Por que me defino como um fazedor de canções

Se você for visitar o meu perfil em páginas como o Bandcamp e o SoundCloud, vai poder ver que eu me denomino “um fazedor de canções numa jornada de autorrealização”.

“Fazedor de canções” foi uma expressão que ouvi do espanhol Joan Manuel Serrat. Como ontem mesmo publiquei meu texto sobre ele e o Eneagrama, esse me parece o momento ideal pra explicar porque também decidi utilizá-la.

Antes de mais nada, é importante dizer que o texto de ontem (assim como todos os da série Enneagram & Music) foi escrito em inglês. Assim, lá pelas tantas menciono uma entrevista (da segunda metade dos anos 70) em que Serrat se definia como um “maker of songs”.

Como a entrevista foi para um programa de TV da Espanha mesmo, a expressão que ele usou foi, de fato, “hacedor de canciones”. Essa foi a melhor maneira que ele encontrou de demarcar as diferenças entre fazer canções e fazer música e/ou poesia à parte.

Achei muito interessante perceber que em espanhol, assim como em português, é difícil encontrar uma palavra que tenha o mesmo sentido de songwriter. Que em inglês quer dizer justamente aquele que escreve canções.

Por aqui, quase sempre se dá preferência à palavra compositor. O problema é que ela pode ser usada pra falar não só de quem escreve canções, mas também de quem escreve outros tipos de música (este, em inglês, é chamado de composer).

A bem da verdade, até temos por aqui uma palavra que poderia ser usada como sinônimo de songwriter: cancionista. Inclusive já mencionei o quanto ela me pareceu muito bem utilizada por Rogério Skylab, que falou das diferenças entre estes e os “músicos”.

Não considero cancionista uma palavra ruim, muito pelo contrário. Mas realmente acho que fazedor de canções exprime melhor a forma com que me enxergo.

A palavra fazedor tem um caráter muito mais prosaico – ainda que menos elegante. Consequentemente, ela me ajuda muito a não ter cerimônia em dizer que, pra mim, fazer canções é um trabalho como qualquer outro.

Talvez trazer um exemplo de outra área ajude a entender essa minha escolha: romancista e escritor de romances são basicamente a mesma coisa. Mas uma expressão soa muito diferente da outra, não é?

Por outro lado, entendo que tal escolha também envolve um risco considerável: a ênfase no “fazer” pode me levar a ser visto mais como um artesão do que como um artista.

Isso seria um golpe tremendo pro meu ego, porque ainda tenho muitos sonhos e ambições em relação ao que quero alcançar com a minha arte, e nem tudo o que faço – ou quero fazer – são canções.

No entanto, por questões de ordem prática, esse vem sendo o único tipo de música que compartilho. Logo, sinto que é importante que eu busque comunicar com mais clareza aquilo que tenho a oferecer no momento.

Acho até que é bem possível que mais pra frente eu me sinta mais confortável em me denominar um compositor (ou talvez um cantor e compositor).

Até lá, no entanto, tenho muito trabalho pela frente.

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