Sobre ter o que dizer

No início do ano o americano Cass McCombs lançou seu mais recente álbum de estúdio, Tip of the Sphere (que, por sinal, é quase tão bom quanto o anterior, Mangy Love), e foi tema de uma matéria muito interessante da revista Vanity Fair.

A autora da matéria em questão, Erin Vanderhoof, observou que as músicas de Cass são conhecidas por fazer “coisas agradavelmente inesperadas”. O que, segundo ele, viria da forma com que costuma compor:

A minha abordagem é de trás pra frente”, ele diz a respeito do seu processo de composição, “ao escrever, geralmente, a letra primeiro, e depois tentar fazer a adaptação pra uma música… ao invés do outro jeito, que eu tentei fazer no passado. Você nunca realmente consegue dizer o que quer quando escreve a música primeiro e depois tenta – sei lá – triturar um punhado de palavras naquele espaço. Isso parece pouco natural pra mim.

Embora o meu próprio processo de composição seja o que Cass aparentemente entenderia como sendo o mais lógico – ou seja, primeiro vem a música, depois vem a letra –, concordo totalmente com a sua opinião de que isso é bem pouco natural.

Inclusive me parece até irônico que ele diga isso, porque logo em seguida, na mesma matéria, ele diz que a música é um “artifício”, algo “falso” e “sintético”, e que… “É justamente isso o que eu gosto nela”.

Só aí já dá pra ver como a questão do valor da “naturalidade” na arte rende uma discussão e tanto. Mas como em agosto do ano passado dediquei todo um texto pra falar sobre isso, quero focar em outro ponto aqui.

O trecho que mais me interessa na citação que transcrevi é aquele em que Cass diz que um compositor nunca consegue “realmente” dizer o que quer quando a letra está subordinada à música.

Essa é outra opinião com a qual também estou de acordo, mas o fato é que isso nunca me incomodou muito. Talvez porque, diferentemente dele, não me considero um músico que tenha o que dizer.

Sei que essa última frase pode soar estranha. Pra evitar qualquer mal entendido, acho válido destacar novamente algo que mencionei num texto de setembro do ano passado: a diferença entre “gerar” e “expressar” emoções através da arte.

Essa diferença foi abordada por David Byrne num trecho do seu livro Como Funciona a Música, quando ele defende que “Fazer música é como criar uma máquina que serve para desenterrar as emoções tanto dos intérpretes quanto dos ouvintes.”

Essa citação de Byrne diz muito sobre a minha experiência como compositor porque, sinceramente, ter ou não ter o que dizer faz muito pouca diferença pra mim.

Afinal, de um jeito ou de outro, eu nunca sei o que vou dizer até o momento em que me manifesto de fato. O que digo está sempre subordinado ao que a música quer que eu diga (ou o que ela me permite dizer, o que pra mim dá no mesmo).

E tudo isso me lembra de algo que mencionei há quatro meses, num texto em que comparei as perspectivas de Jung e de Gurdjieff quanto ao processo criativo.

Na ocasião, falei sobre o que Gurdjieff chamava de arte objetiva, a qual contrastei com a visão de Jung, para quem (transcrevendo as minhas próprias palavras) “o processo criativo nunca estaria totalmente sob controle do artista, por mais que ele pudesse pensar o contrário.”

O que fica implícito aí é que, apesar de, no fim das contas, o artista nunca ter controle total sobre a sua criação, existem aqueles que abordam o processo criativo de forma totalmente deliberada (exatamente como Gurdjieff dizia que devia ser) e pensam que estão no controle.

Cito abaixo um trecho de um texto de Jung chamado “Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética” (que aparece no livro O Espírito na Arte e na Ciência) em que ele fala disso com mais detalhes:

[…] Existem obras em prosa e verso que nascem totalmente da intenção e determinação do autor, visando a este ou àquele resultado específico. Neste caso, o autor submete seu material a ser trabalhado a um tratamento com propósito definido, tirando ou adicionando, enfatizando um efeito, atenuando outro, dando um toque colorido aqui, outro acolá, considerando cuidadosamente os possíveis efeitos e observando constantemente as leis do belo e do estilo. Neste trabalho o autor aplica seu julgamento mais criterioso e escolhe com inteira liberdade a expressão desejada. Seu material é para ele apenas material, subordinado ao seu propósito artístico: é isto que ele quer produzir e nada além disto. […]

Esse é um tipo de artista. Já o outro tipo, segundo Jung, é aquele que “tem consciência de estar submetido à sua obra ou, pelo menos, ao lado, como uma segunda pessoa que tivesse entrado na esfera de um querer estranho.”

O primeiro tipo (do qual talvez Cass McCombs seja um exemplo, pelo menos no que se refere à escrita de letras) expressaria uma atitude de “introversão” artística, enquanto o segundo (no qual me incluo) expressaria principalmente uma atitude de “extroversão”.

A simples menção das palavras “introversão” e “extroversão” já é capaz de causar muita confusão. Por isso, também me parece prudente mostrar como Jung define essas duas atitudes (pelo menos quanto à criação artística):

[…] O gênero introvertido caracteriza-se pela afirmativa do sujeito e de suas intenções e finalidades conscientes em oposição às solicitações do objeto; em contrapartida, o gênero extrovertido é caracterizado pela subordinação do sujeito às solicitações do objeto. […]

É por ter essa abordagem mais “extrovertida” que, com todas as limitações que a música me impõe no que se refere à escrita de uma letra, me sinto grato por ter algo que me leve a caminhos aos quais eu provavelmente não chegaria por conta própria.

O que, por sua vez, também tem tudo a ver com o fato de que este é o meu último texto para o blog, pelo menos por um bom tempo.

Não por falta do que dizer (a essa altura acho que já deixei bem claro que essa nunca foi a questão pra mim). Simplesmente pra poder direcionar os meus esforços pra que aquilo que canto se faça ouvir mais claramente.

Pelo menos praqueles que estejam dispostos a me ouvir.


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