O dilema de um músico da geração Y

Ainda em maio do ano passado, o jornal Valor Econômico publicou o resultado de uma pesquisa bem interessante, em que pessoas que completaram 30 anos em 2016 – o que as coloca como parte da chamada geração Y, ou Millennials – disseram o quanto estavam satisfeitas com as suas vidas (profissional e pessoal).

E tão interessante quanto o resultado da pesquisa em si – não muito animador, por sinal – foram as reações a ela. Alguns meses depois da matéria do Valor, o site SOS Solteiros publicou um texto a respeito (que, curiosamente, só foi ganhar mais evidência há algumas semanas) com o título “Tá todo mundo mal”.

Logo no começo desse texto, seu autor, Claussen Munhoz, fez uma observação pra lá de reveladora: “não somos os únicos que não viraram empresários de sucesso ou estrelas do Rock” (faço questão de ressaltar essa frase porque, como vamos ver logo mais, a carapuça serve pra muita gente).

Bom, já mais pro fim de 2016, Simon Sinek (mais conhecido pela sua palestra TED “Start with Why”) traçou um panorama bem controverso dessa situação numa entrevista pro empreendedor Tom Bilyeu (isso ainda no seu antigo canal no YouTube, o Inside Quest).

Em um dado momento, Sinek descreve quatro grandes fatores que contribuem pra essa insatisfação generaliza da geração Y: criação, tecnologia, impaciência e ambiente.

Destes, quero destacar aqui a criação e a impaciência. Segundo Sinek, essa é uma geração que não só cresceu sendo levada a crer que realizaria grandes coisas, mas que se acostumou a querer – e frequentemente ter – tudo pra ontem. O resultado?

É como se eles estivessem aos pés de uma montanha e tivessem esse conceito abstrato chamado “impacto que eles querem ter no mundo”. Que é o topo. Mas o que eles não veem é a montanha. Não me interessa se você sobe a montanha rápido ou devagar, ainda há uma montanha.

Levando em conta que também faço parte dessa geração, acredito que tal análise ajuda bastante a entender por que às vezes ainda parece ser tão difícil pra mim e pra muitos outros músicos da minha faixa etária aceitar as atuais regras do jogo em que decidimos entrar.

Isso porque, por mais absurdo que possa parecer, todas as nossas expectativas quanto a causar um grande impacto não nos pareciam assim tão infundadas. Vale lembrar que fomos adolescentes dos anos 90. Crescemos vendo muitos dos nossos músicos favoritos tendo espaço nos principais meios de comunicação.

Mas quando chegou a nossa vez de entrar em cena as coisas já haviam mudado drasticamente, graças às mudanças que a indústria da música começava a atravessar (principalmente por causa da internet). E isso vem tornando o sucesso em larga escala algo muito menos provável.

Em outras palavras, cada vez mais estamos vendo nessa indústria um fenômeno que os economistas chamam de “o vencedor leva tudo”: os que se destacam em certa área se tornam super-mega-astros que ocupam uma fatia cada vez maior do mercado.

Foi por essas e outras que o escritor Chris Anderson ressaltou, ainda em 2006, a importância da chamada “cauda longa”, que trata justamente do fortalecimento cada vez maior dos mercados de nicho (como comentei aqui).

O grande problema disso é: como convencer uma pessoa que se acostumou a sonhar grande a de repente aceitar que pode ser igualmente satisfatório alcançar apenas uma fatia infinitamente menor do mercado?

Como mudar a mentalidade de uma pessoa cujo credo (conscientemente ou não) sempre foi: “Eu quero entrar para a história da música”[1]? Pra quem sempre pensou assim, qualquer coisa menos que isso seria um fracasso retumbante.

A essa altura, já deve ter dado pra perceber que eu não sou a pessoa mais recomendada pra oferecer uma solução pra esse dilema – e nem é essa a minha pretensão. Mas talvez seja a hora de considerar redefinir o sucesso a partir de valores e princípios mais constantes (algo que Stephen Covey chamava de Ética do Caráter).

E uma boa forma de começar nessa jornada (e encerrar esse texto antes que ele fique longo demais) é escutar com mais carinho as palavras de Sinek na mesma entrevista acima mencionada:

O que essa jovem geração precisa aprender é paciência. Que algumas coisas que realmente, realmente importam, como amor, ou realização profissional, alegria, amor pela vida, autoconfiança, um conjunto de habilidades… qualquer uma dessas coisas, todas essas coisas requerem tempo.

 

[1]“I want to go down in musical history”. Esse é um verso de uma música dos Smiths chamada “Frankly, Mr. Shankly”, lançada (ironicamente) há pouco mais de 30 anos.

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