De onde vem o meu incômodo?

Comentei algumas vezes aqui no blog que vem crescendo cada vez mais a ideia de que o artista hoje em dia estaria se tornando, acima de tudo, um diretor artístico – ou seja, alguém cuja principal atividade é menos a de criação, e mais a de curadoria.

Essa é uma perspectiva bem interessante, mas quase sempre ela traz consigo pelo menos uma coisa que me incomoda: a suposta necessidade do artista estar constantemente aberto ao feedback do público no que diz respeito ao processo criativo.

O que me levou a pensar no seguinte: de onde vem esse meu incômodo? Seria isso apenas um capricho da minha parte, por eu estar ainda preso a um paradigma ultrapassado sobre o que significa ser um artista? E, se for o caso, que paradigma seria esse?

Pra abordar esse assunto, quero trazer algumas palavras do britânico Alan Moore – mais conhecido como o criador de graphic novels como Watchmen e V de Vingança –, numa declaração pro fantástico documentário The Mindscape of Alan Moore:

Nos últimos tempos, eu acho que os artistas e os escritores permitiram a si mesmos serem enganados. Eles aceitaram a crença prevalente de que a arte e a escrita são meramente formas de entretenimento. Elas não são vistas como forças transformadoras que podem mudar um ser humano, que podem mudar uma sociedade. (…) Não é o trabalho dos artistas dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse o que precisa, então ele não seria o público. Ele seria o artista. É o trabalho dos artistas dar ao público o que ele precisa.

Arrogância? Talvez. Mas antes de tirar qualquer conclusão precipitada, acho importante entender qual é a base pra esse argumento de Moore. E isso ele nos oferece logo antes da citação acima, quando diz o seguinte:

Eu acredito que magia é arte e que a arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens para alcançar mudanças de consciência.

Alan MooreDiferentemente de Moore, não tenho muito conhecimento sobre ocultismo. Mas se tem algo que compartilho com ele é a crença no poder transformador da arte em geral, e de como esse poder pode acabar se pervertendo – ou, na melhor das hipóteses, se diluindo – quando um artista se contenta em atender às demandas mais imediatas das pessoas.

Talvez pra um músico não consagrado adotar essa filosofia não seja uma escolha muito inteligente atualmente, já que diminuir cada vez mais a distinção entre o artista e o público – ou pelo menos dar essa impressão – é algo que pode ajudar bastante como estratégia de marketing.

O risco disso, porém, é que a arte se torne uma mera commodity.

Não que eu condene completamente esse tipo de estratégia. Alguns dos músicos que eu mais amo passaram/passam por fases em que faziam/fazem um som bastante “comercial”, e isso nunca me impediu de admirá-los do mesmo jeito.

Até porque isso pode servir como porta de entrada pra que as pessoas conheçam um outro lado deles. Seja essa uma estratégia deliberada ou não, no fim das contas, quando se é um fã até esses trabalhos mais comerciais podem ser vistos com outros olhos.

Logo, encarando dessa forma, talvez haja um jeito de equilibrar essas duas abordagens, e então podemos pensar em arte e entretenimento como duas forças complementares – e não necessariamente antagônicas – na trajetória de um artista.

Mas é claro que é perfeitamente possível que eu esteja forçando a barra nessa suposição. Se for o caso – se não houver mesmo como conciliar as duas coisas –, então me arrisco a dizer que a maior parte do que venho fazendo aqui é uma grande perda de tempo.

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