cansaço), nesse mesmo capítulo Byrne faz a seguinte observação:

[…] Conversei há pouco tempo com alguns músicos novos que ainda estão vendo a indústria afundar, e quando perguntei por que eles ainda insistiam em lançar um disco convencional, a resposta era: “Bom, quero fazer um enquanto eles ainda existem”. Talvez eu mesmo venha trabalhando sob um impulso similar: só deixa eu passar por baixo da cerca antes que o jogo acabe.

Não é todo dia que se vê uma confissão de irracionalidade tão desavergonhada quanto essa. Afinal, o principal motivo aqui apresentado para lançar um álbum seria, de fato, um ótimo motivo para não fazê-lo. E isso por si só já justifica uma investigação mais atenta.

Pra começar, quando falo em irracionalidade, é claro que não estou dizendo que tal comportamento não faça sentido. Como já foi dito por estudiosos das mais diferentes áreas, todo comportamento humano busca suprir algum tipo de necessidade.

Neste caso, estamos falando de uma necessidade emocional profunda (e às vezes traiçoeira), que é a de se sentir legitimado. O que, para muitos músicos, significa lançar um álbum no sentido mais “convencional” do termo.

Como Byrne observa, isso afeta inclusive músicos bem mais jovens que ele, o que, levando em conta o ano de lançamento do livro, nos leva a crer que ele estivesse se referindo especificamente a artistas da geração Y.

E por que essa informação seria relevante? Porque, como comentei num texto que publiquei aqui ano passado, essa geração possui a particularidade de ter crescido admirando músicos de uma era que chegava a seu fim justamente quando eles mesmos começavam a entrar no mercado.

Daí porque lançar um álbum propriamente dito ainda é tão significativo para tantos artistas hoje na faixa dos 30 anos. Acima de tudo, é uma questão de sentir ter alcançado o mesmo que seus ídolos. Se não do ponto de vista comercial, ao menos em termos de reconhecimento e prestígio.

O problema é que esse tipo de vaidade tende a, literalmente, custar caro. São pouquíssimos os músicos que podem se dar ao luxo de se dedicar tanto a algo que, se não for bem pensado, pode retardar ou até mesmo pôr em risco a própria sustentabilidade de suas carreiras.

Não que seja assim tão difícil lançar um álbum convencional. Tecnicamente, nunca foi tão fácil. A questão é que isso é cada vez menos vantajoso (e eu diria até cada vez menos necessário) numa época de acesso imediato a arte e entretenimento.

Feitas todas essas considerações, talvez a pergunta seja menos “por que” lançar um álbum, e mais “para quem”.

Como tudo na vida e nos negócios, é uma questão de demanda. Se o público de um determinado artista ainda faz questão de ter um CD (ou algum outro tipo de suporte físico para escutar música), faz sentido, do ponto de vista comercial, levar isso em conta.

Mas esse é um público cada vez mais segmentado, e para atingi-lo talvez seja necessário dosar um pouco essa necessidade de legitimação em larga escala com a oportunidade única que a internet oferece de encontrar e se conectar com a sua tribo.

Quando se encara a questão dessa forma, um álbum pode até continuar sendo uma ótima ideia, mas o fato é que o produto em si passa a ser o de menos. O que importa é poder contar a sua história, com a certeza de que pelo menos alguém esteja ouvindo de verdade.

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Henrí Galvão

3 de dezembro de 2018

Pode parecer óbvio dizer que tão ou mais importante quanto saber o que fazer é saber o que não fazer.

O que é até um alívio.

Afinal, não atrapalhar já pode ser, por si só, uma ajuda e tanto.

Letra:

Lá pelas 6 da manhã
Eu já começo a me aprontar
Pra quando o sol se põe

Mas te juro que nem sei
Por que ainda acho melhor
Ficar sem pai nem mãe

Não foi tão ruim
Ter cruzado o deserto
A mais de mil
Sem parar
Pra tapar o furo
No meu cantil
Pelo menos
Não faltou disposição

Sei que abusei do azar
Ainda assim, quero te pedir
Só mais um favor

Se eu me perder por aí
Queira me conceder
O benefício da dor

Me deixa ver
Qual o cúmulo
Da minha insensatez
E viver
Um fracasso e uma derrota
De cada vez

A areia do tempo
Nunca trai o charme do luar
De alguma forma
Eu sempre dou um jeito
De me superar
Ou de me remendar
Pode confiar

Henrí Galvão

13 de novembro de 2018

Quase sempre me parece que a palavra ambição é usada de forma bastante limitada.

Afinal, se ela pode significar um “desejo veemente de poder ou do que dá superioridade”, também é possível entendê-la como um “grande desejo de realizar ou atingir algo“.

Olhando por esse lado, existe ambição maior do que buscar realizar a si mesmo?

Letra:

Nunca te alcancei
De nada adiantou
Ter tentado me pôr no seu lugar
Era tanto o que eu tinha
Que aprender a desejar

A sua carapuça não me serve
O que eu quero perder
Me move mais que qualquer quinhão
Seria isso uma bênção ou uma maldição?

Em função da arte

No texto anterior dessa série sobre o livro Como Funciona a Música, procurei trazer a perspectiva de David Byrne sobre como um músico em início de carreira pode se beneficiar da aparente indiferença de uma audiência.

Essa é uma ideia a princípio contraintuitiva, já que, até onde sei, ninguém faz música para ser ignorado. Mas acredito que, depois de se levar em conta os argumentos de Byrne, não acho que seja difícil reconhecer o valor da sua posição.

Já o assunto de hoje toca num ponto bem mais delicado: qual a função da arte para o desenvolvimento de uma sociedade? Quanto a isso, trago aqui mais uma citação do livro:

Ellen Dissanayake, uma antropóloga cultural e autora de Homo aestheticus […], diz que nos primórdios – na pré-história, na verdade –, todas as formas de arte eram produzidas de forma comunal, o que tinha o efeito de reforçar a coesão entre um grupo, aumentando assim suas chances de sobrevivência. Em outras palavras, a escrita (literatura), a música e a pintura tinham uma função prática de uma perspectiva evolutiva. Talvez, como nos esportes, a música funcione como um jogo – um “time” de músicos é capaz de fazer o que uma pessoa sozinha não consegue. Produzir música exige aprender coisas que vão muito além da composição e improvisação.

Me parece que o trecho acima faz bastante sentido, e pouca gente argumentaria contra a ideia de que qualquer atividade em grupo tende a servir para que um indivíduo se sinta mais integrado à sua comunidade.

O “ponto delicado” a que me referi diz respeito menos à hipótese formulada por Dissanayake, e mais à própria natureza da pergunta.

Em outras palavras, ao ser questionado sobre qual a função da arte, um artista poderia muito responder da seguinte forma (não sem uma boa dose de indignação): e quem disse que a arte tem que ter uma função?

É uma resposta muito válida, visto que falar na “função” do que quer que seja nos remete quase sempre ao conceito de utilidade. E, como disse Oscar Wilde certa vez, “toda arte é completamente inútil”.

Daí porque considero fundamental discernir utilidade de valor. Um trabalho artístico pode não necessariamente ser útil, mas ele pode sim ser significativo. E onde há significado, sempre há valor.

As coisas se complicam um pouco (aliás, bastante) na medida em que a maioria das trocas mercantis se baseiam em produtos/serviços mais facilmente “quantificáveis”, que dizem respeito a ganhos tangíveis em termos de tempo, dinheiro e/ou conveniência.

Acredito que era isso que Wilde buscava combater no seu posicionamento artístico. Por isso, não acho que ele teria qualquer objeção ao argumento evolutivo de Dissanayake, já que este se refere a um benefício muito mais sutil que a arte traz: o do senso de pertencimento.

Eu certamente não teria qualquer oposição à hipótese formulada por essa autora (cujo livro não li). Mas gostaria de ressaltar que, pra além da coesão social, está a coesão individual. Afinal, qual é o valor da arte se ela não leva um indivíduo a se conectar consigo mesmo?

É essa, a meu ver, a sua função primordial. E, assim como no caso da coesão social, não estamos nem de longe falando de algo facilmente quantificável. Mas me arrisco a dizer que não há nada mais significativo do que isso.

Henrí Galvão

2 de novembro de 2018

Dizem que foi Grace Hopper – uma analista de sistemas da Marinha dos Estados Unidos – quem disse que, na dúvida, é melhor fazer e depois pedir desculpas, em invés de esperar por uma permissão.

Até porque, convenhamos, essa permissão quase nunca chega.

Letra:

Não é que eu tivesse a intenção
De chegar aqui sem mais ninguém
Só o que fiz foi me guardar
Da pressa do coração
De se ferir por qualquer um

Toda a minha vida eu fui
Como uma gota que não se dilui
Quem me daria permissão
Pra incitar uma explosão
Entre as auroras do norte e do sul
Que fosse repleta do azul mais cabal?

Henrí Galvão

18 de outubro de 2018

Uma questão sensível pra diferentes professores é o quão longe pode-se ir em determinado ensinamento.

Isso tende a ser frustrante pra um aluno que espera por grandes revelações logo de cara – sejam elas quais forem -, mas é também uma questão de precaução.

É difícil saber qual seria a reação de alguém ao se dar conta, antes da hora, da existência de um tom até então quase que inconcebível.

Letra:

Pode reclamar, pode me ofender o quanto quiser
Não adianta, que eu não vou te mostrar
O que te espera bem aqui do outro lado da fé
São ordens lá de cima, sabe como é

Se o preto e branco do papel
Quase nunca te satisfaz
Nem tente ler o livro dos céus
Melhor continuar com um pé atrás
É muito cedo pra querer
Se deslumbrar com o lilás

Henrí Galvão

8 de outubro de 2018

É verdade que, hoje em dia, é cada vez maior o risco de se tornar um “escravo do relógio”.

Mas também não é menos verdade que, sem ele, nem sempre é fácil dar a devida importância ao tempo.

A não ser, é claro, pra quem já está além dessas formalidades.

Mas ainda estou pra encontrar esse alguém.

Letra:

Não sou mais que ninguém
Disso eu sei muito bem
Aqui no meu ashram
É sempre de noite
E é sempre de manhã
Não canso de abusar
Do meu direito de nunca chegar
A qualquer conclusão
Não digo nunca, jamais