A acidentalidade do juízo estético

Pra fechar essa série de três textos sobre o termo arte objetiva de acordo com o místico russo George Gurdjieff, nas próximas linhas vou abordar um segundo aspecto dessa definição de arte com o qual não estou totalmente de acordo.

Se você chegou até aqui e não está familiarizado com os ensinamentos de Gurdjieff, recomendo fortemente a leitura do meu texto de dois meses atrás, visto que não tem como separar essa sua concepção de estética da doutrina do Quarto Caminho.

Ainda assim, posso escolher uma única frase sua (que já aparece no meu primeiro texto) como ponto de partida pra tudo o que estou discutindo nessa série: “Quando se trata de arte objetiva, não pode haver nada de acidental, nem na própria criação da obra, nem nas impressões que dá.”

No texto passado, ao falar do processo criativo, trouxe o pensamento do psicanalista suíço Carl Jung pra defender a minha posição de que mesmo o que parece “acidental” numa obra de arte pode muito bem estar de acordo com a expressão de princípios impessoais.

Logo, embora eu considere radical e até irreal a noção de que “não pode haver nada de acidental” na criação, naquele texto me pareceu muito mais importante dizer que a falta de controle por parte do artista não impede que ele crie algo relevante em termos espirituais.

Hoje, porém, a minha crítica vai ser um pouco mais direta. Isso porque, como vimos no terceiro parágrafo do texto de hoje, Gurdjieff considerava que também na apreciação estética da arte objetiva não podia haver “nada de acidental”. Em outras palavras,

[…] Tudo é matemático. Tudo pode ser calculado e previsto de antemão. O artista sabe e compreende a mensagem que quer transmitir e sua obra não pode produzir certa impressão num homem e impressão completamente diferente noutro, sob a condição, naturalmente, de que se tomem pessoas de um mesmo nível. […]

A primeira coisa a se comentar a respeito de mais esse trecho do livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido é que o próprio Gurdjieff ressaltava que as impressões que uma obra de arte transmite nunca vão ser, a rigor, totalmente objetivas.

Como ele diz em outro momento no mesmo livro (que, nunca é demais lembrar, foi escrito por Ouspensky, e não por ele): “[…] para poder extrair alguma coisa [da arte objetiva], são necessários uma grande unidade interior e um grande controle de si.”

Ainda assim, haveria algo de substancialmente diferente nesse tipo de arte na medida em que ela (sabe-se lá como) estaria além das associações feitas de forma espontânea pelos diferentes indivíduos sujeitos às suas impressões.

O porquê de a arte objetiva estar além dessas associações é um mistério pra mim, e talvez essa seja a principal razão de, como comentei logo no início do meu primeiro texto dessa série, eu não me sentir à altura de falar com propriedade sobre esse assunto.

Ou, talvez, porque certo mistério e maleabilidade sejam parte fundamental do que faz uma obra de arte. Obviamente, não era assim que Gurdjieff via as coisas, já que esse tipo de imprecisão seria para ele “inconsciência” – o pecado mortal no esoterismo.

Mas, mesmo considerando que seja possível que uma determinada obra de arte revele princípios objetivos – a realidade tal como ela é – sem nenhum tipo de ambiguidade, seria essa a sua função?

Acredito que não. Não foi à toa que falei sobre Jung e o inconsciente coletivo no meu texto anterior, porque realmente acredito que é assim que o artista pode melhor atender às demandas da sociedade em que está inserido.

Da mesma foma que acessar o inconsciente pessoal é uma forma de um indivíduo integrar aspectos da sua psique que não estejam muito bem resolvidos, o mesmo ocorre no acesso de uma sociedade, através da arte, ao inconsciente coletivo da humanidade.

É claro que esse processo pode ser um tanto frustrante pra quem espera respostas prontas e um caminho muito claramente delimitado. Como Jung diz ao final de seu texto “Psicologia e poesia” (incluído no livro O Espírito na Arte e na Ciência),

Uma obra-prima é como um sonho que[,] apesar de todas as suas evidências[,] nunca se interpreta a si mesmo e também nunca é unívoco. Nenhum sonho diz: “Você deve”, ou “esta é a verdade”; ele apenas propõe uma imagem, tal como a natureza que faz uma planta crescer. Compete a nós mesmos tirar as conclusões.

Com essa última citação espero ter deixado claro o porquê das minhas críticas à arte objetiva. O que com certeza não espero é trazer outras pessoas pro “meu lado”, até porque entendo que defendo uma perspectiva que, como vimos, traz uma série de limitações.

Não só por causa de uma certa (e já mencionada) ambiguidade, mas também porque ter um entendimento da arte mais de acordo com o que Jung pregava faz com que ela não tenha o mesmo caráter de atemporalidade da definição de arte objetiva de Gurdjieff.

Logo, num e noutro caso, não estamos falando de uma escolha simples de se fazer. De qualquer forma, o mero reconhecimento de que não existe apenas uma maneira de se honrar a dimensão espiritual da arte já me parece extremamente gratificante e valioso.


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