A inteligência artificial na música

Data (Jornada nas Estrelas)No seu clássico livro Inteligência Emocional, o psicólogo norte-americano Daniel Goleman cita o androide Data, de Jornada nas Estrelas, como um exemplo do quão limitante é pensar na mente humana como se ela fosse um grande computador – sem levar em conta, portanto, a influência das emoções nos pensamentos.

No caso de Data, isso se refletiria da seguinte maneira:

Na falta do senso lírico que traz o sentimento, Data pode tocar música ou escrever poesia com virtuosismo técnico, mas sem paixão. O que demonstra o anseio de Data por sentir anseio é que faltam inteiramente à fria visão cognitiva os valores mais elevados do coração humano — fé, esperança, devoção, amor.

Vale lembrar que Inteligência Emocional foi publicado pela primeira vez há mais de 20 anos. Naquela época, aparentemente ainda era possível falar em robôs sem que se pensasse nas implicações da inteligência artificial na sociedade como um todo.

Hoje em dia, por outro lado, é comum que a simples menção desse assunto considere também os riscos de um cenário apocalíptico em que, um dia, as máquinas podem fazer com que o ser humano se torne cada vez mais obsoleto (mais ou menos como em Matrix).

E, nesse contexto em que se abrem tantas frentes de atuação, não foi bem uma surpresa saber que o projeto Magenta do Google divulgou ano passado a sua primeira música feita totalmente por inteligência artificial (não só eles, aliás).

A música em si é bem simples, mas acaba trazendo a pergunta: será que num futuro não tão distante o músico – seja ele compositor, intérprete etc. – corre o risco de ter que passar a competir com as máquinas pela atenção das pessoas?

A princípio, não. Como já comentei aqui uma vez, ouvir música é uma experiência subjetiva. O simples fato de saber que uma música, por melhor que seja, foi feita por uma máquina, já faz com que a apreciação estética tenha um impacto bem menor do que poderia.

Afinal, pra maior parte das pessoas, muito da importância que se dá à música vem justamente de (inconscientemente) partirmos do pressuposto de que o artista de alguma forma compartilha de vivências e valores parecidos com os nossos.

É claro que, se acontecer de uma máquina compor e interpretar uma música e sermos levados a crer que todo o processo foi feito por seres humanos, aí então a coisa muda completamente de figura (talvez isso já esteja até acontecendo, quem sabe?).

E, pra terminar, vale aqui mais uma consideração: talvez no futuro os robôs cheguem a um nível de sofisticação tão grande que eles mesmos acreditem ser, ou pelo menos “se sintam”, humanos (como David, do filme A.I. – Inteligência Artificial).

Nesse dia, provavelmente já teremos chegado a um ponto em que um robô será visto como nosso semelhante. Logo, uma música feita por uma dessas máquinas vai ter grandes chances de tocar o coração das pessoas sem nenhuma necessidade de se fingir que foi feita por outra pessoa.

Até que esse dia chegue, no entanto, a música – e a arte de um modo geral – vai provavelmente continuar sendo a última fronteira da inteligência artificial.

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