“Ainda tenho de ser educada?”

Os últimos três textos que escrevi para o blog foram dedicados em sua maior parte a falar do quanto considero problemática a concepção de arte de um dos mais importantes místicos do século XX, o russo George Gurdjieff.

Mas talvez seja importante dizer que, se fiz isso, não foi por antipatia a Gurdjieff. Muito pelo contrário: não sinto nada além de gratidão pelo que venho aprendendo com os princípios do Quarto Caminho (que é o nome que ele dava à sua doutrina).

Destes, um que me fascinou de cara – e que, com o meu limitado conhecimento de espiritualidade e religião, eu nunca vi ser formulado de forma tão contundente em nenhum outro lugar – é o da diferença entre o saber e o ser.

Já falei sobre isso no texto que publiquei em junho aqui no blog, quando trouxe um trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido (escrito por P. D. Ouspensky) em que Gurdjieff dizia que “o grau do saber de um homem é função do grau de seu ser”.

Pra melhor entender essa frase (e pra complementar tudo o que foi dito no texto de junho), transcrevo abaixo o que ele diz pouco antes disso:

[…] Na civilização ocidental muito particularmente, admite-se que um homem pode possuir um vasto saber, pode ser, por exemplo, um sábio eminente, autor de grandes descobertas, um homem que faz progredir a ciência e, ao mesmo tempo, pode ser e tem o direito de ser um pobre egoísta, discutidor, mesquinho, invejoso, vaidoso, ingênuo e distraído. Parece que aqui se considera que um professor tem que esquecer sempre seu guarda-chuva. […] (grifo meu)

Deve ser difícil achar uma pessoa que tenha alcançado certo nível de reconhecimento em qualquer área que não tenha, em maior ou menor medida, passado a se permitir ser menos vigilante em relação às suas fraquezas de caráter.

Pra trazer essa discussão pro campo da música, a frase-título do texto de hoje me parece um exemplo e tanto disso.

Elis Regina fotografada por Marcia Santos

Essa frase é geralmente atribuída a Elis Regina – considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos –, sendo que a citação completa é a seguinte: “Por que exigem de mim tanta coisa? Sou boa cantora e ainda tenho de ser educada?”

É claro que seria injusto e irresponsável da minha parte querer tirar maiores conclusões sobre uma pessoa a partir de uma única citação, sendo que nem mesmo sei de que contexto ela foi tirada.

Mas, sinceramente, mesmo se descobrissem que essa citação foi toda inventada, isso faria pouca diferença pra mim. O que realmente me preocupa é que seja perfeitamente possível que uma grande cantora diga algo assim sem que isso cause estranhamento.

Imagina se, ao invés disso, ela tivesse dito: “Poxa, sou educada, gentil e meiga. Ainda tenho que cantar bem?” Esta citação, sim, seria um absurdo. Já a anterior, não. Por quê? É esse tipo de desequilíbrio, tão presente na nossa sociedade, a que Gurdjieff se referia.

Repare que não estamos falando de diferenças entre habilidades. É claro que qualquer pessoa que foque em determinada área dificilmente vai alcançar um nível parecido em outros campos da vida. (Seria demais esperar que Pelé fosse um grande cantor, por exemplo.)

A questão, como comentei alguns parágrafos atrás, é que estamos falando de qualidades de caráter. E não me parece uma atitude muito inteligente chegar ao ponto de sentir orgulho das próprias limitações no que se refere a isso.

Inclusive eu poderia defender essa minha argumentação com uma outra frase atribuída a Elis: “Importante é recuperar o ser para o próprio ser, na procura da melhoria da qualidade de vida.”

Se há uma certa contradição entre essa citação e a anterior, isso tampouco é de se surpreender. Outra coisa que Gurdjieff observava era o quanto falta à maioria de nós uma verdadeira unidade em termos de opiniões, intenções etc.

Como ele disse certa vez, “O homem está fragmentado numa multidão de pequenos ‘eus'”. Me parece evidente que Elis Regina não era uma exceção a essa regra.

(E eu, é claro, também não.)


comentários?

Anúncios