Entretenimento interiorizado

comentei que o que faço é música intrapessoal, e já falei do que isso se trata. Mas pro propósito do texto de hoje acho que não faz mal repetir: é a música como uma forma de autoconsciência, pra além (mas não necessariamente contra) do entretenimento.

Com tudo isso, talvez tenha faltado mencionar o que me levou a essa expressão. Nesse sentido, me sinto quase que na obrigação de mencionar um livro que me ajudou muito a chegar a esse grau de clareza a respeito do que faço: Love Live Forgive.

Love Live Forgive nada mais é que uma compilação de depoimentos de diferentes artistas a respeito de amor, perdão e arte. Editado pelo neozelandês Justin St. Vincent, diretor do coletivo de artistas e autores Xtreme Music, o livro pode ser baixado gratuitamente aqui.

Gary MalkinDentre os vários relatos, um dos que me tocou em particular foi o de um músico chamado Gary Malkin, que em dado momento menciona algo que ele considera da mais alta importância: passar do “entertainment” (ou seja, entretenimento) para o “Inner-tainment”.

“Inner-tainment” é uma palavra difícil (pra não dizer impossível) de traduzir. Mas se levarmos em conta que o sufixo –tainment em inglês é usado pra juntar o entretenimento com alguma outra coisa, talvez dê pra encontrar um caminho.

Por exemplo, a palavra “edutainment” é a junção de educação + entretenimento, e é traduzida como “entretenimento educativo”. Seguindo esse raciocínio, podemos dizer que “innertainment” representaria um “entretenimento interiorizado” (já que “inner” significa “interior”).

Sem dúvida que a expressão “entretenimento interiorizado” pode ser entendida de diferentes maneiras. Falando por mim, acredito que qualquer manifestação artística que ajude uma pessoa a se dar conta da riqueza da sua vida interior pode ser considerada um tipo de innertainment.

Isso de certa forma é até um paradoxo, porque a ausência de estímulos externos é considerada um requisito básico pra que um ser humano chegue a ter uma boa noção a respeito de si mesmo. Daí porque muitas tradições ressaltam a importância de se meditar, desconectar e parar pra refletir sobre onde se quer chegar.

E, ainda que a música tenha a grande vantagem de ser a única manifestação artística que não dependa de estímulos visuais, nem mesmo ela pode ser usada pra substituir todas essas práticas que mencionei no parágrafo anterior.

Por outro lado, ela pode perfeitamente servir ao menos como um lembrete. Mais do que isso, talvez ela possa servir até mesmo como propaganda (embora, obviamente, de um tipo bem diferente do qual estamos acostumados).

Então, voltando aos primeiros parágrafos, se eu fosse dizer com outras palavras por que eu gosto tanto do termo música intrapessoal, eu diria o seguinte: porque música é a coisa mais preciosa que existe depois do silêncio.

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