Música tátil

Este é o segundo de uma série de textos em que pretendo compartilhar algumas impressões que me vieram com a leitura de Como Funciona a Música, o maravilhoso livro de David Byrne.

Hoje quero pegar um trecho do livro pra falar de algo que vem sendo cada vez mais levado a sério no mundo acadêmico: como as palavras que usamos acabam de certa forma direcionando e moldando a nossa visão de mundo.

No caso, Byrne usa o exemplo do verbo “play”:

Ellen Dissanayake comenta que em algumas sociedades africanas, a mesma palavra usada para “arte” pode significar “diversão”. Mesmo em inglês, o verbo “play”, que também significa “brincar”, é usado para “tocar” um instrumento. Essa postura em relação à arte e à performance é totalmente contrária à noção ocidental dos monumentos e grandes obras. Ela entende a cultura como algo efêmero e fugidio, como a música. Trata-se de uma experiência (mais uma vez, como a música), não um produto fixo e imutável. A música, de acordo com essa visão, é um estilo de vida, uma forma de existir no mundo, e não uma coisa que você pode segurar na mão ou guardar em um aparelho.

A primeira coisa que me chamou atenção ao ler esse trecho é que essa perspectiva sobre a música ser uma experiência (ao invés de algo estático) pode valer tanto para o “play”, em inglês, como para o “tocar”, em português.

Por outro lado, também existem diferenças consideráveis a se levar em conta. E o nosso “tocar”, quando se refere à performance musical, pode trazer uma série de limitações – nem sempre desejáveis.

Essas limitações provavelmente não são muito aparentes quando pensamos na maioria dos instrumentos musicais. Quase todos eles, em maior ou menor medida, de fato envolvem pelo menos algum tipo de toque.

Mas será que, por associar automaticamente o fazer musical com ações tangíveis, a gente não fica mais predisposto a ignorar um instrumento como o teremim, por exemplo, que não envolve nenhum tipo de contato físico?

Léon Theremin ”tocando” o seu instrumento

Por tabela, será que isso não nos levaria a dar uma ênfase exagerada aos instrumentos em que o toque seja mais forte e evidente, como é o caso da bateria (em detrimento da flauta, cujo toque é bem mais sutil)?

E como a ênfase no verbo “tocar” influenciaria na forma com que encaramos a música criada e executada sem que seja necessária muita habilidade manual? Será que um falante nativo da língua portuguesa teria uma tendência maior a desprezar a música eletrônica, por exemplo?

Pode parecer que estou indo longe demais com essas considerações, mas, como comentei no início deste texto, o que não faltam são pessoas que estudam exatamente esses tipos de associações mentais.

Lera BoroditksyUma delas (talvez a mais famosa atualmente) é a professora de ciências cognitivas Lera Boroditsky (nativa da Bielorrússia). Na citação abaixo, ela fala da influência do gênero linguístico na nossa percepção sobre os objetos:

Tome como exemplo a palavra ponte. Se essa é uma palavra feminina na sua língua, é mais provável que você diga que pontes são bonitas e elegantes. E se a palavra ponte é masculina na sua língua, é mais provável que você diga que pontes são fortes, e longas, e imponentes.

Antes de encerrar, quero fazer uma última consideração, tão ou mais importante que as anteriores: diferentemente do “play” da língua inglesa, o nosso “tocar” não pode ser usado como sinônimo de “brincar”.

O que me leva a pensar: será que com essa distinção a gente não ficaria muito inclinado a levar um pouco mais a sério o fazer musical – mais a sério do que precisaria?

Isso é particularmente relevante quando consideramos o quanto os diferentes processos de descobertas costumam depender justamente de não se levar a sério demais. E é disso que pretendo falar no próximo texto dessa série.

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