Música, e tudo o mais que a rodeia

Este é o primeiro de uma série de textos em que pretendo fazer algumas observações sobre uma leitura recente que teve um impacto tremendo em mim: Como Funciona a Música (How Music Works, no original), de David Byrne.

David Byrne

Acredito que muita gente conhece o autor pelo menos de nome, já que ele não só foi o líder do Talking Heads (uma das mais importantes bandas surgidas na cena punk norte-americana dos anos 70), como também colaborou com diversos músicos brasileiros (não custa lembrar que foi ele quem “redescobriu” Tom Zé).

Mas o fato é que David Byrne é muito mais do que um músico: ele é alguém que cultiva deliberadamente uma visão ampla sobre a música, e no processo levanta uma série de questões que, por qualquer que seja o motivo, nem sempre recebem a atenção que merecem.

Afinal, se queremos falar sobre como a música realmente funciona, não dá pra falar só das suas propriedades físicas ou matemáticas (que David também aborda, por sinal). É fundamental levar em conta aspectos culturais, de negócios e muito mais.

E é justamente esse tipo de perspectiva que busco realçar quando escrevo sobre música pra este blog. Mas o fato é que até aqui não encontrei melhor maneira de me expressar quanto a isso como a forma com que David começa um dos últimos capítulos do livro:

Várias pessoas acreditam que existe alguma essência misteriosa e inerente escondida em todas as grandes obras de arte, e que é graças a essa substância invisível que elas causam um impacto tão grande em nós. Esse aspecto inefável ainda não foi isolado, mas hoje sabemos que forças sociais, históricas, econômicas e psicológicas influenciam nossa resposta – tanto quanto a própria obra em si. A arte não existe isoladamente. E de todas as formas de arte, a música, por ser efêmera, é a que mais se assemelha a uma experiência que a um objeto – pois se ancora no lugar onde você a ouviu, quanto você pagou por ela, e quem estava ao seu lado.

Uma possível objeção à ideia de analisar esses outros aspectos em torno da música é de que isso tornaria a experiência toda um tanto “rígida”, ou “fria” demais.

Mas, a meu ver, o que acontece é justamente o contrário: trazer todas essas particularidades à tona e pensar em como elas afetam determinada experiência musical só faz com que essa experiência seja ainda mais rica e gratificante.

Sem falar que, à medida que nos acostumamos a pensar assim em relação a qualquer área que seja, é possível levar esse tipo de abordagem pra outros contextos, aparentemente desconexos uns dos outros.

Da minha parte, é extremamente sedutor saber que, de alguma forma, isso me ajuda a aumentar a minha capacidade de me conectar com as pessoas através da música e das palavras.

E, por mais paradoxal que isso possa parecer, é também uma grande revelação perceber que às vezes a melhor maneira de conseguir isso é saber a hora de criar algum tipo de distanciamento em relação àquilo a que me dedico todos os dias.

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