Dos benefícios de ser ignorado

No capítulo 8 de Como Funciona a Música (“Como criar uma cena”), David Byrne questiona um dos pressupostos mais consagrados sobre o que constituiria uma apresentação ao vivo ideal: a presença de um público que esteja constantemente engajado na performance daquele artista.

Aparentemente, é isso que dez em cada dez músicos querem. Mas, por mais desejável que tal atenção seja, ela também pode levar a uma inibição daquela capacidade de experimentação que é fundamental para um artista em início de carreira.

É basicamente isso que Byrne observa quando fala do quão importante foi o lendário clube CBGB, de Nova Iorque, para os primeiros anos de sua antiga banda, o Talking Heads:

No começo, o CBGB tinha um bar com um balcão comprido, e você precisava passar por ele e depois por um palquinho para chegar à mesa de sinuca nos fundos. Você podia passar o tempo jogando sinuca enquanto via uma banda (mais ou menos – ela estaria de costas para você), ou esperava a próxima. O CBGB era um lugar comprido e estreito, e apenas um pequeno grupo de pessoas conseguia de fato ficar em frente ao palco. A maior parte do público acabava se aglomerando no bar, ou em volta da mesa de sinuca, e essas pessoas atrás do palco muitas vezes mal prestavam atenção na banda. Isso pode não parecer ideal, mas talvez o fato de não tocar sob um intenso escrutínio (sempre parecia que apenas algumas poucas pessoas estavam prestando atenção) tenha sido importante, ou até benéfico. Essa situação descontraída, despojada e talvez até um pouco degradante permitiu um desenvolvimento criativo mais natural e tranquilo.

Ou seja, estamos falando aqui de uma situação que muitos empreendedores conhecem bem: os benefícios de ser ignorado. Principalmente quando levamos em consideração a liberdade que isso dá para “errar” bastante, e ver o que funciona ou não.

O que não significa, é claro, que o ideal seja ser ignorado o tempo todo. Mas, para um músico, não deixa de ser uma boa forma de se ajustar expectativas e lembrar que, querendo ou não, ele/ela (com raríssimas exceções) não poderá ter a atenção da maioria das pessoas.

Essa indiferença da maioria pode ser entendida simplesmente como o pedágio a se pagar para estreitar a distância com aqueles que de fato podem vir a se identificar com a sua mensagem de alguma forma.

É por isso que, pessoalmente, gosto muito do formato de apresentações conhecido como house concerts, e não acho nem um pouco contraditório enfatizar que uma das suas principais vantagens é o fato de proporcionarem ao público uma experiência mais imersiva.

A questão é que essa imersão só é possível quando um artista aprende a tornar sua mensagem forte o suficiente para alcançar quem vale a pena alcançar. E isso requer que se faça o dever de casa, que consiste em clareza de propósito e o comprometimento para segui-lo.

Ninguém disse que seria fácil.

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